Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Educação: Por que o Brasil não está entre os melhores?


O Brasil reproduz acriticamente muitas das medidas educacionais dos Estados Unidos e ambos apresentam baixos índices no PISA, programa internacional que busca verificar o nível de preparo dos jovens para o exercício da cidadania. Participaram desta avaliação cerca de 500 mil estudantes de 65 países.

A grande imprensa brasileira está repercutindo largamente o desempenho dos nossos estudantes da Educação Básica no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Programme for International Student Assessment – PISA). Este Programa é desenvolvido e coordenado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e é aplicado a estudantes na faixa dos 15 anos. Seu objetivo é verificar o nível de preparo dos jovens para o exercício da cidadania na sociedade contemporânea matriculados em escolas públicas e particulares. Participaram desta avaliação cerca de 510 000 estudantes de 65 países.

As avaliações do PISA são trienais e abrangem três áreas do conhecimento – Leitura, Matemática e Ciências. A cada triênio uma das áreas é enfatizada. Na avaliação de 2012, que está sendo divulgada, a ênfase foi em Matemática. Em 2015 será em Ciências.

Muito embora os estudantes brasileiros tenham ficado abaixo da média dos países da OCDE, é de se registrar que o desempenho médio em Matemática tem melhorado desde 2003. São também visíveis as melhorias nos desempenhos de Leitura e Ciências. O problema, no entanto, é que o Brasil ainda está distante dos países situados no topo do ranking; as cinco melhores posições foram ocupadas pelos estudantes asiáticos, respectivamente de Xangai, Singapura, Hong-Kong, Taipé e Coreia. Os Estados Unidos e o Brasil ocuparam as posições de números 36 e 58 respectivamente. A Finlândia (12ª posição) mesmo tendo caído algumas posições e tendo ficado abaixo dos asiáticos já mencionados, do Liechtenstein, da Suíça, da Holanda e da Estônia, ainda compõe a elite mundial de bons desempenhos no PISA.

Os esforços brasileiros para a melhoria da qualidade da educação na última década têm sido grandes e estão sendo lentamente recompensados. No ano 2000 nosso escore geral foi igual a 368 e subimos em 2012 para 402. Nosso desempenho, no entanto, sempre fica abaixo da média dos escores dos países da OCDE em todo esse tempo de realização do PISA, em todas as avaliações. A média da OCDE em 2012 foi 494.

Ao longo das aplicações do PISA o desempenho de estudantes de três países ocidentais chama a nossa atenção. O desempenho dos estudantes da Finlândia sempre conseguindo as melhores posições do ranking, obtendo escores superiores às médias da OCDE; o dos estudantes dos Estados Unidos que jamais superou o escore de 499 pontos, e dos estudantes do Brasil sempre ocupando as piores posições. Os estudantes destes dois últimos países vêm tendo desempenhos abaixo das médias da OCDE.

Os finlandeses obviamente se orgulham do sucesso obtido em todos os exames do PISA. E quando nos empenhamos a descobrir a sua fórmula, ela se revela incrivelmente simples e diferente daquelas que são aplicadas nos Estados Unidos e no Brasil. O Portal G1, em sua edição de 24 de maio de 2013, tornou pública essa simplicidade e as diferenças que apresenta ao veicular extensa matéria com o título País com a melhor educação do mundo, Finlândia aposta no professor , baseando-se no depoimento de Jaana Palojärvi, diretora do Ministério da Educação e Cultura da Finlândia.

Na Finlândia, segundo Palojärvi, o sucesso nada tem “a ver com métodos pedagógicos revolucionários, uso da tecnologia em sala de aula ou exames gigantescos como Enem ou Enade”. Lá as apostas se concentram na valorização do professor e na sua autonomia para trabalhar. Desde a reforma educacional dos anos 1970 a valorização do professor traduziu-se em pagamento de salários competitivos e em atratividade da carreira docente. Hoje um docente da Educação Básica ganha em média R$ 8 mil reais por mês, algo em torno de 3 mil euros. Seu salário é compatível com a média salarial do país e aumenta com o tempo de serviço. Todos os docentes, entretanto, precisam ter formação mínima em nível de Mestrado e cumprir um tempo de treinamento antes de entrar em sala de aula. Quanto à autonomia de trabalho a diretora do Ministério da Educação e Cultura da Finlândia é muito clara: O material [didático] usado e o currículo são livres, por isso podem variar muito de uma unidade para outra. O mesmo ocorre quando fala do uso de novas tecnologias em salas de aula: tecnologia também não é o forte das escolas finlandesas, que preferem investir em gente. "Não gostamos muito de tecnologia, ela é só uma ferramenta, não é o conteúdo em si. Tecnologia pode ser usada ou não, não é um fator chave para a aprendizagem."

O desempenho dos estudantes dos Estados Unidos, ao contrário dos estudantes finlandeses, desde a primeira aplicação do PISA em 2000 vem se situando abaixo da média dos escores dos países da OCDE, oscilando entre 499 (em 2000) e 492 (em 2012). A ex-conselheira de educação dos governos Bill Clinton e George W. Bush, Diane Ravitch, em seu livro “Vida e morte do grande sistema escolar americano” (2011) responsabiliza os testes padronizados (tais como os testes do ENEM e do SAERJ – aplicados no sistema educacional brasileiro e fluminense) e o modelo de mercado adotado pelo sistema educacional como os grandes vilões do fracasso na educação dos jovens americanos. Segundo afirma os testes tornaram-se definidores de toda a vida escolar americana. A partir dos resultados obtidos é que são tomadas as decisões pelos formuladores de políticas educacionais, as famílias podem fazer as suas escolhas acirrando a competição entre escolas, e os professores recebem gratificações e bônus sempre que os seus estudantes apresentam bons rendimentos.

