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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pelo dia da consciência branca?

Estranho comentário de Morgan Freeman, principalmente quando sabemos que sua proeminência no cinema estadunidense e mundial, não vem somente por ter atuado em filmes, como, "Um Dia de Liberdade", dirigido por Frank Daranport, ou "Seven" de David Fincher, mas, sobretudo, por sua presença em obras cinematográficas, como,  "Attica", de Marvin J. Chomsky, "Bopha", do próprio Freeman e "Conduzindo Miss Daisy", de Bruce Beresford, todos de forte conteúdo antirracista.


Fonte: http://www.bhaz.com.br/pelo-dia-da-consciencia-branca/





No dia 20 de novembro celebra-se o Dia da Consciência Negra, e a semana na qual a data se insere constitui a semana da Consciência Negra no Brasil. A data foi instituída pelo Governo Federal em 2003, mesmo ano em que foi criada aSecretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Trata-se de uma das tantas iniciativas governamentais (como a criação de cotas raciais em universidades, ou da criação de editais de fomento às expressões culturais negras) que visam à correção de uma conjuntura sócio-cultural que ainda não é capaz de oferecer aos afrodescendentes o acesso irrestrito aos bens materiais e simbólicos que o país produz.
Numa sociedade em que o acesso à escola, ao mercado de trabalho e à vida política são muitas vezes pautadas pelo mérito e pela concorrência, as tais políticas afirmativas visam, pois, a tentar garantir a uma categoria historicamente marginalizada condições menos injustas de inserção nessa sociedade.
Ainda que muito deva ainda ser discutido a respeito das medidas afirmativas, como por exemplo os critérios utilizados para se definir quem pode usufruir de um benefício, ou mesmo o caráter meramente paliativo de algumas dessas políticas, está cada vez mais difícil negar a eficácia dessas iniciativas para a promoção da igualdade racial no Brasil.
E para se reivindicar a igualdade racial no nosso país, o primeiro a ser feito é reconhecer a existência da desigualdade. É mapeá-la nos campos onde for possível fazê-lo, discutir o assunto, capacitar o debate.
E se, por um lado, o país avança no sentido propor políticas públicas que intervenham no problema e, consequentemente, provocar o debate da questão, por outro, as reações dos que se sentem injustiçados quando o assunto é igualdade social são no mínimo curiosas .
Na última semana, por exemplo, um vídeo que se transformou em febre nas redes sociais brasileiras e foi compartilhado por muitos bem-intencionados, propõe a solução para a questão do racismo em “apenas 40 segundos”. No vídeo, o ator americano Morgan Freeman classificava o “Mês da Consciência Negra” como “ridículo”, com o argumento de que não se pode colocar a história dos negros em um mês. E, como solução para o problema, propõe que deixemos de falar sobre o assunto, e que as pessoas passem a ser identificadas pelo nome, e não pela etnia, “o sujeito branco” ou o “sujeito negro”.
Chamou-me a atenção não tanto o que ele falou, mas principalmente a febre dos compartilhamentos que endossavam, sem qualquer consideração adicional, o trecho da entrevista. Primeiro porque é contraditório que as pessoas concordem que é impossível resumir a história dos negros em um mês, mas compartilhem um vídeo que se proponha a “explicar o racismo em 40 segundos”.
Segundo, porque a proposta de que paremos de falar sobre o racismo para acabar com ele é uma proposta no mínimo perigosa, pelo menos num país como o Brasil, que começou a discutir o assunto há poucas décadas, e onde os movimentos pelos direitos civis vivem suas primeiras décadas. Não custa lembrar que existem diferenças substanciais entre as conquistas dos negros nos EUA e no Brasil. Recortar 40 segundos de uma entrevista dada por um americano sobre a questão racial em seu país, legendar e compartilhar como se fosse a panaceia para o racismo brasileiro é, no mínimo, uma perspectiva inocente.
Ora, não é que os brancos não mereçam o “Dia da Consciência Branca”, nem que os heterossexuais não mereçam a “Passeata do Orgulho Hétero”, nem que os homens não sejam dignos do “Dia internacional do homem”. É que não precisam desses marcos. Nem os brancos, nem os heterossexuais, nem os homens precisam discutir seu lugar na sociedade, porque seu lugar já foi conquistado, já é tido como “padrão”, já foi naturalizado por uma série de acontecimentos sócio-históricos.
