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sexta-feira, 30 de março de 2012

O pessimismo de Stuart Hall é um alerta importante para os rumos da esquerda na América Latina

Fonte: geledes

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Stuart Hall, pensador jamaicano radicado há 60 anos na Inglaterra, concedeu uma entrevista ao The Guardian às vésperas de comemorar o seu 80º aniversário. Demonstrou que está mais pessimista do que tempos atrás quando escreveu os famosos textos que marcaram sua trajetória acadêmica (a maior parte deles publicados no Brasil na coletânea Da diáspora, Editora UFMG). Naquele momento, Hall enxergava na diversidade cultural e no interculturalismo possibilidades reais de transformação social. Fez uma releitura do pensamento marxista, a partir de Gramsci e Althusser, propondo que a relação entre a instância econômica e a cultural não fosse marcada por uma determinação linear (como uma apreensão mais ingênua do marxismo prega), mas sim de forma dialética.


"Eu me envolvi em estudos culturais, porque eu não acho que a vida foi determinada unicamente pela economia. A questão é que, em última instância, a economia vai determinar isso. Mas quando é a última instância? Se você estiver analisando a conjuntura atual, você não pode começar e terminar na economia. É necessário, mas insuficiente." Hall exemplifica com os protestos de Tottenham e também com a crise nos países europeus para falar sobre isto. O motivo dos protestos e a crise têm um fundo econômico, entretanto, a dificuldade de se construir alternativas políticas se deve ao fato de se pensar as possibilidades sempre no campo do economicismo. Para Hall, parte dos protestos de Tottenham se deve ao fato de que o imperativo neoliberal de consumir não é realizável por aqueles grupos sociais. Não é à toa que parcela dos manifestantes saquearam lojas em busca de objetos fetichizados pela sociedade de consumo.
Com a saúde debilitada, Hall fala sobre o sistema de saúde privatizado. Aborda de uma forma já batida – como é possível transformar a saúde em mercadoria, questiona ele – mas apontando para uma deformação dos sujeitos operadores de um modelo como este. "Quem lucraria com problemas de saúde de alguém? Que tipo de pessoa que seria isso? Você confiaria a tais pessoas o seu orçamento, e mais a sua saúde ou a saúde de um ente querido? O caso moral não está sendo colocado com força suficiente, na verdade, não está sendo colocado em nada."
Hall afirma: "sempre achei que a ideia de ego, de indivíduo egoísta de Adam Smith, era incorreta. O mundo exterior entra em nossa cabeça, há uma dialética constante, é inextirpável." Por isto, considera que uma alternativa deve perpassar por uma reconstrução de lógicas, o que tangencia novamente a questão cultural. Limitar a disputa política dentro dos parâmetros societários hegemônicos da economia de mercado caminha, inevitavelmente, para uma sociedade administrada, sem política. É o que ele observa, de forma pessimista, na Inglaterra, ao afirmar que a esquerda "está em apuros", sem saber o que fazer. Por isto, apesar da crise, a cabeça dos cidadãos britânicos formada pela perspectiva neoliberal não conseguem vislumbrar e nem tampouco se mobilizar por alternativas.
Estas reflexões de Hall são importantes, particularmente, para um contexto em que a esquerda está no governo, como na América Latina. O fato das nações do continente não terem esgotado todos os passos clássicos de uma "revolução capitalista" seduz parte da esquerda a querer ser ela a protagonista deste processo. Despreza-se, assim, muitas vezes, experiências societárias e civilizatórias de povos e comunidades que poderiam ser articuladas na construção de um caminho próprio de desenvolvimento, para além do economicismo de mercado. O pessimismo de Hall é um alerta importante neste momento. Afinal, que tipo de sujeitos queremos formar?
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