A crise educacional americana é profunda e já dura algum tempo. Em 1983 o relatório Nation at Risk (Uma Nação em Risco - NAR), elaborado pela Comissão Nacional de Excelência em Educação na gestão do presidente Ronald Reagan, alertou acerca da erosão das instituições educacionais “por uma onda de mediocridade que ameaça o nosso próprio futuro enquanto povo e nação”. Para a Comissão responsável pelo NAR o unilateral desarmamento educacional posto em prática nas escolas básicas dos Estados Unidos tanto compromete a segurança nacional em um futuro próximo, como também afeta o país econômica e socialmente. Entre as recomendações feitas pelo NAR, todas citadas por Ravitch, estavam a elevação de exigências para o ensino básico, desempenho e conduta escolar dos estudantes, formação de professores, assim como mais tempo para as instruções e deveres de casa, e valorização da carreira docente com o imediato aumento dos salários. Ravitch destaca que tal relatório coincidiu com os resultados anteriores do Relatório SAT de 1977 (Scholastic Aptitude Test ou Scholastic Assessment Test). O SAT já apontava o fracasso e insistia igualmente que os estudantes tinham poucas horas de disciplinas básicas, poucos deveres de casa, muitas faltas às aulas, poucas leituras críticas e reflexivas e uma escrita muito descuidada. Contudo, a entrada em um novo século, praticamente não alterou a situação americana apesar de alguns esforços salvacionistas de economistas, “líderes da América corporativa”, consultores e empresários que pouco ou nada entendem de educação. Em 2002 Michel Bloomberg, ao assumir a prefeitura de Nova Iorque considerou o sistema educacional da cidade em “estado de emergência”.

A administração do prefeito Bloomberg para a educação, de fato, fez grande esforço para melhorá-la. Basicamente sua “reforma” educacional incluiu estratégias de responsabilização vertical, que segundo Ravitch significava “mais reformas de mercado que incluíam escolha escolar, autonomia, competição e incentivos”. Apenas eram “autônomas” as escolas administradas privadamente com recursos públicos (School Charters); elas tinham turmas menores, mais recursos, estudantes selecionados e criavam uma dualidade de oferta de matrículas e ensino na rede de escolas públicas da cidade. Para incrementar as escolhas familiares, foram criadas inúmeras pequenas escolas de nível médio, com mais ou menos 500 alunos, todas elas temáticas voltadas para atender às demandas do mercado.

No Brasil, no Estado do Rio de Janeiro e em Pernambuco, já há algumas escolas temáticas de ensino médio tais como a NAVE (Núcleo Avançado em Educação em parceria com a OI Futuro) e a NATA (Núcleo Avançado em Tecnologia de Alimentos em parceria com o Grupo Pão de Açúcar e com a CCPL).

Contudo, apesar dos esforços da administração municipal de Nova Iorque, a reforma educacional do prefeito Bloomberg pode ser bastante criticada em função da dos grandes déficits de democracia que produziu no sistema educacional com a centralização das decisões e com o autoritarismo na implantação de políticas. Ravitch afirma que “a reorganização foi um modelo corporativo de controle fortemente centralizado, hierárquico e vertical”. Outro ponto crítico igualmente importante foi a atenção mínima foi prestada ao currículo escolar: à exceção de Matemática e Leitura todas as demais disciplinas curriculares tiveram importância reduzida. Os escores obtidos pelos estudantes nova-iorquinos no National Assessment of Educational Progress (NAEP) entre 2005 e 2007 em Leitura e Matemática demonstraram que eles não tiveram ganhos significativos. Segundo Ravitch “na Leitura da quarta e da oitava séries e na Matemática da oitava série, os escores do NAEP demonstraram que não houve mudanças significativas. Tampouco houve qualquer estreitamento da distância de desempenho entre diferentes grupos raciais”. O New York Times, na edição de 16 de novembro de 2007 , estampou em grande matéria que os resultados de Nova Iorque nos testes federais demonstraram a estagnação educacional da cidade, apesar dos ganhos em Matemática da quarta série. E asseverou que medida após medida, os resultados mostraram que não houve nenhuma mudança significativa no período entre 2005 e 2007.

O Brasil reproduz acriticamente muitas das medidas aplicadas nos Estados Unidos como que repetindo a fórmula o que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Diversas unidades e municípios da nossa Federação estão gerindo os seus sistemas educacionais com forte centralização, hierarquização rígida e vertical, e responsabilização das direções e professores pelos avanços e retrocessos porventura existentes. Aqui as famílias também estão sendo levadas a escolher as escolas para os seus filhos pautadas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB. O ranking que resulta da apuração do IDEB favorece as escolhas familiares, apesar das poucas pistas que fornece acerca do tipo de cidadãos que estão formando. Da mesma forma que em diversos estados e cidades dos Estados Unidos é comum entre nós o pagamento de gratificações por mérito e bonificações para os professores e escolas que cumprirem determinadas metas a contragosto dos nossos sindicatos. Também aqui raramente as comunidades educacionais são envolvidas em discussões sobre a aplicação de recursos, organização curricular, carga horária etc. Como lá estamos longe de uma ampla discussão pública para criação de um projeto nacional de educação.