Assim, a proposta de Freeman é de fato empolgante: seria ótimo um mundo em que a etnia das pessoas não se antepusesse à sua identidade. Que todos se vissem como iguais, independentemente de sua cor, e que não existissem mais nenhuma dessas datas ou festividades.
Entretanto, é inocente (e, repito, perigoso) pensar que basta parar de falar sobre o problema que ele vai deixar de existir. Porque, no caso do Brasil, um país em que as discussões sobre as questões raciais ainda engatinham, suprimir o debate significaria compactuar com o estado como as coisas estão.
Assim, só consigo vislumbrar o mundo proposto por Freeman como aquele que se apresente como consequência de todas as lutas em prol da consciência e da afirmação das minorias, e não como o ponto de partida. Nós já vivemos esse ponto de partida (quando evitávamos discutir o racismo e quando não tínhamos o Dia da Consciência Negra), e, convenhamos, o silencio não contribuiu muito para a supressão das desigualdades.
As políticas afirmativas devem ser planejadas exatamente com o propósito de um dia não serem mais necessárias. Para isso devem vir acompanhadas de medidas que interfiram em todos os níveis de todas as estruturas da sociedade. E como a sociedade somos nós, e como somos múltiplos e complexos em nossas opiniões, é delicado esperar que a solução para a questão do racismo venha só do governo, ou só de nossas iniciativas individuais. Mas não tenho dúvidas de que elas precisam existir, e quanto mais simultâneas, melhor. Quanto mais debatermos a questão, mais nos defrontaremos com suas dificuldades, suas lacunas, suas incoerências. E nos sentiremos mais confortáveis, inclusive, para reconhecermos a porção racista (ou homofóbica, ou machista, ou…) que existe em nós, porque, afinal, formamos a sociedade e por ela somos formados.
Assim, nem o silêncio, nem o revanchismo parecem ser soluções razoáveis para a questão.
É nesse sentido que propostas como “Dia da Consciência Branca”, ou expressões como “100% Branco” não podem nunca servir de contra-argumento a iniciativas que promovam a valorização da cultura afrodescendente. Porque nós, os brancos, gozamos de privilégios a respeito dos quais sequer temos consciência, de tão naturalizados que são. Porque foram construídos historicamente, por séculos.
(Clique na charge para visualizá-la na íntegra)
(Clique na charge para visualizá-la na íntegra)
História resumida das relações entre brancos e negros nos Estados Unidos (e que guarda alguma semelhança com a história racial do Brasil):
- É para o seu próprio bem.
- Não!
- Oof!
- Hey!
- Puft!
- Saia de cima de mim!
- Phew!
- Agora chega! Estou de pé!
- Eu realmente sinto muito por ter sido racista antes. Agora eu entendo.
- Bacana. Me dê uma mão, Willya?
- Claro que não! Isso seria racismo ao contrário. Veja, eu cheguei aqui sozinho. Por que você não chegaria?

E quando se pensa nessa construção histórica, é importante que se entenda que, se não fomos os protagonistas desta opressão, é inquestionável que somos, no mínimo, herdeiros dos seus benefícios, se brancos; e dos seus prejuízos, se negros.
Não raramente, ao se ver supostamente ameaçado por uma política afirmativa, um branco questiona: “Mas que culpa eu tenho de terem escravizado os negros? Por que logo eu tenho que pagar a conta?”
Claro, acostumados que estamos a vermos o mundo tendo como perspectiva o nosso próprio umbigo, nunca paramos para pensar direito sobre a conta cotidiana que os negros pagam desde nascem, ou desde que descobrem, pela primeira vez na vida, o “risco social” que ser negro pode significar.
E não é que devamos nos sentir culpados, não se trata disso. Trata-se, antes, de reconhecermos esses privilégios.
E como não fomos educados para perceber esses benefícios invisíveis que nosso país nos confere, talvez esse possa ser um bom mote para o “Dia da Consciência Branca”: um dia no qual deveríamos observar esses direitos corriqueiros de que usufruímos sem perceber, um dia para nos conscientizarmos sobre o que significa nascer branco num país como o nosso.
Um dia para notarmos que, sim, se você é pobre, você terá dificuldade de acesso a educação, trabalho, moradia digna… mas que se você é pobre e negro, essas dificuldades serão ainda maiores.
