Fonte: odia
Rio -  À beira do valão cheio de ratos, a desempregada Luciana Souza da Silva, 35 anos, mãe de oito e grávida de gêmeas, acompanha a movimentação das delegações rumo ao Riocentro. Da sua casa, na Vila Autódromo, Barra, até a sede da Rio+20, são cinco minutos.
Do Aeroporto ao Riocentro, manguezal poluído | Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia
Do Aeroporto ao Riocentro, manguezal poluído | Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia
No trajeto que 135 chefes de Estado farão do Aeroporto Tom Jobim até o evento, a comunidade é uma das evidências de que a sede das discussões sobre sustentabilidade do planeta têm longo caminho a percorrer.
Neste sábado começam a chegar mais comitivas presidenciais sob forte esquema de segurança. Ao deixarem o aeroporto, logo verão exemplos de mau aproveitamento do solo, poluição de rios e falta de saneamento básico, temas estratégicos na pauta da conferência da ONU.
Luciana na Vila Autódromo: poluição na porta de casa | Foto: Felipe O' Neill / Agência O Dia
Luciana na Vila Autódromo: poluição na porta de casa | Foto: Felipe O' Neill / Agência O Dia
No entorno do Tom Jobim, os canais do Cunha e do Fundão receberam investimentos para dragagem do governo, mas ainda sofrem com acúmulo de esgoto. “Enquanto a Baía de Guanabara não for despoluída, os canais terão esse problema“, admite o subsecretário estadual do Ambiente, Antônio da Hora.
Pouco à frente, na Linha Vermelha, as autoridades vão se deparar com o Complexo da Maré, onde moram cerca de 130 mil pessoas, há casas sem banheiros, crianças brincam no esgoto e o lixo se acumula. Na via expressa, o ar está saturado por material particulado e ozônio,
Segundo monitoramento da qualidade do ar. Painéis acústicos instalados ao longo da via encobrem a desconfortável miséria. “Não sei o que é a Rio+20. Só sei que vai passar um monte de gente importante na frente da favela. Mas tinham que tirar isso aqui (o painel), para a gente ser visto”, diz o estudante Maycon Felipe Santos, 11 anos.
Rota de favelas e lagoas imundas
A rota das comitivas até a Rio+20 inclui mais pobreza, condições sanitárias precárias e lagoas poluídas. No trajeto para chegar à Barra da Tijuca, a Linha Amarela tem à sua margem as favelas do Timbau e Vila do João.
Perto do local da conferência das Nações Unidas, quatro lagoas — Tijuca, Camorim, Marapendi, Jacarepaguá — que já tiveram vários registros de mortandade de peixes, continuam sujas. “Isso mostra que até mesmo no ambiente onde moram os mais ricos da cidade não houve investimento na proteção ambiental e de saneamento”, afirmou o ambientalista Sérgio Ricardo.
A região está comprometida ainda por poluentes lançados pelo parque industrial de Jacarepaguá. Dejetos lançados por empresas caem direto nas lagoas.
Ordem para abater aeronaves suspeitas
Canhões e lançadores de mísseis posicionados pelas Forças Armadas para abater aeronaves suspeitas em um raio de 4 km ao redor do Riocentro, onde estarão reunidos mais de 100 chefes de Estado na Rio+20. A partir deste sábado, os espaços naval e aéreo da cidade estão restritos pelas Forças Armadas.
Ainda sem consenso, a negociação do documento final da Rio+20 deverá continuar até a chegada dos chefes de Estado, na quarta, disse o negociador-chefe do Brasil, embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado.
A estratégia para proteger o espaço aéreo durante a conferência, reduzindo os impactos para os aeroportos do Rio, prevê proibição de sobrevoos em algumas áreas. Sobre o Riocentro, só estão autorizadas aeronaves militares, de segurança e serviços médicos, previamente autorizadas.
Até dia 23, voos comerciais no Tom Jobim e no Santos Dumont estão mantidos, mas serão proibidos voos turísticos, de instrução, de propaganda planadores, asa-delta e balões.
Polícia filmará ações
Manifestações durante a Rio+20 serão filmadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) por câmeras acopladas nos capacetes dos policiais. O equipamento será usado no País pela primeira vez para registrar desde possível negociação até o uso de armas não letais em um protesto. Objetivo é garantir segurança de agentes e manifestantes.
Câmera acoplada a capacetes para registrar possível confronto | Foto: Marcelo Regua / Agência O Dia
Câmera acoplada a capacetes para registrar possível confronto | Foto: Marcelo Regua / Agência O Dia
“Não temos o que esconder. Tudo será filmado para que não haja exageros”, explicou Giovanni Di Mambro, coordenador geral de operações da PRF. De hoje até sexta, a corporação fará cinturão para fiscalizar veículos nas rodovias do Estado.
Um super-helicóptero transportará tropa de 12 policiais em caso de tumulto na cidade. Os agentes poderão descer em meio a acidentes graves ou protestos. “Podemos chegar a qualquer lugar rapidamente. Se não der para pousar, os policiais vão descer de até um metro”, explicou Marcos Prado, chefe do policiamento da PRF.
Toda a tropa de choque da PRF usará os capacetes com câmeras e vestirá traje antitumulto, com proteções super-resistentes nas pernas e braços, escudo, cassetete e arma de borracha. Bombas de gás lacrimogêneo e espuma de pimenta podem ser usadas.
Manifestações serão vigiadas do alto e do chão pela Polícia Rodoviária Federal | Foto: Marcelo Regua / Agência O Dia
Manifestações serão vigiadas do alto e do chão pela Polícia Rodoviária Federal | Foto: Marcelo Regua / Agência O Dia
“Evitamos ao máximo o contato físico. Primeiro tentamos negociar. Só em último caso, usamos balas de borracha. Temos que estar preparado para o pior”, explica Rodrigo Fagnani, chefe da Força de Choque.