A Finlândia que poderia nos inspirar sequer é visitada pelos formuladores nacionais de políticas públicas. Sua fórmula de sucesso parece não sensibilizar nossos tecnoburocratas educacionais e desembarcá-los da ponte aérea para Manhattan. Interessante ainda é que esses mesmos técnicos desconsideram os temores e as recomendações do relatório Nation at Risk que a Finlândia parece ter adotado para si. Não por acaso o sucesso desse país é produzido por professores experientes, ensino efetivo, estudantes motivados, recursos adequados e uma comunidade que valoriza a educação. Os atalhos e respostas rápidas parecem ser a obsessão dos nossos formuladores de políticas educacionais tanto quanto tiraram o sono do prefeito Bloomberg. Ravitch (2011) em ato de contrição por ter contribuído com as erráticas políticas educacionais de Bill Clinton e George W. Bush assevera que o fracasso americano decorre da “falta de visão educativa” e do “alistamento de um exército de consultores empresariais”. Para essa ex-secretária de educação a maneira mais durável de melhorar o sistema educacional americano é a adoção de um currículo mais forte, melhoria das condições de trabalho e remuneração dos professores e melhoria das condições de ensino e aprendizagem.

Muito possivelmente por conta dos modismos da nossa tecnoburocracia que se mostra incapaz de aprender com a Finlândia, estamos insistindo na aquisição de competências e habilidades básicas que se mostram insuficientes para formar homens e mulheres que irão produzir novas tecnologias, fazer novas descobertas científicas, edificar novas e grandes obras de engenharia ou resolver problemas alimentares e hídricos. Dificilmente estarão aptos sequer para apreciar as realizações culturais da nossa sociedade ou a compreender e fortalecer a herança democrática. Como simples homo faber se equipam mal para tomar decisões baseadas em conhecimentos, debates e razão.

Muito provavelmente por causa dos limitados e imediatos horizontes educativos de nossa dos nossos formuladores de políticas educacionais ainda estamos longe da posição que a Finlândia e seus estudantes ocupam no cenário educacional mundial. E isto nos aflige particularmente num momento em que nos encaminhamos para ocupar o lugar de 5ª economia mundial. Como poderemos nos manter nessa posição?

por Zacarias Gama -  Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutor em Educação. Professor do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Fim da neutralidade da rede: uma ameaça à liberdade


Pagamos 100% por uma velocidade e só recebemos 20% do que contratamos das operadoras. A latência é tão grande que foge de todos os padrões internacionais aceitáveis.
  Entenda o que representa o fim da neutralidade da rede para todos nós:
http://pelenegra.blogspot.com.br/2013/10/entenda-o-que-e-neutralidade-da-rede-e.html
 
Por Sérgio Amadeu na revista Fórum do dia 12/11/2013 

O representante dos donos da operadoras de telefonia, Sr Eduardo Levy, segundo o jornal Folha de São Paulo, teria dito ao governo que “com crescimento contínuo da demanda pelos serviços haveria duas opções: perder qualidade ou fazer vultosos investimentos para ampliação da rede das empresas, aumentando o preço para os consumidores”.
Primeiro é preciso perguntar que qualidade é essa que o Sr. Levy diz que as teles nos oferecem? Pagamos 100% por uma velocidade e só recebemos 20% do que contratamos das operadoras. A latência é tão grande que foge de todos os padrões internacionais aceitáveis. Não é por menos que as teles lideram as reclamações nos serviços de proteção do consumidor. Enquanto escrevo este texto acabo de receber uma cartinha da Vivo me cobrando por um serviço de dados que cancelei desde setembro (tenho o protocolo) e eles continuam me mandando a fatura. Aliás pagava R$ 167,00 por mês por 20Mb que nunca tive. 
Segundo, o representante das operadoras deixou claro qual é o problema das teles: elas não querem investir na ampliação da infraestrutura. As teles há muito tempo sabem que as pessoas consomem cada vez mais bits. Estima-se que em 2017, o mundo irá utilizar 1,4 zettabyte, o equivalente a 1 trilhão de gygabytes ou o mesmo que 1 bilhão de DVDs assistidos por dia durante um ano inteiro. Há pouco mais de 10 anos, usavamos disquetes de 1,44 Mb. Hoje, os computadores não têm mais entrada de disquetes e as pessoas começam a usar pen drives com 512 Gb. Isso significa que um pendrive desses tem a capacidade equivalente de 365 mil disquetes. Mas, as teles não sabiam disso?
Na verdade, as teles querem manter a mesma capacidade das infovias, da infraestrutura de fibras e cabos por onde transitam os dados. Para fazer passar o fluxo crescente de informações, as operadoras querem filtrar o tráfego e gerenciá-lo, para tal precisam quebrar a neutralidade que deveriam ter em relação aos pacotes de dados. Sem dúvida, as teles não querem investir no ritmo que as sociedade exige e, mais do que isso, pretendem ter modelos de negócios especiais para as empresas que pagarem caro para seus dados não serem bloqueados e ficar numa via congestionada. Grandes corporações gastarão mais e terão sua comunicação mais estável e veloz. Nós, a maioria da população teremos que amargar com a qualidade que o Sr Levy diz que temos hoje, ou seja, uma rede instável e lenta.

