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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Venus Noire" e Danilo Gentille: a recorrente recriação do século XIX

Recentemente, assisti ao filme "Venus Noire", de Abdel Kechich. Ambientada no século XIX, a película narra a história de Saartje Baartma, uma mulher negra sul-africana, que sendo convencida por um empresário holandês, aceitou migrar para Europa e ser mostrada em espetáculos populares como uma fera demoníaca, uma besta humana. 
O filme começa com um grupo de médicos franceses, em um anfiteatro da Real Academia de Medicina de Paris, analisando os detalhes anatômicos de Saartje, mulher obesa, de seios e glúteos avolumados e com uma estranha formação dos órgãos sexuais, mas o objetivo maior dos cientistas é afirmar a proximidade dos negros com os macacos e recusar a possibilidade da civilização egípcia, há pouco conquistada por Napoleão, ser negra. "Nunca vi uma cabeça humana tão semelhante à de um macaco." diz o palestrante à sua platéia. Bem, esta era a ciência do século XIX, filha do colonialismo europeu, isto compreendemos. E muito, no Brasil!

O que não conseguimos entender é como depois de tantas lutas, de tanto sangue, ainda encontramos figuras como o senhor Danilo Gentille, e emissoras, como a TV Bandeirantes, concessão pública, pós-modernamente, chamada de Band, capazes de fazer humor com o que há de mais sórdido e cruel na natureza humana, a perversidade. A emissora televisiva e este senhor, alimentam a perversão humana, e tudo isso por alguns poucos pontos no Ibope, que aumentem as vendas de caixas de refrigerantes, cervejas,  sabões em pó, eletrodomésticos, carros e qualquer outro tipo de mercadoria. Fazem a alegria dos conservadores e reacionários, da direita fascista, em busca de mensagens e gestos, que relembrem o passado de opressão e racismo contra as grandes minorias. Procuram trazer de volta a barbárie de outros tempos no contexto da imoral devassidão neoliberal. Acreditam que estejam fazendo algo novo, alguns chegam a chamar o que fazem de arte, como se atentar contra a humanidade tivesse algum valor. Esquecem que suas infantis apresentações, suas falas, seus trejeitos, seus textos apenas requentam aquilo que já foi produzido por elementos, como Gobineau, Goebbels, organizações, como a Klu Klux Klan e por sistemas políticos, como o Nazismo e o Fascismo. 

O "humor politicamente incorreto" está presente desde que o primeiro homem encontrou sua contra-face, sua alteridade, ou seja, um outro homem, e isto motivou muita guerra e destruição. Este humor opera e age, tendo como essência a desumanização do diferente, seu amordaçamento, sua humilhação, e, se possível sua extinção. É barbárie, pura barbárie! Os bárbaros destroem a convivência. Seus marcos e locais de encontro são os estéreis condomínios e as praças de alimentação dos Shopping Centers, onde a diferença não existe, expulsa pelo tamanho e gordura das carteiras de dinheiro.

Este humor ficou no passado, devido à luta dos movimentos sociais. Negros, mulheres, homossexuais e outras grandes minorias, conseguiram no caminhar da sociedade democrática ir eliminando este riso sem graça, tosco e desprovido de vida. Quantas ações judiciais o movimento negro e outros setores organizados já propuseram contra ele? Quantos comerciais de televisão já foram retirados do ar por  apresentarem ofensas racistas? Quantos textos já foram alterados pela mídia corporativa por medo das organizações cidadãs? Nada de novo, portanto, nos apresenta este senhor e sua emissora, senão muito mais do mesmo. Do mesmo racismo, que nos enoja e nos faz vomitar.
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