Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

domingo, 29 de abril de 2012

Bancos e seus Juros - Ciclo do endividamento do servidor público

Marx afirmava que a mais-valia tendia para uma redução constante. Para aplacar seu efeito na acumulação, os capitalistas usam de todos os artifícios. Isto levou ao surgimento daquilo que o geógrafo David Harvey chamou de "capitalismo do débito". Ameaçados pela diminuição de suas taxas de lucro, banqueiros partiram para a financeirização do salário dos trabalhadores, criando estratégias de endividamento dos trabalhadores, empurrados para a sanha consumista através da publicidade. É disto que o artigo abaixo fala. Que estratégias os bancos criaram para endividar os proletários?

Fonte: lourencoadvocaciasc

Por Enil Henrique de Souza Neto

Ao ser aprovado no concurso público, o servidor acredita ter atingido a tão sonhada estabilidade financeira, garantida pelo recebimento do salário mensal. No entanto, passa a ser o principal alvo de uma das instituições mais fortes do país: os bancos.
O objetivo das instituições financeiras é emprestar dinheiro ao servidor público e buscar meios de garantir de recebimento do valor emprestado. Em outras palavras, o foco é endividar ao máximo o servidor público, que tem a prerrogativa de utilizar os descontos diretos e indiretos na folha de pagamento, que é considerada a mais eficiente garantia de pagamento do empréstimo.
De olho no funcionalismo público, os bancos criaram um ciclo de endividamento para os servidores públicos. Na primeira etapa, ao tomar posse o servidor público é obrigado a abrir uma conta-salário no banco escolhido pela administração pública. Na prática, o gerente abre uma conta “salário-corrente” e, assim, na suposta conta salário, coloca à disposição do servidor vários créditos, como crédito consignado, limite de cheque especial, crédito direto ao consumidor, cartão de crédito, entre outros.
Dessa forma, estão implantadas as grandes armadilhas para garantir o sucesso do ciclo de endividamento criado pelos bancos. As instituições financeiras sabem que o servidor público, em algum momento da vida, necessitará de crédito para adquirir algum bem ou pagar despesas que não estavam previstas no orçamento. Diante da necessidade, o servidor tem uma gama de ofertas de crédito sempre em destaque nos caixas eletrônicos, agências e internet.
Quando o servidor começa a utilizar, sem planejamentos estas ofertas de crédito, configura-se a segunda etapa do ciclo. Nesta fase, ele cai nas armadilhas implantadas no momento da abertura da conta “salário-corrente”. Primeiro, o servidor contrai um empréstimo consignado que nada mais é do que o empréstimo cujas prestações serão descontados diretamente da folha de pagamento. As taxas destes empréstimos são reduzidas, mas devem respeitar o limite da margem consignável de 30% do salário bruto permanente para garantir a dignidade do servidor público.
Ao contrair este empréstimo, o servidor público deve observar que a sua renda proveniente do salário estará reduzida pelos descontos das prestações do empréstimo consignado. Entretanto, os bancos, por meio de  pesquisas, descobriram que muitos servidores não avaliam esta situação e continuam mantendo seus gastos sem considerar a redução do salário líquido.
Na terceira fase do ciclo, o servidor começa a pagar apenas parte da fatura do cartão de crédito e a utilizar o cheque especial. Estas formas de empréstimos são as mais perigosas. No cartão de crédito, o banco oferece um limite de crédito e coloca na fatura a seu livre arbítrio qual será o valor da taxa de juros abusivas que será cobrada no próximo mês, normalmente o percentual é acima de 12% ao mês.Assim, quando o servidor não paga a fatura ou paga apenas o mínimo da mesma, o valor do saldo remanescente será acrescido dos juros estabelecidos na fatura do cartão capitalizado mensalmente, ou seja, juros sobre juros. Em resumo, a dívida dobrará em seis meses.
