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terça-feira, 3 de abril de 2012

Demóstenes Torres e o racismo cordial brasileiro

Neste momento, não podemos esquecer as imposturas ditas pelo senador Demóstenes Torres sobre a questão do negro no Brasil, à época um arauto da moralidade e ungido pela classe média branca como santo e defensor dos valores morais do povo brasileiro. Realizava-se então o debate sobre as cotas raciais, inserido no Estatuto da Igualdade Racial. E este senhor era o relator do projeto de lei. Além de desfigurá-lo, coube ao mesmo declarações profundamente infelizes contra a população negra. Em uma entrevista ao Valor Econômico, este senhor deixou claro todo o seu ódio contra os negros, e como uma metralhadora giratória conservadora se fez porta-voz destes setores. Hoje, diante das denúncias e vídeos acerca da vida política do nobre senador convém revisitar aquelas ideias de forma a exorcizá-las para sempre.

Em relação às cotas raciais: 
Demóstenes Torres: Se é popular não interessa, interessa o que é certo para o país. Eu defendo as cotas sociais, ou seja, quem é pobre tem o direito a entrar na faculdade por meio do sistema de cotas de até 20%, e o pobre pode ser preto, pode ser negro, amarelo, preto, de qualquer cor. O problema estrutural no Brasil não é o racismo, mas a pobreza. O rico negro sempre teve tranquilamente o seu assento à sociedade. Na época do escravagismo, tínhamos traficantes de escravos negros, senhores de escravos negros e assim por diante. Todo arcabouço jurídico que foi constituído no país foi para acabar com a discriminação, em especial com o racismo. A lei é duríssima. Desde a promulgação da Constituição até agora foram criados 16 diplomas antirracistas. Por que vamos criar uma lei que racializa a sociedade entre negros e brancos? Até porque 87% da população têm sangue negro, mais de 90% têm sangue branco, mais de 60% têm sangue indígena. Como vamos classificar? O Brasil é miscigenado, graças a Deus. Não precisamos criar mecanismos para racializar o Brasil porque o conceito de raça já acabou.

Em relação ao estupro das mulheres negras escravizadas:
Torres: É só ler Gilberto Freire. Querem dar a impressão que no Brasil as negras foram estupradas e a miscigenação se deu de forma violenta. A integração da casa grande e da senzala, ainda que com dominação, foi muito mais consensual do que gostaria o movimento negro. Hoje o movimento negro tem umas pessoas que são odiadas. Gilberto Freire é uma delas. Darcy Ribeiro é outro, dizem que ele é o pirata da antropologia. O Jorge Amado, falam que abate moralmente o negro. Encontraram racismo até na obra "O Lavrador de Café" do Portinari porque coloca o pé do negro muito proeminente.

Em relação à discriminação racial:
Torres: Estamos vivendo no Brasil na ditadura do politicamente correto. A princesa Isabel é excomungada. Joaquim Nabuco é quase que um pária. Algumas coisas são absolutamente ridículas em termos de pesquisa. Será que é verdade que os negros brasileiros têm menos esgoto que os brancos, ou seja, que o esgoto que passa a céu aberto na casa do pobre ele escolhe a cor?

Em relação a reparação racial para os negros:
Torres: Muito antes do Brasil existir, a África já fornecia escravos para o mundo. Isso não quer dizer que devemos ficar contentes, mas não vamos solucionar esse problema aprovando uma legislação racista no Brasil separando os brancos e os negros. Não temo expor a minha opinião.

Diante de tamanhas excrescências se faz necessário refletir sobre o quanto de racismo ainda temos guardado dentro do nosso peito. Afinal, muitas destas ideias foram e ainda o são aprovadas por consideráveis setores da sociedade brasileira. Para muitos, ainda cabe às mulheres negras em seu papel como empregada doméstica o ônus de iniciadora de "sinhozinhos" nas artes sexuais. O corpo da "mulata" ainda balança como um remédio para as tensões sexuais. Gilberto Freire vive na memória do Brasil a assombrar o sono negro, em particular a mulher negra.
No tocante às cotas raciais, pouco ou nada em termos de reparação. O texto final do Estatuto da Igualdade Racial, relatado pelo ilustre homem público, suprimiu do projeto a definição de cotas em várias atividades. Sem falar na questão quilombola, nas questões de saúde específicas da população negra, como o caso da anemia falciforme, em tudo a mão pesada do honrado senhor esteve presente. Um projeto totalmente desfigurado foi aprovado, em relação ao original apresentado pelo senador Paulo Paim. Para mais leiam o artigo A tesoura-de-demostenes-e-o-estatuto
No raciocínio de Demóstenes e sua claque. O que os negros querem? Esta é uma sociedade miscigenada e justa. Ela não compreende tamanha indisposição à cooperação, traço que para estes setores sempre marcou a conduta dos negros no Brasil. Este conjunto de militantes negros não faz jus a natureza pacífica de nossas relações raciais. Elas são harmônicas e assim devem continuar. Cabe ao negro esperar a sua vez calado e sorridente. Parece incrível, mas tais palavras têm força impar entre nós e revelam o quanto estamos distantes de uma sociedade democrática e plural

Outrossim, podemos falar do discurso udenista e sua força impactadora à espera de vozes que possam desfraldar suas bandeiras. Assim como Collor já havia feito, Demóstenes camlnhava em direção parecida. Sua carreira ratificava sua intenção política. Estava ali o xerife do Congresso Nacional, disposto a tudo para perseguir os corruptos. Alguém de moral ilibada e nobre. Para muitos o nobre senador se apresentava como virtual candidato à presidência da república. Passaria primeiro pelo governo goiano e mais adiante o Palácio do Planalto advinha como destino natural. Imaginem se isso tivesse dado certo?


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