A questão é exatamente essa: as operadoras não querem investir e por isso, precisam quebrar a neutralidade da rede. Aqueles que têm compromisso com o desenvolvimento da sociedade informacional no Brasil e com a inclusão digital não podem concordar com um segmento que não fornece a banda larga necessária nem na periferia da cidade de São Paulo. Mas é evidente. O modelo de negócios dessas empresas era vender banda larga cara para quem pode pagar. Por isso, o Brasil está pessimamente conectado.  
Logo, a conversa da semana passada que as operadoras de telefonia queriam é atender os pobres não passa de balela. O discurso dos lobistas das teles de que os pobres querem comprar apenas o pacote de serviços necessários aos seus interesses não resiste aos números das pesquisas sobre os usos da Internet no Brasil. Um influente deputado do PMDB disse que os pobres estão pagando pelo multimídia dos ricos (SIC!). “O pobre quer apenas acessar a web e seus e-mails por isso não precisa pagar tudo que paga”. Nossa! Quer dizer que as operadoras que nunca se interessaram em levar banda larga no interior do país e das periferias das cidades resolveram agora se tornar defensora dos fracos e oprimidos? Tenha paciência.
Vamos observar os dados da única pesquisa sobre Internet no Brasil, reconhecida pela UNESCO, a TIC Domicílios e Empresas 2012, promovida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (http://www.cetic.br/publicacoes/2012/tic-domicilios-2012.pdf) 
Indo direto ao ponto, constatamos que apenas 18% dos brasileiros que ganham até 1 salário mínimo estão conectados à Internet. Destes, apenas 45% utilizam e-mail para se comunicar, 73% usam redes sociais (como Facebook) e 53% assistem filmes e vídeos na Internet. Repare que entre os mais pobres o uso de recursos multimídia é maior do que o uso do e-mail. Organizar pacotes mais caros para acessar o Youtube ou o Vimeo somente tornará pior e mais custoso o acesso desses recursos para os mais pobres. Como poderemos incentivar o uso dos cursos online sem o direito dos mais pobres utilizarem a tecnologia streaming?
Não vamos aceitar as falácias das operadoras de telefonia que não querem investir no Brasil. Essa situação é fruto de uma privatização completamente atravessada que gerou este absurdo Custo Brasil de Telecomunicação. Não podemos concordar que os representantes das Teles em conjunto com o deputado Eduardo Cunha criem uma Internet segregada, uma comunicação rápida e estável para os ricos e um serviço degradado para os pobres. A quebra da neutralidade implicará no pagamento do que hoje temos o direito de utilizar. Já pagamos para as operadoras mais caro para termos velocidades maiores de conexão. O deputado Eduardo Cunha deveria brigar para que as operadoras investissem para nos entregar a velocidade que pagamos e não apenas 20 % dela. Deveria lutar pelo investimento na infraestrutura da sociedade informacional e não para defender o interesse de 4 grandes corporações. Mas, ainda dá tempo do deputado Eduardo Cunha mudar de posição para apoiar o relatório do deputado Alessandro Molon em defesa da neutralidade da rede.

domingo, 1 de dezembro de 2013

A difícil arte de viver à sombra das remoções

Fonte: odia

Processo já obrigou cerca de 80 mil pessoas a deixarem suas casas. Anistia Internacional critica prefeitura por não informar para onde as pessoas foram enviadas e nem as razões

