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terça-feira, 3 de abril de 2012

O discurso negro de Jorge Ben

Vivíamos o início dos anos 1960. O Brasil passava por tempos difíceis, marcados pela Guerra Fria, a descolonização afroasiática, a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA e uma grande turbulência social interna. Jânio governaria o país por sete meses e em agosto de 1961 entregaria a presidência para João Goulart. A partir daí, teríamos uma série de crises que levariam o Brasil para uma longa ditadura militar.

Para nós, negros, surgia um cinema profundamente influenciado pelo nosso cotidiano e com forte conteúdo social. "O Pagador de Promessas", "Assalto ao Trem Pagador", "Rio Zona Norte", "5 Vezes Favela", além do francófilo Orfeu Negro, entre outros distinguiriam este período. O Salgueiro revolucionava o carnaval carioca com seus enredos voltados para a problemática negra. Em 1960, a escola desfilaria com Quilombo dos Palmeiros, em 1963 Xica da Silva e 1964, Chico-Rei. Abdias faria do Teatro Experimental do Negro uma realidade, desde 1944. Os escritos de Guerreiro Ramos sobre a questão do negro movimentavam a vida acadêmica e se faziam presentes desde os anos 1950. Em 1964, Florestan Fernandes lançava A Integração do Negro na Sociedade de Classes.

Dito isso, não nos surpreende a música negra de Jorge Ben. Obra iniciada em 1963, com o cultuado disco “Samba Esquema Novo”. À batida contagiante do seu samba juntou letras para muitos ingenuas e despretensiosas, mas que para a população negra retratavam seu dia a dia de alegria, dor e sofrimento. Logo no primeiro disco estão “A Tamba” e Nascimento de um Príncipe Africano”, com frases, que reverenciam as religiões de matriz africana e a força de nossas lideranças ancestrais. Este disco inicia um capítulo, até então inédito, da música popular brasileira. Na grande maioria de seus discos Jorge Ben fez referencia a fé negra e seus rituais, aos heróis negros Zumbi, Dandara entre outros, à marginalização social do negro, à beleza negra e ao poder de transformação do negro através de sua luta. O tratamento de todos estes temas se fez sempre cultivando a dignidade e o brilho particular da população negra.

Em entrevista recente, Gilberto Gil fala da influência da música de Ben em sua obra. Assinalando que seu envolvimento com a temática negra, correspondente a uma virada radical de sua trajetória, teve forte inspiração do amigo. Tantos outros artistas já veicularam este influxo, passando por Mano Brown, Paula Lima, Sandra de Sá, Simoninha, enfim uma lista imensa. Entretanto, devemos lembrar como a obra de Jorge Ben está no coração do povo brasileiro. Faz parte de nosso inconsciente coletivo. Murmuramos suas letras sem perceber. Balançamos nossos pés automaticamente ao primeiro som. Ruborizamos ao nos emocionarmos com suas canções, com os momentos lindos que nos fizeram recordar. Esta é a obra maior do artista.

Para quem quiser passar para uma emoção ainda maior fizemos um mix com as músicas de Jorge Ben onde ele delimita o ser negro. Acesse o link e escute agora -  O discurso negro de Jorge Ben.
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