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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Bombeiros e Policiais: a inusitada greve da segurança pública

Por Sergio J Dias

Em 1990, fazíamos parte de um dos sindicatos mais fortes do setor público do Poder Executivo. Logo após a derrota de Lula e da posse de Collor na presidência da República vimos toda a nossa estrutura sindical ser atingida por um duro golpe, através da Reforma Administrativa, capitaneada pelo economista Luiz Carlos Bresser Pereira, então  Ministério da administração Pública e Reforma do Estado. 
Os primeiros a serem atingidos foram os servidores com alguma liderança sindical, como forma de enfraquecer os sindicatos, companheiros foram colocados à disposição, transferidos e até demitidos. Muitos lutam, ainda hoje, para retornar ao trabalho, uma das muitas heranças malditas do nefasto governo.
Buscava-se com aquelas medidas, e outras como o Processo de Privatização das Estatais e a Reforma da Previdência, atender às exigências do Consenso de Washington, o que possibilitaria ao país voltar a receber empréstimos internacionais e restabelecer a confiança externa em relação à bancos e investidores. Entrávamos definitivamente no processo de globalização da economia, arreganhando nossas pernas para a entrada do capital internacional.
Entretanto, só o enfraquecimento dos sindicatos do Poder Executivo não era suficiente. Fazia-se necessário desmontar o sindicato mais forte e poderoso. Para isso, toda estrutura governamental do governo Fernando Henrique Cardoso preparou-se para a greve dos petroleiros de 1995. (Leia matéria: O Planalto sacou primeiro). Reeditando a ação de Margaret Thatcher na Inglaterra contra o sindicato dos mineiros, o então governo brasileiro usou de todos os instrumentos disponíveis para acabar com o poder da FUP (Federação Única dos Petroleiros). Contando com a ajuda da justiça trabalhista, que considerou a greve abusiva e puniu o sindicato com multas diárias altíssimas, além de uma repressão das mais duras já vistas contra os sindicatos em tempos democráticos, após 32 dias de paralisação a greve acabou com o movimento sindical brasileiro totalmente derrotado.
Após este episódio a capacidade de luta dos trabalhadores do setor público e até privado, nunca mais foi a mesma. Vivemos, de lá para cá, um período de grande arrocho salarial e precarização das relações de trabalho. Reconhecendo a tosca situação da realidade salarial, e mantendo o arrocho salarial da era FHC, o governo Lula criou o empréstimo consignado, um verdadeiro maná para os bancos, que primeiramente se restringia aos trabalhadores do setor público, sendo depois estendido cruelmente aos aposentados e ao setor privado. Não é difícil prever as consequências desta medida, se em um primeiro momento significou um alento aos trabalhadores, hoje não passa de um grande estorvo e sofrimento, mantendo todos ajoelhados frente ao capital financeiro. Com seus salários sendo sugados por vampiros mensalmente. 
Porém esta estrutura de endividamento vem se esgotando e chegamos a uma estranha situação. Temos os sindicatos do setor público, sobretudo do Poder Executivo incapazes de mobilizar suas categorias. Embora já tenhamos acompanhado greves de professores, médicos e de outros profissionais. Estas são sempre parciais e conseguem parcas e discutíveis vitórias. 
Por outro lado, o garrote salarial não envolve apenas os setores de saúde, educação e previdência. Temos também o setor de segurança pública, formado por bombeiros, guardas penitenciários e municipais, policiais militares e civis que atravessam as mesmas dificuldades enfrentadas pelos demais servidores. A ironia é que justamente os responsáveis por coibir a luta dos trabalhadores,  em geral, sejam agora a ponta de lança do movimento dos trabalhadores do setor público por melhores salários e pelo fim do arrocho. Fazem parte deste processo a greve dos bombeiros do Rio de Janeiro, de repercussão nacional, e tantos outros movimentos, ocorridos em vários estados ao longo dos últimos anos. 
Embora tema pelas possíveis consequências desta mobilização, não posso deixar de reconhecer sua legitimidade. Afinal são décadas de arrocho e de sofrimento para categorias que já foram chamadas de "marajás", e de um sem número de expressões pejorativas, impossibilitadas de defesa de suas reivindicações pela covarde omissão dos órgãos de comunicação de massa e massacradas por governos que só tem como objetivo em sua política econômica a manutenção do "superavit primário", garantidor da continuidade da sangria do Estado, em favor  do capital financeiro e em detrimento da maioria da povo brasileiro.
Vivemos um momento econômico favorável, mas isto não chega aos trabalhadores do Poder Executivo amargurados e envergonhados de seus contracheques.

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