No cheque especial, o banco oferece um limite de crédito automático na conta “salário-corrente” do servidor. O saldo disponível para o servidor utilizar passa a ser composto do saldo devedor mais o cheque especial. Em caso de utilização do cheque especial, o servidor pagará ao banco uma taxa de juros capitalizados no percentual de aproximadamente 10% ao mês. Portanto, a dívida dobrará em oito meses.
Na quarta fase do ciclo, o gerente percebe que o servidor passou a utilizar o cartão e crédito e o limite de cheque especial, mas não está conseguindo honrar a fatura ou cobrir o saldo devedor da conta. Automaticamente, os limites do cartão de crédito e do cheque especial são aumentados para que o servidor, já endividado pela utilização do empréstimo consignado, cartão de crédito e cheque especial, passe a ter mais crédito para pagar os juros cobrados pelo banco.
Na quinta fase do ciclo, o servidor vai ao banco com o salário quase todo comprometido com o pagamento dos juros dos cartões e do cheque especial. O gerente sensibilizado com a situação do servidor oferece um Crédito Direto do Consumidor (CDC ou crediário) para o servidor pagar o cheque especial e a fatura dos cartões.
No CDC, o banco oferece uma determinada quantia que será descontada na conta “salário-corrente”, por meio de prestações mensais fixas com taxas de juros variando de 5% a 7% ao mês. Muitas vezes estes empréstimos podem ser contraídos eletronicamente nos caixas eletrônicos ou internet.É importante destacar que, nesta fase do ciclo, antes de ter acesso ao salário, o servidor terá que pagar as prestações do empréstimo consignado e do CDC. Para ajudar ao pagamento destas prestações, o gerente do banco ajuda o servidor ao manter o limite do cheque especial e do cartão de crédito. Assim, o limite do cheque especial será utilizado para pagar as prestações do CDC e o cartão de crédito para o servidor pagar as despesas rotineiras, como alimentação, vestuário e transporte.
Na sexta fase do ciclo, como já previsto pelo gerente, o servidor está completamente endividado. Assim, o super amigo do servidor, mais conhecido como gerente, se compromete a dar uma solução para o seu caso vindo a apurar o valor do saldo devedor do CDC, dos cartões de crédito, do cheque especial e outras taxas. Após muitos cálculos e sacrifício, o gerente concede um novo CDC ao servidor, impondo, para tanto, que este confesse a dívida supramencionada. Como consequência, comprometerá grande parte do salário do mesmo e, neste momento, o banco cancela o limite do cheque especial e os cartões de crédito.
Após alguns meses, o dia mais esperado do servidor, que era o dia do pagamento, passa a ser a pior data do mês. Isso porque o salário estará todo comprometido para o pagamento dos empréstimos feitos no banco. O servidor fica, então, sem condições de arcar com as despesas básicas para a sua sobrevivência.
A sétima fase do ciclo é a do desespero. O servidor começa a pegar dinheiro emprestado em outros bancos, com agiotas e amigos para conseguir pagar as despesas básicas. Situação que desencadeia problemas familiares e de saúde provocados pelo superendividamento.
O ciclo do endividamento planejado pelo banco foi concluído com sucesso. O servidor público passou a ser um escravo da instituição financeira e está trabalhando diariamente para pagar os juros abusivos e ilegais.  Enquanto isso, os bancos passam a ser as empresas mais lucrativas do mercado, alcançando a trimestralmente lucros bilionários como podemos observar diariamente na imprensa.
Do outro lado, o servidor público mesmo endividado possui escolhas. Ele pode deixar da forma que está, ou seja, continuar endividado mesmo sabendo que tal prática é vedada por lei ou enfrentar o problema e procurar um especialista para responsabilizar o banco pelas cobranças indevidas e assim apurar o valor realmente devido. Desta forma, o servidor público conseguirá sair da zona do endividamento e garantir uma vida financeira de qualidade. 
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.5 Brazil License.