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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Na ideologia do branqueamento, o futuro seria branco

Fonte: revistadehistoria

Por Giralda Seyferthé
Tela "Redenção de Can", de 1895. A pintura serviu de ilustração para o trabalho de um médico brasileiro num congresso sobre raças. (Museu Nacional de Belas Artes / IBRAM / MINC)

Quatro pessoas estão em frente a uma casa humilde. Uma senhora negra, de pé, parece estar agradecendo a Deus por ter recebido alguma graça. A jovem mulata tem uma criança branca no colo e está sentada ao lado de um homem mais claro. Tudo isso em um ambiente onde parece reinar a mais profunda harmonia. O quadro “RedençãodeCan” (1895), do pintor espanhol Modesto Brocos y Gómez (1852-1936), e que pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes, serve como retrato da sociedade brasileira miscigenada. Uma das interpretações da obra dá a entender que a avó negra, por intermédio do neto branco, estaria se libertando de uma condição racial que a oprimia.
O trabalho de Brocos y Gómez, artista que se radicou no Rio de Janeiro e atuou na Escola de Belas Artes, chegou a ser usado pelo diretor do Museu Nacional, João Batista de Lacerda, para ilustrar a apresentação de uma tese no Congresso Universal das Raças, realizado em Londres em julho de 1911. O nome escolhido pelo pintor para batizar seu quadro se refere a Cam, um dos filhos de Noé. Mais do que uma citação religiosa, remete a outra interpretação: a descendência do personagem bíblico – Cam, Jafé e Sem – estaria associada a algumas tipologias raciais inventadas no século XIX.
Desde os tempos medievais, vários estudiosos procuraram adequar a diversidade humana aos acontecimentos descritos no livro do Gênesis, interpretando e reinterpretando o repovoamento do mundo – depois do Dilúvio – de várias maneiras. E especularam sobre quais nações ou povos teriam derivado dos três irmãos.
Antes que surgissem as primeiras classificações raciais da humanidade no século XVIII, duas crenças se afirmaram depois da descoberta da América, quando o conhecimento sobre outros povos se ampliou: os povos considerados decadentes estariam associados ao paganismo, e os negros estariam vinculados à prole de Cam. Mesmo com a utilização de vários critérios para justificar essas “descobertas”, especialmente práticas religiosas, canibalismo e outros “costumes” considerados inconciliáveis com a civilização cristã, era normal associar a cor escura da pele à degeneração mais extrema – condição mais do que conveniente para justificar a prática da escravidão. Aqueles que se apoiavam na Bíblia sustentavam que todas as raças humanas descendiam de um só tipo, e que as diferenças entre os europeus e os outros povos se deviam a graus distintos de decadência e, por vezes, a fatores ambientais e climáticos.
De acordo com essa linha de pensamento, os descendentes de Jafé teriam dado origem aos europeus, e os de Sem, aos asiáticos. Mas os de Cam, que acabariam servindo de estopim para o surgimento dos negros africanos, seriam assolados por uma maldição. Esta teve início quando Noé, em um momento de embriaguez, despido, adormeceu. Enquanto seus irmãos trataram de cobri-lo em sinal de respeito, Cam riu da condição de seu pai. Mais tarde, ao saber da história, Noé amaldiçoou esse filho, condenando toda a sua descendência à escravidão. Tal episódio, contado no livro do Gênesis, do Antigo Testamento, resultou na posterior desqualificação racial dos negros. Por isso o teor religioso nos discursos sobre a desigualdade biológica da humanidade prevaleceu ao longo do século XIX, justificando a suposta inferioridade da “raça negra”, inclusive no Brasil.
As analogias bíblicas foram aos poucos substituídas por outras teorias. Vários cientistas que classificaram a humanidade em raças, com base em critérios geográficos, linguísticos e biológicos díspares, acreditavam que a “raça branca” teria surgido na região do Cáucaso ou na região montanhosa no norte da Índia. Daí a utilização de termos como camita, semita ou caucasiano para designar certas tipologias raciais criadas pela Antropologia, inclusive no início do século XX. Em geral, os camitas englobavam os negros, ao passo que os semitas abrangiam não só os judeus como todos os outros povos do Oriente Médio.
Essas observações mostram como eram arbitrárias as formas de classificação racial, inclusive quando passaram do campo religioso para os domínios da ciência. Até mesmo o mito da superioridade da “raça ariana” se apoiou em uma suposta verdade científica, quando o teórico racista francês Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) publicou seu famoso Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1853-1855). Ele se referiu ao “excesso de mestiçagem” para justificar a decadência das civilizações. Gobineau chegou a viver algum tempo no Rio de Janeiro como representante diplomático da França, entre 1869 e 1870, e alegou que, por conta do desregramento da mistura de raças desiguais, o Brasil jamais alcançaria um estágio elevado de civilização.
Essas questões marcaram intensos debates sobre como se daria a formação do povo brasileiro, sobretudo no início da República. Neles estavam mergulhados vários pensadores – como Silvio Romero, Euclides da Cunha, Alfredo Ellis Junior, Oliveira Vianna e Nina Rodrigues –, além de políticos, funcionários públicos de alto escalão encarregados da política imigratória e nacionalistas de todos os matizes. Todos eles discutiam a mestiçagem, tendo em mente uma futura raça histórica brasileira, resultante de um processo de branqueamento da população. Essa tendência presumia a ausência de preconceito racial no Brasil, a intenção de se procurar cônjuges mais claros dentro da sociedade e a continuidade da imigração europeia – que atingiu seu auge entre 1888 e 1914.
O quadro de Brocos y Gómez sintetiza a tese de branqueamento desenvolvida por João Baptista de Lacerda que foi apresentada em Londres com o título “SobreosmestiçosnoBrasil”. Nela, há uma reprodução da pintura acompanhada da seguinte legenda: “o negro passando ao branco, na terceira geração, por efeito do cruzamento de raças”. Dessa forma, a obra de arte demonstra um fato científico que, na verdade, expressa um ideal de formação nacional. Para Lacerda, brancos e negros não eram espécies distintas, e sim raças cuja miscigenação produzia uma prole fecunda. Ele ressaltava que o vigor dos mestiços podia ser atestado por mulatos que ocupavam altos cargos públicos. Ainda segundo a tese do médico, a imigração e a ausência de preconceito racial cooperariam para extinguir os mestiços, pois em um século a população brasileira seria majoritariamente branca, e os negros e índios provavelmente desapareceriam.
Esse ideal de nação, baseado na formação de uma raça histórica apropriadamente brasileira e de raiz lusitana – ou latina, tendo em vista as correntes imigratórias mais significativas, originárias da Península Ibérica e da Itália –, era compartilhado por boa parte da elite republicana na virada para o século XX, e persistiu por várias décadas. O uso da obra de arte como ilustração, por outro lado, indica que o ideal de branqueamento tinha uma tradução popular antes da formalização científica de Lacerda. No âmbito da história da arte no Brasil, ele pode ser considerado uma obra singular, que representa um ideal de nação configurado no início da República e que repercute até hoje.

Giralda Seyferthé professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de Imigração e cultura no Brasil (Ed. UnB, 1990).

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