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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Negros: a raça "preterida"

Recebi este texto através de um email, quase a me propor uma reflexão. Trata do preconceito racial brasileiro e tenta entendê-lo, como sendo algo que se sobrepõe, ou seimiscui a outros formas de preconceito. Texto escrito por sociólogo renomado, José de Souza Martins, autor de obras importantes sobre a questão agrária, mas nem por isso, ileso a discordâncias e críticas.
Não iremos fazer aqui uma história da análise das relações raciais no Brasil, até porque este não é o objetivo deste blog, entretanto, podemos avaliar alguns argumentos produzidos. 
O autor afirma: 
"O preconceito racial não é sempre o mesmo em todas as partes." Ora esta é uma conclusão óbvia, há distintas construções históricas correspondem realidades históricas diferentes. O capitalismo que se construiu no Brasil difere do capitalismo americano, inglês, sueco, etc. Embora, tenhamos aspectos estruturais semelhantes, como as relações sociais de produção.
Por outro lado, no Brasil, nos Estados Unidos, na África do Sul, e em outros países, se repetiu a convivência entre raças, uma característica estrutural de nossa história demográfica, e isso sim, deu ensejo a formas de racismos diversas, portanto, isto não quer dizer que não exista racismo, mas que suas naturezas são distintas.
Quanto á questão das diversas formas de preconceito, e sua superposição, ele diz:
 "Ele é aqui preconceito múltiplo e combinado, o que nos remete às nossas origens estamentais, da desigualdade fundada no nascimento, raiz estrutural das nossas desigualdades sociais, independente da raça. Ele é ao mesmo tempo de riqueza, de gênero, etário, de orientação sexual, religioso (a perseguição aos praticantes do candomblé, no passado).
Neste caso, autor reage como se estes preconceitos não estivessem presentes em outras sociedades. É como se a Klu Kluz Klan não destilasse seu ódio aos judeus, aos comunistas, aos homossexuais, às feministas, ou para tantos outros grupos que saiam fora do paradigma estadunidense de civilidade: homem, branco, anglosaxão, conservador e protestante. Podemos então afirmar que não existe preconceito de riqueza, religioso,  de gênero, etário... nos Estados Unidos, o país usado como contraponto? Podemos também dizer que no caso dos EUA estes estigmas também não estão presentes? 
Ele continua: 
"Reduzido ao estigma da cor, o preconceito é aqui relativamente volátil. A cor pode ser diluída na mestiçagem, o que não ocorre nos Estados Unidos, pois lá é a origem racial e não apenas a cor que conta." E aduz: "Não é casual que boa parte da nossa vida cotidiana seja constituída por práticas para maquiar esses indícios, mesmo a raça, na adoção da toalete que encobre ou modifica traços estigmatizantes, do gesto ao cabelo. É como as vítimas mais experientes procuram se defender." Neste caso, o autor fala da ideologia do branqueamento, traço marcante de nosso racismo. O negro no Brasil, na busca por escapar das situações incômodas de racismo procura branquear-se. E mais, o branco espera que ele o faça. Isso passa a ser um atributo reconhecido pelo branco de que aquele negro quer cooperar, que ele aceita o "status" que lhe foi conferido socialmente. O ápice do sentido colaboracionista é o casamento interracial, naquele momento o negro está garantindo às gerações futuras à sua aceitação, mas se isso não for possível, que tal alisar o seu cabelo, ou cortá-lo bem rente ao couro cabeludo, ou, no tratamento de ortodontia, arrancar alguns dentes para que sua dentição, sua mordedura, e seu sorrido fiquem mais parecidos com o de uma pessoa branca, ou ainda, uma operação plástica para mudar para "afinar" os lábios e o nariz são variadas as opções.
Não sou contra estas "escolhas", o que não posso aceitar é a interferência de uma ideologia de dominação racial na tomada dessas decisões. É mister que elas sejam efectivamente "escolhas", e não padrões sociais de dominação a serem seguidos.
Em outro ponto, Martins afirma a sobreposição do preconceito social ao preconceito racial:
..."a superposição de preconceitos de várias referências sociais parece indicar a cor como atributo subsidiário de um preconceito social"... Muito me debati sobre esta questão, mas atualmente, vejo-a como um dilema sem sentido. Esta afirmação nos remete a ideia de que abandonamos a luta racial quando focamos na questão social e vice-versa. Voltando aos Estados Unidos, uma realidade onde a racialização do protesto social foi notória. Os Panteras Negras, Malcoml X, Martin Luther King não deram início a toda uma série de lutas sociais que foram muito além do seu caráter racial? É preciso reconhecer que a campanha pelos direitos civis começa pela batalha dos negros norte-americanos, mas, atrás dela vieram os sindicatos de trabalhadores, as mulheres, os homossexuais, os comunistas, enfim todo o conjunto do movimento social daquele país. Muitos historiadores concordam inclusive, que os EUA estiveram à beira do socialismo. E no caso brasileiro, são várias os sindicatos que mantém secretarias voltadas para a questão racial. A CUT, ano passado, colocou a luta contra o racismo como uma de seus objetivos centrais. O próprio MST tem posições favoráveis a luta contra o racismo, para falar de um tema mais afeito ao autor supracitado.

Para concluir, pois, acho que me estendi demais, gostaria de chamar a atenção para o termo "preterimento". É, como nós negros fomos preteridos neste país. Os últimos censos desfiaram uma avalanche de dados sobre a indigência negra, acerca das diferenças de padrão de vida entre negros e brancos. O professor Marcelo Paixão é a maior autoridade no assunto, além de manter um centro de estudos, o LAESER - Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais - vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ. Algumas de suas conclusões já chegaram à mídia corporativa. O Estadão publicou em 2008 que o IDH de negros no Brasil fica 44 posições abaixo dos brancos. Já o site Com Ciência da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - publicou um artigo intitulado Brasil Negro onde Paixão enumera as diferenças entre negros e brancos nos mais variados indicadores sociais, coisa que não vamos repetir aqui. Para quem quiser se aprofundar, basta acessar o link acima.
Seria ótimo se a mídia corporativa facilitasse o debate. Não nego a importância do texto do professor Martins, entretanto, seria conveniente que a contra argumentação, o contraditório estivessem ali, com o mesmo destaque, que fosse escrito por um intelectual negro, há tantos. Senão fica parecendo apenas mais uma tentativa de reforçar uma ideologia. Algo, que fez parte de um país em demolição. Agora cabe-nos construir o novo, e sem racismo.
Abaixo o texto do professor José de Souza Martins. Não faremos como o Estadão.
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