Por André Balocco

Rio - A escadaria é íngreme e tem degraus escavados na pedra. Em meio ao latido dos cachorros, atentos ao movimento estranho, o repórter sobe. Sorriso escancarado, a menina de seus 4 anos passa, descalça, sozinha e cabelos desgrenhados. Misturada à alegria, a camisa suja, sinal do almoço recém-conquistado. “Minha família está aqui há 70 anos”, começa Vítor Ferreira Soares, 35 anos, nascido no Santa Marta, em Botafogo. “Roemos o osso trazendo material aqui para cima nas costas, para construir nossas casas, e agora que tem estrada asfaltada e plano inclinado vão me tirar? Não saio”.
Por ‘não saio’ entenda-se ser removido. Desde 2008, Vítor e outras famílias do Pico, como é conhecido o local onde moram na comunidade, lutam para não entrar na estatística que está mudando a cara do Rio: 19.567 barracos e casas derrubados em nome do progresso, da ameaça de deslizamentos ou de obras de infraestrutura. Como nas favelas cada casa tem, em média, quatro moradores, chega-se à conta de 78.268 pessoas obrigadas a mudar de endereço, ônibus, vizinhança...
Damião, do Salgueiro, já deixou sua casa: ele vai morar em apartamento na comunidade da Tijuca
Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia
“Falta transparência à prefeitura”, critica Renata Neder, coordenadora de direitos humanos da Anistia Internacional. “Até hoje não nos informaram os nomes de quem foi removido, para onde e em que condições”. A prefeitura se defende. Alega que, até 2016, nenhuma pessoa viverá em área de risco — único e real objetivo do programa.
Neder cita os casos da Vila Harmonia e da Barra 2, no Recreio, em que moradores foram retirados em nome do BRT TransOeste. Finda a obra, o trajeto não passou por lá. Já as construções imobiliárias tiveram um boom. O município garante que o processo de desapropriação é dos anos 70 e que a área que sobrou é um talude que limita um aterro. Mas qual a razão, para quem mora num barraco, recusar um apartamento? “No Santa Marta, cada habitação terá 37 m2. Na minha casa, tenho quatro pavimentos e cinco quartos. Minha história está aqui”, diz Vítor.
No Salgueiro, troca por casa é alvo de elogio
Se há quem prometa resistir em suas casas, há também quem pense o contrário. Marco Antônio Damião, do Salgueiro, é um deles. O cozinheiro conta as horas para ocupar um dos apartamentos que a prefeitura ergue na comunidade, ao lado das residências do projeto ‘Cimento Social.’
“A área em que eu vivia era mesmo de risco. Não só minha casa, como outras. Quando chove, fica todo mundo com medo”, conta, caminhando em meio a escombros de barracos postos abaixo, mas cujos terrenos ainda não estão completamente limpos. 
Enquanto a casa não vem, Damião vive de aluguel social, que a própria prefeitura paga, numa casa na comunidade. “Aqui, onde ficava a minha casa, será erguida uma adutora”, explica. Ele conta que chegou a temer ser esquecido pela prefeitura, devido à demora entre a notificação e a derrubada de fato da casa. “Estou muito feliz porque vou ganhar uma casa, muito feliz mesmo”.
Incerteza impede obras de melhoria
O ano era 1993. Dona Penha, cansada dos constantes tiroteios na Rocinha, decidiu se mudar para um lugar onde tivesse mais calma. O que ela não imaginava é que, meses depois de comprar um barraco por 5.800 cruzeiros na Vila Autódromo, seu pesadelo estivesse começando.
“Desde aquela época que esse menino tenta nos tirar”, diz, referindo-se ao prefeito Eduardo Paes, ‘prefeitinho’ da Barra na administração César Maia.
Desde então, cada vez que põe um tijolo no barraco, Penha sofre. “Pobre, quando faz obra, faz aos pouquinhos. Tenho medo de melhorar a casa e eles derrubarem”, conta. No Santa Marta, Vítor vive o mesmo dilema. Guia turístico, dono de uma das primeiras construções do morro, gostaria de investir para receber em seu jardim suspenso, onde cria orquídeas em vasos de solas de sapatos. Mas ele não faz nada.
A espera o angustia. Com um contralaudo que nega ser a área de risco, raciocina que há outros interesses por trás da ameaça. “A estrada que vem por Laranjeiras foi pavimentada há pouco; há um plano inclinado chegando aqui e o trenzinho do Corcovado vive lotado. Por que querem me tirar?”. O governo do estado nega e diz que a área, de risco, será reflorestada. Com um laudo da Georio que condena a região, garante todos serão realocados no conjunto em construção na favela.
Moradora da Providência diz que vizinhos a culpam por teleférico parado
A alguns quilômetros do Santa Marta, na Providência, Márcia Regina de Deus observa o teleférico pronto — mas sem funcionar. De sua janela, vê também o olhar torto que alguns vizinhos, antigos amigos, dirigem a ela quando passam pela casa. Ela acha que, para muitos deles, é a culpada pela não inauguração do projeto.
“Temos uma liminar que impede novas remoções por falta de estudos de impacto ambiental e habitação”, diz Márcia, cuja casa está garantida pela lei. “Não sou contra a obra, sou contra a forma como foi feita. Tenho 54 anos de Providência. Minha história vai para onde?”.
Márcia aponta o teleférico, que ocupou a antiga praça: tristeza por ver os moradores divididos
Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia
Do outro lado do morro, o administrador de imóveis Roberto Marinho fala sobre a sensação de, a qualquer momento, ser expulso da casa onde vive há 37 anos. “É estranho viver sem saber o que vai acontecer no dia seguinte”, diz ele, quarto representante da geração dos Marinho na comunidade. “A prefeitura faz pressão psicológica. Uma vez, numa reunião com moradores, disseram que não tinha teleférico porque entramos na Justiça.”
A prefeitura garante que a história é diferente. Em nota enviada ao jornal, diz que tem feito reuniões com moradores, sempre com a presença de representante da Defensoria Pública, que conseguiu a liminar. E que refaz estudos para minimizar as remoções previstas no priojeto original. “Mas vai ser construído um plano inclinado após a estação do teleférico”, diz a nota. “A escadaria é íngreme e idosos e cadeirantes não têm opção de deslocamento.”
'Esta é a maior remoção da história', Renata Neder - Anistia Internacional
De fora, quem olha a casa recém-reformada na Praça São Salvador não imagina estar diante da sede de uma das mais respeitadas organizações mundiais: a Anistia Internacional. Lá, O DIA ouviu Renata Neder, coordenadora de direitos humanos da entidade, sobre o processo que muda a cara do Rio. Confira:
'É a maior remoção da história', diz coordenadora de direitos humanos da Anistia Internacional
Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia
1. O que a senhora acha deste processo de remoção/realocação?
— Falta transparência. Esta é a maior remoção da história da cidade, maior que a de Pereira Passos, no início do século 20, e de Carlos Lacerda, nos anos 60.
2. A prefeitura alega que são obras de mobilidade ou em áreas de risco...
— Sabemos que, às vezes, são sim. Mas a prefeitura não nos diz quem saiu, de onde foi tirado e por que isso aconteceu. Também não sabemos qual o fator de risco e qual o laudo que identificou isso. Pedimos para saber os motivos, mas não respondem.
3. A remoção da Vila Autódromo alcançou casas fora do traçado?
— Sim. Faltou clareza sobre o traçado, pois uma curva determina que família vai sair. Além disso, não falaram do tempo de execução da saída, ou se existe alternativa ao traçado. O ideal é que se pense o projeto de forma que tenha o menor impacto. Só porque é favela não se deve garantir o direito à moradia?
4. E o processo da favela da Restinga?
— Eles entraram na favela na noite de 16 de dezembro de 2010 e disseram que tinham de sair até o dia seguinte. Teve morador que ficou sem teto e se acorrentou à casa. Um desrespeito muito tramático.

sábado, 30 de novembro de 2013

David Harvey: O marxista que quer reinventar as cidades (II)


