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sexta-feira, 16 de março de 2012

Neoliberalismo e Pós-Modernismo na Clínica da Família

Meus amigos, o infortúnio da dengue me pegou. Esta doença e outros males tropicais, de quem a nobreza carioca fugia, subindo para a serra - Petrópolis, Teresópolis, Itaipava - nos verões do século XIX, simplesmente atropelou-me. É assim que me sinto. Nunca fui atropelado, contudo, creio que é assim que me sentirei, caso o seja.
Na segunda à noite e na terça, a febre. Não tive dor de cabeça, meus olhos não doíam. Logo, pela manhã, me dirigi à Clínica da Família, da Penha, sem muita esperança, afinal com tantos ataques ao Sistema Único de Saúde, imaginei o pior. Surpreendi-me, felizmente. Lá, passei pela observação aristotélica da Doutora Luíza Dias. Senhora, de uns 55 anos, tratou-me com esmero e cuidado. Senti em suas palavras a preocupação com a saúde pública, com o resgate político da prática da medicina de Hipócrates e de seu injustamente desvalorizado juramento, tudo por um punhado de reais. Ciente, dos riscos da Dengue e da expansão da epidemia  no local onde resido. Já tinham ocorrido 8 casos na região. Sugeriu-me ir ao Pólo da Dengue da área, o Posto Felipe Cardoso, na Penha. De novo, tive um bom atendimento, embora demorado, dois médicos haviam faltado.

Na quarta-feira, como sugestão médica retornei ao posto de referência da Dengue. Como sempre fui muito bem tratado pelo corpo de enfermagem. Entretanto, foi neste dia que conheci o Dr. M..., com quem vivi uma cena pós-moderna. Jovem, recém saído da faculdade, ao me examinar não largou seu celular. Olhava-o detidamente, não sei se buscava no "gagdet", um vídeo, imagens, ou o que quer que fosse. Nossa conversa não durou mais do que cinco minutos, tudo marcado pela superficialidade. Olhou meu hemograma e disse que estava bom. Quando lhe perguntei sobre o dia de trabalho, respondeu-me com aquela autoridade já denunciada por Michel Foucault, em seu livro "A Microfísica do Poder". 
"- O senhor deve retornar ao trabalho."
Ao sair daquela sala era como se pudesse ouvir as gargalhadas do poder às minhas costas. 

Bem, após aquela determinação resolvi trabalhar aquele dia. Evitei abusos, me mantive sentado todo o tempo. Todo o corpo doía. Já, durante à noite, além da dor no corpo apresentou-se um novo sintoma, uma coceira que não me deixou dormir. Pela manhã, claro não estava bem. Nada de trabalho, era impraticável. Já de tarde, fui ao posto, de novo mais sangue me foi retirado, aquela espera pela conclusão do exame, o cheiro de doença no ar. Aguardei sentado na sala com ar condicionado, e todo aquele equipamento de primeiro mundo. De novo, fui encaminhado à autoridade foucaultiana. Era uma jovem de tez translúcida, me olhou com a visão que um médico deve ter. Enfim, o olhar "de anima". Prescreveu-me, um remédio para as coceiras, dois dias de descanso e seis litros de água diários de água para hidratação - como se fosse possível ao ser humano - mas antes observou minha boca e meus olhos. Hoje, ainda em convalescênça, escrevo este texto.
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