Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

sábado, 8 de dezembro de 2012

O mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado

Fonte: cartamaior


A maior crise da humanidade coincide com a ascensão de uma ideologia que a torna impossível resolver. Ao final dos anos 1980, quando se tornou claro que as mudanças climáticas provocadas pelo homem colocavam em perigo a vida no planeta e a humanidade, o mundo estava sob o domínio de uma doutrina política extrema, cujos princípios proibiam o tipo de intervenção necessária para enfrentá-las.

O neoliberalismo, também conhecido como o fundamentalismo de mercado ou economia laissez-faire, pretende libertar o mercado de interferência política. O estado, afirma, deve fazer pouco, mas defender o status-quo, proteger a propriedade privada e eliminar os obstáculos aos negócios. O que os teóricos neoliberais chamam encolher o estado mais parece com o encolhimento da democracia: a redução dos meios pelos quais os cidadãos podem restringir o poder da elite. O que eles chamam de "mercado" parece mais com os interesses das empresas e dos ultraricos (1) . O neoliberalismo parece ser pouco mais do que uma justificativa para a plutocracia.

A doutrina foi aplicada pela primeira vez no Chile, em 1973, onde ex-alunos da Universidade de Chicago, treinados nas receitas extremas de Milton Friedman e financiados pela CIA, trabalharam ao lado de Pinochet para impor um programa que seria impossível em um estado democrático. O resultado foi uma catástrofe econômica, mas na qual os ricos - que assumiram as indústrias chilenas privatizadas e os recursos naturais desprotegidos daquele país - prosperaram muito (2).

O credo foi adotado por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Foi imposto ao mundo pobre pelo FMI e pelo Banco Mundial. No momento em que James Hansen apresentou a primeira tentativa d etalhada para modelar temperatura futura para o Senado dos EUA, em 1988 (3), a doutrina estava sendo implantada em toda parte.

Como vimos em 2007 e 2008 (quando os governos neoliberais foram forçados a abandonar seus princípios para salvar os bancos), dificilmente poderia haver pior conjunto de circunstâncias para enfrentar uma crise de qualquer tipo. Até que não tenha mais escolha, o estado neoliberal, que carrega o ódio de si mesmo, não vai intervir, mesmo que a crise se agudize a as consequências se agravem. O neoliberalismo protege os interesses da elite contra todos.

Prevenção do colapso climático: os quatro, cinco ou seis graus de aquecimento agora previstos para este século por “extremistas verdes” como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia e a PriceWaterhouseCoopers (4, 5, 6) - implicam enfrentar as indústrias do petróleo, gás e carvão. Isso significa forçar estas indústrias a abandonar 4/5 ou mais das reservas existentes de combustíveis fósseis, as quais não poderemos nos dar ao luxo de queimar (7). Significa cancelar a prospecção e desenvolvimento de novas reservas - para que, se não podemos usar nem os estoques atuais? - e reverter a expansão de qualquer infraestrutura (tal como de aeroportos) que não possa vir a ser operada sem estes combustíveis.

Mas o estado que se auto-odeia não pode agir. Capturado por interesses que à democracia espera-se que contenha, só pode sentar na estrada, de orelhas em pé e bigodes eriçados, esperando ser atropelado pelo caminhão que se aproxima. O confronto é proibido, a ação é um pecado mortal. Talvez se possa dispersar algum dinheiro para energia renovável, mas não legislar contra o velho.

Assim, Barack Obama persegue o que chama de politica de "todos os itens acima": promoção da energia eólica, petróleo, energia solar e gás (8). Ed Davey, o secretário britânico de mudança climática, na semana passada lançou um projeto de lei que dispõe sobre energia no parlamento britânico cuja finalidade era descarbonizar o fornecimento de energia. Mas no mesmo debate prometeu "maximizar o potencial" de produção de petróleo e gás no Mar do Norte e de outros campos offshore (9).

Lord Stern descreveu a mudança climática como "a maior e mais abrangente falha de mercado jamais vista" (10). A inútil Cúpula da Terra (Rio+20) de junho; as medidas débeis agora em discussão em Doha, o projeto de lei sobre energia (11) e o estudo sobre redução da demanda de eletricidade (12) lançado na Grã-Bretanha na semana passada (melhor do que poderiam ter sido, mas incomensurável à escala do problema) expõem o mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado: sua incapacidade para resolver a crise existencial da espécie.

O legado de 1000 anos das atuais emissões de carbono é amplo o suficiente transformar em lascas qualquer coisa parecida com a civilização humana (13). Sociedades complexas, por vezes, sobreviveram à ascensão e queda de impérios, pragas, guerras e fome. Mas não sobreviverão a seis graus de mudança climática sustentada por um milênio (14). Em troca de 150 anos de consumo explosivo, muito do qual nada contribuiu para o avanço do bem estar humano, estamos destruindo o mundo natural e os sistemas humanos que dele dependem.

A Cúpula do Clima (ou sopé), em Doha, e o som e a fúria das novas medidas do governo britânico sondam os limites atuais de ação política. Ir mais longe é quebrar a aliança com o poder, uma aliança tanto disfarçada quanto validada pelo credo neoliberal.

O neoliberalismo não é a raiz do problema: é a ideologia usada, muitas vezes retrospectivamente, para justificar a tomada global de poder, bens públicos e recursos naturais por uma elite desenfreada. Mas o problema não pode ser resolvido até que a doutrina seja desafiada por alternativas politicas eficazes .

Em outras palavras, a luta contra as alterações climáticas - e todas as crises que agora afligem os seres humanos e o mundo natural - não pode ser vencida sem uma ampla luta política: a mobilização democrática contra a plutocracia. Eu acredito que esta deve começar com um esforço de reforma do financiamento de campanha: o meio pelo qual as corporações e os muito ricos compram politicas e políticos. Alguns de nós lançaremos uma petição no Reino Unido nas próximas semanas, e eu espero que você a assine.

Mas este é apenas um começo. Temos de começar a articular uma nova política: uma que veja a intervenção como legítima, que contenha um propósito maior do que a emancipação corporativa disfarçada de liberdade de mercado, que coloque a sobrevivência das pessoas e do mundo vivo acima da sobrevivência de algumas indústrias favorecidas. Em outras palavras, uma política que nos pertença, e não apenas aos superricos.
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.5 Brazil License.