Entrevista a Vince Emanuele | Tradução: Sônia Scala Padalino


Leia aqui a primeira parte da entrevista, e aqui a abertura e contextualização
No capítulo “A criação dos bens comuns urbanos”, de Cidades Rebeldes, você tenta elaborar um novo conceito sobre o que o “comum” pode representar neste século. Além disso, faz referências ao trabalho de Toni Negri e Michael Hardt em todo o livro. Como vocês todos afirmam, precisamos definir o modo em que transferiremos, promoveremos e usaremos o “comum”. Mas como conceituá-lo?
Bem, muitos dos textos sobre os bens comuns abordam a questão em escala microscópica. Não digo que seja um erro ter, por exemplo, uma horta comunitária no bairro, mas acho que precisamos nos preocupar e falar sobre os bens comuns em grande escala, como o habitat de uma bio-região. Como gerir os recursos hídricos em nível nacional? Sem falar do nível global. Os recursos hídricos deveriam ser considerados de propriedade comum, mas há, às vezes, exigências conflitantes em relação à água: urbanização, agricultura industrial e toda a manutenção dos habitats naturais.
topo-posts-margem
Recentemente, Christian Parenti escreveu um artigo chamado “Por que as mudanças climáticas o farão adorar o intervencionismo do governo”, que trata de modo muito sério a organização social e as consequências políticas e econômicas das mudanças climáticas. Parenti aborda concretamente a questão de como usar o aparelho do Estado. O que pensa sobre isso?
Fico contente que você cite o texto de Christian Parenti, porque as mudanças climáticas deveriam nos levar a um novo conceito de bens comuns globais. A pergunta é: como vamos tratar essas questões no futuro? Precisamos de mecanismos de ação entre estados-nações para combater essas tendências ou evitar futuras ameaças. O que vai acontecer com os tratados internacionais se os governos forem destruídos? Quem vai conseguir que outros países parem de emitir carbono na atmosfera? Não se pode fazer isso organizando “assembleias coletivas” ou “refeitórios comunitários”. As discussões sobre converter um pedaço de terra em horta comunitária não conseguirão combater os problemas que nossa espécie deverá enfrentar. Devemos considerar que existem bens comuns em diferentes escalas.
Por isso, gostaria de lançar o conceito de “diferentes escalas de organização” na nossa conversa coletiva sobre desenvolvimento, sustentabilidade e urbanização. Precisamos desenvolver organizações, mecanismos, discursos e aparelhos capazes de abordar esses problemas em escala global. Não adianta nada discutir sobre os “bens comuns”, se não especificarmos a que escala nos referimos. É do mundo que falamos? Se for, sugiro que se fale dos aparelhos do Estado e de suas funções.
No capítulo 4, “A arte da renda”, você diz que “as escolas de arte foram fonte de debate político, mas a pacificação que sofreram em seguida diminuiu seriamente a política de agitação”. Pode falar sobre a natureza especial da produção e da reprodução cultural? De que modo o “empreendedorismo urbano” ajudou esse processo? Você o chama de “disneyficação” da sociedade e da cultura. O que é o capitalismo coletivo e simbólico? Você cita a indústria do turismo e também o marketing de cidades específicas, sentimentos culturais e a “comercialização das cidades”. Pode nos falar sobre essas dinâmicas?
Meu interesse nisso tudo vem de uma contradição muito simples: presume-se que vivemos sob o capitalismo; que o capitalismo é competitivo; e, assim, imaginamos que capitalistas e empresários gostem da concorrência. Bom, acontece que os capitalistas fazem todo o possível para evitá-la. Amam os monopólios. Por isso, sempre que podem, procuram criar um produto que seja monopolizável, o que significa, em outras palavras, “único”. Tomemos, por exemplo, o logotipo da Nike, que é um exemplo perfeito de como os capitalistas extraem um preço de monopólio de um logo particular, visto que há uma enorme bagagem associada a ele, ao que ele significa, e a como as pessoas devem interagir com ele. Um tênis igualzinho custa muito menos e pode ser vendido a preço inferior simplesmente porque não tem o logo. Em muitos lugares, esse componente é fundamental no funcionamento dos mercados. Cito, nesse capítulo, o comércio do vinho porque me intriga muito. As pessoas tentam extrair uma renda de monopólio porque tal vinhedo tem um solo especial ou uma posição geográfica especial. Criam, assim, um vinho “vintage” único, que tem um sabor melhor do que qualquer outra coisa no mundo, só que não é verdade.
Por Ramiro Furquim/Sul21
No plano das cidades, isso significa que elas tentam “comercializar” a si mesmas. Existe toda uma história, em particular dos últimos 30 ou 40 anos, de como tentam vender um pedaço de sua história. Qual é a imagem de uma cidade? É atraente para os turistas? Está na moda?
Há cidades que não têm uma reputação semelhante à de Barcelona ou Nova York. Um dos modos de melhorar sua singularidade é vender algo que esteja ligado a sua história, algo muito específico que não tenha paralelos históricos em outro lugar. Por exemplo, vamos a Atenas pela Acrópole, ou a Roma pelas ruínas antigas. E se não houver uma história especial, simplesmente inventa-se uma.
Algumas cidades usam a “arquitetura de grife”. Pouca gente conhecia Bilbao antes que o Museu Guggenheim se tornasse o centro de um estilo particular de arquitetura. Pense em Sydney (Austrália) com a sua Opera House, que é a primeira coisa que as pessoas reconhecem quando veem a imagem da cidade, e entenderá a importância que esse teatro teve. A própria arquitetura torna-se refém da comercialização. Até mesmo as pinturas e as ambientações musicais são convertidas em aspectos culturais da cidade para que possam ser vendidas. Lugares como Austin (Texas) tornam-se “cenas musicais”.
