Rio -  Cartão-postal borrado de lama. Paisagem dos portfólios brasileiro espalhados mundo afora, as praias do Rio de Janeiro encolheram. Ou melhor: desapareceram domapa das orlas das baías de Guanabara e Sepetiba. Só nos últimos 20 anos, a faixa de areia de pelo menos 14 praias foi engolida pelo esgoto, e a água do mar se transformou numa lama negra e espessa. Mortas pela poluição, viram a imagem ser alterada desde a a Rio-92 e assistiram à fuga dos banhistas, assustados com a sujeira.

A Praia das Pelônias, na Ilha do Governador, é a síntese deste desastre ambiental. Até a década de 90, lembra o mergulhador aposentado Tancredo Teixeira Brás, 70 anos, era um recanto dominical do bairro Bancários. Hoje, virou uma piscina de sujeira, com sacolas plástica, restos de objetos e peixes mortos. Vida, só dos meninos que teimam em brincar de ‘pescaria’ na água suja e fétida. A vizinha Praia do Jequiá também é banhada pelo lixo. Mais próxima do manguezal, suas águas negras se confundem com a areia e praticamente reproduzem o mangue. Só que sem vida marinha.

Praia de Jequiá, Ilha do Governador | Foto: Fernando Souza / Agência O Dia
Praia de Jequiá, Ilha do Governador. A consistência da marola mostra a quantidade de detritos nas águas. Os pescadores já perderam a esperança de ver vida novamente na praia | Foto: Fernando Souza / Agência O Dia
As causas do sumiço das praias vão além das nossas mazelas de cada dia e da tomada das Baías de Guanabara e Sepetiba pelo esgoto. São reflexo do crescimento industrial desordenado e do aterramento irregular das margens, como aconteceu à Praia da Quinta do Caju, absorvida pela retomada da indústria naval, e da Praia do Barreto, em Niterói, dizimada para duplicar a Rodovia Niterói-Manilha.

O quadro torna-se mais grave se contar que outras 25 praias da orla do Grande Rio, Magé e Niterói, também caminham para a morte. Há 10 anos ininterruptos elas estão impróprias para banho. Apresentam quantidade de coliformes fecais muito acima do máximo permitido. As análises do Instituto Estadual de Ambiente (Inea) mostram inclusive o avanço cada vez maior da poluição sobre o mar: das 64 praias monitoradas em 2011, a qualidade das águas de 76% foi classificada como péssima ou má. Em 2001, o número de praias sem balneabilidade atestada pelo estado era de 43%.

Um caos que inviabiliza todas as praias de Magé, São Gonçalo, da Ilha do Governador e de Sepetiba e só livra a cara das praias de Charitas e São Francisco, em Niterói. Mas nada de cantar vitória: foi só em 2007 que elas apresentaram condições razoáveis para o banho. Outras que também estão na lista negra da década são as praias da Urca, Botafogo e do Flamengo, todas banhadas pela Baía de Guanabara. Botafogo recebeu a pior avaliação — péssima — dos técnicos do Inea em todos os 10 anos.

Estado dá novo prazo de oito anos para despoluir praias

Mais oito anos. É esse o novo prazo dado pelo governo estadual para livrar da poluição as praias da Guanabara. O secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc, afirma que, em 2020, todas terão água em condições de banho sem riscos à saúde. Minc planeja que o estado — que hoje trata apenas 6 mil dos 20 mil litros de esgoto que despeja por segundo na Baía de Guanabara — por dia são despejados o equivalente a 484 piscinas de esgoto sem tratamento — chegará a 2014 tratando o dobro: 12 mil.

“Em oito anos, a gente quer que todas as praias fiquem balneáveis na Baía de Guanabara. As praias da Bica, Vermelha e da Urca passarão por intervenções e, em um ano e meio, ficarão balneáveis. Além disso, daqui a um ano e meio você vai poder botar seu maiô de oncinha e mergulhar na Praia da Moreninha, na Ilha de Paquetá”, disse, acrescentando que em 2016, a meta é chegar a 16 mil litros por segundo. “Isso influencia diretamente na qualidade da água”.

Para o secretário, o fim dos lixões no entorno na baía — segundo ele, o último deve ser fechado até o fim do mês, em Guapimirim — é outro passo importante rumo à sonhada despoluição.

“A baía está uma maravilha? Não está. Mas estou otimista. A gente acabou com todos os lixões que jogavam chorume (líquido tóxico que sai do lixo) e contaminavam a Baía de Guanabara. Cada lixão jogava quantidade enorme de chorume, que tirava o oxigênio das plantas e peixes. Era jogado por dia aproximadamente um Maracanã até a tampa de chorume, o que dá cerca de 10 milhões de litros por dia. Em julho, não cairá mais nenhum litro de chorume”, garante.
 
A ambientalista Dora de Negreiros, presidente do Instituto Baía de Guanabara, discorda. “Mesmo impedindo novos despejos, o lixo que já está depositado continua produzindo chorume por até 20 anos e vaza para baía”, alerta. Ambientalistas apontam ainda outro desafio para que as praias voltem a ser balneáveis: despoluir o fundo da baía, o que só aconteceria em dez anos de trabalho.