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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cotas raciais: por um novo sentido de nação



Engraçado, há alguns dias após postar no Twitter uma informação dando conta de que a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro resolveu usar as cotas raciais como um dos critério em seus concursos públicos, recebi a seguinte mensagem de Ivan Nascimento @Ivann67: 
@rene_silva_rj @pele_negra Gosta de moleza,Rene? Quem exige cota é quem gosta de segregar. Igualdade de ensino para todos já
Cansado, a hora já avançava pela madrugada, resolvi ir dormir, mas não consegui. Aquelas palavras martelavam minha mente, exigindo uma resposta.
Primeiro, comecei a pensar na "dureza", que nós, negros, enfrentamos nesses 512 anos de história do Brasil. Vindos na condição de escravos, nossos antepassados vivenciaram tudo o que um ser humano pode experimentar de pior. Trabalho forçado, tortura, estupro, assassinatos, injustiças, enfim, o cabedal de tragédias pessoais e coletivas é por demais extenso. Ou alguém duvida disto? Libertos da escravidão veio a exclusão do mercado de trabalho, uma vez que os empregadores preferiam os imigrantes. Assim chegou a marginalidade, a anomia e a segregação trazida pela pobreza, os vícios se sucediam, o alcoolismo. e mais todo tipo de drogas imagináveis. Só as gerações mais recentes têm podido viver situações melhores. Mesmo assim continuamos a ser a base da pirâmide social e o grupo com menor participação na riqueza nacional, embora, segundo o último censo, sejamos a maioria. De qualquer forma, o extermínio grassa entre os mais jovens. As armas de fogo tiram a vida de milhares de jovens negros todos os anos. 

Individualmente, passei toda a minha vida escolar com uma sensação de estranhamento. No que hoje podemos chamar classes iniciais do ensino básico (1ª a 5ª séries) ainda encontrei um número maior de negros, mas depois ao entrar para uma importante instituição federal de ensino, onde fiquei até o ensino médio, poucos tinham quantidades de melanina semelhantes a minha. Depois na universidade pública, a mesma coisa, em minha turma continuava a ser o único, isso já no início da década de 1980. O que confirma o processo de embranquecimento da educação ao longo das séries escolares. 
Professores negros foram raros. Posso até dizer o nome deles, Milton e Yone no ensino básico e médio, Ferrão na graduação. Namoradas, quantas meninas negras hviam na universidade? Poucas, residuais, assim como jovens negros. Tive poucos enlaces afetivos no meio universitário. A enturmação com meus jovens companheiros brancos significaria o rompimento com toda uma cultura da qual vinha partilhando. Como abandoná-la? Os bailes, as festas, as músicas, apenas de vez em quando eram as mesmas.

E meus amigos mais próximos da juventude. O que foi feito deles? Carlos, Pedro e Sílvio, grandes companheiros de embalos e folguedos. Todos três cumpriram aquilo que as estatísticas demonstram ser o destino da população negra adulta. Não, não morávamos em favelas, residíamos em bairros de classe média baixa. Bem o Carlos morreu o ano passado, depois de durante muito tempo sofrer com uma pneumonia, aos 53 anos, o Pedro perdeu um filho barbaramente assassinado, um menino de cerca de 20 anos e o Sílvio sumiu, foi morar em Belfort Roxo, após perder o emprego com o fechamento da fábrica de lâmpadas da GE, no bairro de Maria da Graça, nas cercanias da favela do Jacarezinho, dele nunca mais tive notícias.
Ah! Meu caro Alan, como eu gostaria que meus amigos tivessem tido a oportunidade de tentar as cotas raciais nas universidades, provavelmente, o destino deles seria outro.



Por fim, você falou que as cotas raciais impõem um tipo de segregação racial. Você já andou na área mais nobre de sua cidade. Eu falo do Rio de Janeiro, mas acho que podemos estender esta realidade para todo o Brasil. Nos restaurantes, museus, cinemas, shopping centers e afins, em que condições você encontra os negros? Estão sentados à mesa, admirando as obras de arte, apreciando os filmes, comprando nas lojas ou fazendo planos ao observar as vitrines? Nas esferas de poder, nos tribunais, parlamentos, palácios do Poder Executivo, quantos são os homens e mulheres negras? Qual a condição de quase todos estes trabalhadores e trabalhadoras negras? 
Por outro, lado você já teve a oportunidade de entrar em uma universidade que aceita as cotas raciais? Onde encontramos a segregação nas que aceitam ou naquelas que rejeitam? Onde os estudantes têm o mesmo tom de pele? Onde a mistura de tons é mais acentuada? Acho que a resposta é óbvia. Constata-se facilmente a verdade.
A palavra segregação sugere separação, apartamento, distanciamento, pergunto a você, quem estará sendo responsável pelo apartheid racial em que vivemos? Quais serão as vítimas ou os algozes?
De qualquer forma, podemos dizer que sofremos todos. A sociedade brasileira padece como um todo. Assim é quando um jovem negro, sem entender muito bem porque está agindo daquele jeito, comete seu primeiro crime e transborda toda a sua fúria. Precisamos mudar isso. Quanto tempo mais veremos a mesma face na imprensa  sensacionalista, com aquela tez e olhos negros envergonhados e ameaçadores?  Quanto tempo mais...



Em verdade, Alan, estamos vivenciando um momento interessante em relação a questão racial em nosso país. A decisão STF, ratificando a justeza das políticas de ação afirmativa nas universidades e criação de vagas específicas para negros em concursos públicos trouxeram a problemática racial brasileira para um outro patamar. Afinal, muitos setores da sociedade defendem mudanças na forma como a sociedade está organizada. No entanto, qualquer alteração numa sociedade capitalista na maneira como ela se reproduz, se realizada, implica em mudar a sua estrutura de oportunidades, e por conseguinte significa substituir determinados grupos por outros na estrutura social. 


Infelizmente, antes mesmo de muitas destas mudanças se concretizarem vários setores da sociedade, sobretudo, a classe média, já começam a manifestar hostilidade e ressentimento contra estas medidas. Falam de um racismo implícito nestas ações, como se ele não estivesse presente na vida social brasileira nestes 512 anos de história do Brasil. Alguns chegam a argumentar:
Como se sentirá a pessoa negra que passar em um concurso público, entre seus colegas de trabalho? Que tipo de reação social isto poderá causar? Isto é racismo, não é? E por ai vai. 


Esquecem, entretanto, de uma coisa. Quanto ressentimento, nós negros, carregamos durante todos estes séculos? Será que, da mesma maneira como eles se sentem preteridos agora, nós negros, também não nos sentimos antes? Como podemos ver com tanta "naturalidade" que mesmo no governo Dilma, dito "popular", de esquerda, tenhamos tão poucos negros nas altas esferas de poder? Será que quando observamos pela imprensa as reuniões dos três poderes da República, marcadas pela invisibilidade da população negra, esta assiste aquilo tudo sem maiores mágoas e ressentimentos? 


O que esperamos, que isto exploda daqui há alguns anos em uma guerra racial, onde a limpeza étnica seja seu norte? Vamos aguardar isto acontecer, ou vamos dar novas cores à forma como a sociedade está estruturada?
Enfim, Alan, estamos a enfrentar um dilema que definirá o nosso futuro como nação. Se continuaremos a ser um país distinguido pela dominação colonial de uma "raça" sobre as outras, ou se encontraremos uma via de desenvolvimento fraternal, multirracial e equânime. 


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