O problema é que grande parte da cultura é muito fácil de copiar. A singularidade começa a desaparecer. É necessário, então, aquilo que chamo de “disneyficação” da sociedade. Na Europa, por exemplo, veja como tudo se “disneyfica”, embora muitas cidades tenham um passado cultural e histórico sério. Para algumas pessoas – para mim, por exemplo – isso é extremamente repugnante. Vende-se uma cidade como única, mas, por meio do marketing, ela pode ser copiada. Os simulacros da história tornam-se tão importantes quanto a própria história. Isso cria uma situação em que os produtores culturais adquirem muita importância.
No capítulo 5, “Reivindicar a cidade por meio da luta anticapitalista”, você escreve: “Dois problemas surgem dos movimentos políticos baseados nas cidades: 1) a cidade, ou o sistema de cidade, é um lugar meramente passivo ou uma rede pré-existente? 2) Os protestos públicos costumam medir seu sucesso com base em quanto são capazes de perturbar as economias urbanas”. Pode dar alguns exemplos desse tipo de perturbação? De que modo os dissidentes poderiam perturbar as economias urbanas de modo mais eficaz?
Há muitos exemplos históricos. Nos anos 1960, por exemplo, em muitas cidades dos Estados Unidos, as agitações provocaram grandes incômodos aos negócios. Políticos e empresários reagiram rapidamente em razão do nível das perturbações e da destruição. Cito, no livro, as manifestações de trabalhadores migrantes na primavera de 2006. Os protestos foram uma resposta à tentativa, feita pelo Congresso, de criminalizar os imigrantes clandestinos. As pessoas mobilizaram-se em cidades como Los Angeles e Chicago, e perturbaram significativamente os negócios da cidade. É possível também adotar a ideia da greve – geralmente dirigida contra uma determinada empresa ou organização – e transferir suas táticas e estratégias para os centros das cidades. Em vez de fazer greve contra uma empresa ou uma atividade ou comércio específicos, as pessoas podem dirigir essas ações para inteiras áreas urbanas.
E existem também eventos como a Comuna de Paris e a greve geral em Seattle de 1919, ou ainda a revolta do Cordobazo em Córdoba, Argentina, 1969. Não é preciso criar um movimento revolucionário do dia para a noite. As coisas podem acontecer gradualmente, por meio de reformas. Há um exemplo interessante de Orçamento Participativo, que começou em em Porto Alegre (Brasil), mas continuou em algumas cidades europeias. As populações debatem como o dinheiro deve ser gasto. Fazem assembleias populares que decidem como usar os fundos e os serviços públicos. É uma grande ideia. Envolve o público e faz com que as pessoas participem. As decisões não são mais tomadas pelas prefeituras, pelos burocratas a portas fechadas. Estão abertas ao debate público. Assim, de um lado, há intervenções rápidas sob a forma de greves e interrupções. Do outro, um processo de reforma que ocorre por meio de assembleias democráticas, etc.
No capítulo 5, você escreve: “Na tradição marxista, as lutas urbanas são muitas vezes ignoradas ou pouco valorizadas, porque não têm potencial ou importância revolucionária. Quando uma luta urbana adquire um status revolucionário emblemático, como durante a Comuna de Paris em 1871, ela é descrita, primeiro por Marx, e com ainda mais veemência por Lenin, como revolta proletária, e não como movimento revolucionário muito mais complicado, estimulado tanto pelo desejo de recuperar a cidade da apropriação burguesa quanto pela desejada liberação dos operários da dura opressão de classe nos locais de trabalho. Dou importância simbólica ao fato de que as duas primeiras decisões da Comuna de Paris tenham sido abolir o trabalho noturno nas padarias – uma questão trabalhista – e impor uma moratória aos aluguéis – uma questão urbana”. Pode falar da prioridade dos trabalhadores industriais na ideologia marxista? Como podemos começar a conceituar de modo novo o proletariado?
É uma longa história. A tendência, nos ambientes marxistas – e não só neles, mas na esquerda em geral –, é dar prioridade ao trabalhador industrial. A ideia de uma luta de vanguarda que leve a uma nova sociedade vigorou por algum tempo. Muito disso deriva, é claro, do volume I de “O Capital” de Marx, que dá ênfase ao operário de fábrica. A ideia de que o partido de vanguarda dos trabalhadores nos levará à nova Terra Prometida da sociedade anticapitalista, digamos “comunista”, dura há mais de um século. Sempre achei que fosse uma concepção muito restrita do que é o proletariado e do que é a “vanguarda”. Além disso, sempre estive interessado na dinâmica da luta de classes e na sua relação com os movimentos sociais urbanos.
Para mim, os movimentos sociais urbanos são muito mais complicados. Ocupam um vasto leque, que parte das organizações de bairro burguesas, dedicadas a uma política de exclusão, e vai até a luta de inquilinos contra proprietários, em razão das práticas de exploração. Quando examinamos o amplo espectro dos movimentos sociais urbanos, descobrimos que alguns são anticapitalistas e outros, o contrário.
Mas é preciso fazer a mesma observação quanto a algumas formas de sindicalismo tradicional. Alguns sindicatos consideram a organização como um modo de favorecer os trabalhadores já privilegiados na sociedade. Essa ideia certamente não me agrada. Há outros que buscam criar um mundo mais justo e equitativo.
