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quarta-feira, 27 de junho de 2012

A branquitude brasileira e o racismo italiano


A imagem acima foi publicada pelo jornal italiano "Gazeta dello Sport". Tem uma clara alusão racista, pois se reporta ao filme "King Kong", onde um gigantesco gorila se agarra ao Empire State, em Nova York, na ilustração citada, substituída pelo Big Ben.
Conhecendo o passado fascista da Itália, tendemos a compreender a charge, sobretudo, quando analisamos a atual realidade econômica e social, daquele país. Vivendo uma grave crise, que se concretiza em aumento constante da taxa de desemprego. Estes ingredientes propiciam o crescimento de grupos racistas, cada vez mais em evidência. Neste sentido, a presença de um atacante negro, filho de imigrantes africanos, abandonado e criado por uma família italiana, em uma das principais instituições, a seleção de futebol, incomoda brutalmente. Ficamos daqui a imaginar o peso carregado por Balotelli, em suas costas, a cada gol desperdiçado. Na Europa de hoje, onde os últimos vestígios do Welfare State têm sido jogados ao chão a posição de Balotelli é extremamente desconfortável.

 


Já o vídeo acima é um documento vivo da branquitude brasileira, ou seja, de como se estrutura o discurso racista brasileiro, aparentemente limpo, neutro, carregado de emoções genuínas e verdadeiras, dotado de boa vontade e valores humanitários, entretanto, quando analisado mais de perto mostra suas reais intenções, já que naturaliza as desigualdades.
Nem sempre quem produz a ideologia dominante tem consciência do que está fazendo. Em verdade naturaliza-se as relações sociais, assim como fazemos com a flora e a fauna, cada um no seu espaço, definidos em um caledoscópio “lineusiano”, se assim podemos qualificar. Desta forma caberia aos grupos “raciais” papéis fixos, imutáveis, determinados pela velha máxima ”cada macaco no seu galho”, recentemente atualizada para "cada um no seu quadrado".
Temos então no vídeo um atleta negro, demonstrando seu fabuloso talento no basquete, vencendo e torturando seus adversários com enorme habilidade e agilidade. Ao mesmo tempo que o desportista enterra a bola no cesto, aparece um menino branco, realizando cálculos, gráficos e diagramas sobre a bela jogada.
Ficam algumas dúvidas então, embora, o melhor jogador brasileiro, atuando em terras tupiniquis, no momento, Marcelinho, do Flamengo, não seja negro, por que na peça publicitária foi usado um homem negro? Por outro lado, por que quando buscou-se exemplificar a figura de um jovem cientista trabalhou-se com um adolescente branco? Por que não se trocar os papéis, um atleta branco e um petiz cientista negro?
A peça publicitária, portanto, procura enfatizar os destinos a seguir pelos membros dos grupos raciais. Um adolescente negro ficará convencido em ser um desportista, enquanto o menino branco compreenderá que seu caminho é o da ciência. Ela ratifica e engessa o que já existe.
Percebemos então como a ideologia age. Ela perpetua e naturaliza as relações sociais, tornando-as impossíveis de serem transformadas, mas a história do homem não é a história da natureza, que mesmo que aparentemente imutável, também se modifica.

Comparando os dois discursos racistas, o italiano e o brasileiro nos perguntamos. Qual o mais eficiente? Isto é, em que situação se conserva com mais competência a imutabilidade das relações sociais? Em que circunstâncias, italiana e brasileira, o discurso consegue escamotear melhor seus objetivos, de maneira que não os constatemos ou os evidenciemos? 
Vale a pena refletirmos sobre isso, pois buscamos uma sociedade mais justa, mas enquanto perdurar este tipo de discurso, caminharemos no sentido contrário ao fim que desejamos. Não apenas multiculturalidade e multidiversidade, mas também poder multipartido. 

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