Para lembrarmos que ir à padaria de camiseta rasgada e chinelo não vai fazer com que, vez ou outra, alguma senhora precavidas que cruze com você na rua tenha como impulso segurar mais forte a bolsa.
Para lembrarmos que, poxa, é mesmo ruim não termos os cabelos das propagandas de shampoo. Mas que deve ser ainda mais difícil ter que “aprender a domesticar”, a “normalizar” os seus cabelos (o tal cabelo ruim, duro,  pixaim, bombril e tantos outros termos depreciativos) desde pequena, “pra manter a boa aparência”.
Para assistirmos às telenovelas e perceber que nós, os brancos, transitamos por todos os núcleos: o dos empresários, o dos favelados, o dos universitários… Ao passo que aos negros, durante muito tempo, foi reservado o espaço da cozinha, e que somente nos últimos anos começaram a entrar nos (ainda bem poucos) apartamentos de luxo da teledramaturgia brasileira pelo elevador social.
Para assistirmos TV e ficarmos felizes por estarmos em todos os comerciais de absorvente, ao passo que a mulher negra sequer deve menstruar – haja vista a inexistência de modelos negras nessas propagandas.
Para lembrar que na história da nossa sociedade, nunca tentaram “escurecer o homem branco”, ao passo que muitas personalidades negras foram estrategicamente branqueados pela nossa história.
Para lembrar que, por mais que tentemos fazer vista grossa, nossa sociedade abre mais portas e remunera melhor os brancos, apesar da insistência de alguns em citarem o exemplo daquele “cunhado negro que sempre foi batalhador e venceu na vida sem precisar de cotas”. Isso porque casos isolados não provam muita coisa – só provam sua insistência em negar que vive numa sociedade preconceituosa.
Para lembrar que a maioria das religiões professadas por grupos brancos usufrui da liberdade de culto prevista em nossa constituição, ao passo que as religiões afrodescendentes têm sofrido gradual processo de criminalização em nossa sociedade.
Um dia para perceber que não, “seu amigo negro” não prova nada. “Ter até um amigo negro” não te isenta de forma vitalícia de cometer gestos racistas, de discriminar, de contribuir para que as coisas continuem como estão.
Um dia para se lembrar que, provavelmente, os pais do seu(a) namorado(a) nunca tiveram ressalvas quanto ao(a) filho(a) deles namorar com alguém da sua cor, ao passo que a aceitação dos pais é uma preocupação corriqueira por parte de um negro que começa a namorar um branco.
Um dia para se lembrar que a pessoa com a qual você está saindo pode ter alguns motivos para ter vergonha de ficar com você em público, e a sua cor não é um deles. Ao passo que, para uma pessoa negra, a cor da pele pode entrar nessa lista de motivos. Tanto é que a sua etnia nunca precisou de campanhas publicitárias encorajando seu parceiro a “beijar seu branco em praça pública”.
Imagem capa de uma das campanhas contra<br />
o racismo promovido pelo Movimento<br />
Negro Unificado, em 1991<br />
(Clique na imagem para visualizá-la na íntegra)
Imagem capa de uma das campanhas contra
o racismo promovido pelo Movimento
Negro Unificado, em 1991
(Clique na imagem para visualizá-la na íntegra)
A lista poderia prosseguir com mais algumas páginas. São, em sua maioria, eventos cotidianos, quase insignificantes. Insignificantes pra quem vive a vida sem ter de se preocupar com essas pequenas diferenciações gravadas nas estruturas da nossa sociedade. Mas que deflagram, seguramente, a importância de um dia, de uma semana, de um espaço para que os negros possam, ao contrário do sentimento de inferioridade que tentam lhes incutir desde pequenos, reconhecer que, parafraseando Morgan Freeman, a história dos negros é a história do Brasil, história que tem sido estrategicamente ocultada de nossos registros, de nossas escolas, mas que precisa ser resgatada, difundida, discutida.
Que aproveitemos todos, então, do “Dia da Consciência Negra”, num país que, apesar de indiscutivelmente afrodescendente, tratou de naturalizar a branquitude como normalidade.  Afinal de contas, como já afirmou o cronista Zuenir Ventura neste ótimo texto sobre o assunto, “todos somos iguais embaixo da pele. Mas em cima, no Brasil, os negros são cada vez menos iguais”.
** Débora Viera (@umadeboravieira) é atriz, feminista e vadia. Escreve no Bhaz às segundas-feiras.
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