Examinemos as formas de organização de Antonio Gramsci. Ele estava muito interessado nos conselhos de fábrica. Seguia a linha marxista segundo a qual a organização de fábrica é crucial na luta. Mas, além disso, exortava as pessoas a organizarem-se nos bairros. Segundo seu pensamento, elas podiam alcançar uma situação melhor para toda a classe operária e não apenas para a que se organizava nas fábricas. Isso incluía os desempregados, os trabalhadores precários e todos os que você citou que não trabalhavam nos setores industriais tradicionais. Gramsci propunha que esses dois tipos de organização se entrelaçassem para representar realmente o proletariado. Em síntese, meu pensamento reflete o dele.
A meu ver, deveríamos abandonar a ideia de que o operário de fábrica será a vanguarda do proletariado e começar a considerar os trabalhadores empenhados na produção e reprodução da vida urbana como a nova vanguarda. Isso inclui trabalhadores domésticos, taxistas, vendedores, muitas outras classes e pobres. Acho que podemos construir movimentos políticos que operem de modo totalmente diferente em relação ao passado. Vejo isso em cidades do mundo todo, desde as cidades bolivianas até Buenos Aires. Combinando o trabalho dos ativistas urbanos ao daqueles que trabalham nas fábricas, começamos a desenvolver um estilo completamente diferente de agitação pública.
Pode falar sobre uma dessas cidades, como El Alto (Bolívia)?
Li tudo o que pude sobre El Alto (Bolívia), e o que mais me fascina são as formas de organização que se criaram. Havia um forte sindicato de professores à frente do movimento. Mas havia também muitos ex-sindicalistas que estavam nas minas de estanho e ficaram desempregados na década de 1980, anos do ajuste neoliberal. Essas pessoas acabaram indo viver na cidade de El Alto, onde há uma tradição política de ativismo socialista. Militavam num movimento sindical onde havia principalmente trotskistas, o que é significativo.
Entretanto, as organizações mais importantes eram as de bairro. Além disso, havia uma assembleia geral das organizações de bairro chamada Federación de Organizaciones Barriales. Havia, por exemplo, organizações de vendedores ambulantes, além de trabalhadores do transporte. Esses diferentes grupos reuniam-se com bastante regularidade. O interessante da dinâmica deles é que não tinham a mesma opinião sobre todos as questões. Que sentido teria ir a uma reunião em que todos estão de acordo? Participavam das reuniões para garantir que seus interesses não fossem prejudicados. É o que acontece quando há debates acesos e discurso político: progresso. Assim, o ativismo das federações de bairro nasceu a partir de métodos de organização muito competitivos. Em seguida, quando a polícia e o exército começaram a assassinar as pessoas na rua, houve uma manifestação imediata de solidariedade entre os grupos que tinham se formado na cidade. Fecharam a cidade e interditaram as ruas. Os habitantes de La Paz não podiam receber bens e serviços porque três das ruas principais da cidade passavam diretamente por El Alto, que tinha sido fechada pelas organizações.
Isso foi feito em 2003 e o resultado foi a derrubada do presidente. Em 2005 derrubaram o presidente seguinte. E enfim chegou Evo Morales. Todos esses elementos se uniram e se organizaram de modo eficaz para os pobres e para a classe operária na Bolívia. Foi dali que tirei o título de meu livro, Cidades Rebeldes. Literalmente, El Alto tornou-se uma cidade revolucionária em poucos anos. É fascinante estudar e observar as formas de organização na Bolívia. Não digo que este seja “o modelo” que todos devem copiar, mas é um bom exemplo a ser observado e estudado.
Você fala de um filme muito especial, O sal da terra. O que ele pode nos ensinar sobre a luta?
Bem, assisti ao filme [“Salt of the Earth”, dirigido por Herbet J. Biberman, 1954, pode ser assistido integralmente em http://www.youtube.com/watch?v=v9fcEkxbmc8Nota da Tradutora] pela primeira vez há muito tempo. Mas sempre gostei de pensar nele. Quando me sentei para escrever este livro, eu o vi novamente e, depois, mais algumas vezes. É uma história muito humana. É a maravilhosa história de uma mina de zinco, baseada em fatos reais, escrita por pessoas que haviam sido banidas de Hollywood por suas tendências comunistas. É um grande filme em que classe, raça e gênero unem-se para formar uma grande história.
Há um momento singelo no filme: os rapazes não podem mais fazer piquetes em razão da lei Taft-Hartley, e então as mulheres os substituem, já que nada as impede. E os homens precisam, então, cuidar dos afazeres domésticos. É interessante notar que eles passam imediatamente a entender por que as mulheres lhes pediam que exigissem dos patrões água corrente e outras coisas que tornassem o cotidiano mais fácil. Com rapidez, e de modo natural, os homens descobrem como é difícil ficar em casa o dia inteiro. Isso reúne questões de gênero que são, ainda hoje, importantes. E aborda a solidariedade para além das fronteiras étnicas, hoje cruciais. O filme presta um grande serviço ao ressaltar tudo isso de modo não didático. Sempre gostei, então achei oportuno recordá-lo nas páginas de Cidades Rebeldes.
Alguma palavra de despedida para quem lê ou escuta essa entrevista?

Infelizmente não sou organizador, sou analista dos limites do capital e de como conceituar pontos de vista alternativos para a sociedade. Ganhei muita força, motivação e ideias daqueles que estão concretamente envolvidos todos os dias nas lutas. Participo e, se puder, ajudo. O conselho que dou a todos é ir para as ruas o mais possível, enfrentar a desigualdade social e a degradação ambiental, pois esses problemas estão cada vez mais presentes. Gostaria que as pessoas se tornassem ativas, avançassem. Esse momento é crucial. O grande capital não cedeu em nada até agora. Precisamos produzir um impulso enorme se quisermos ver algo diferente em nossa sociedade. Precisamos criar mecanismos e formas de organização que reflitam as necessidades e os desejos da sociedade como um todo, e não apenas de uma classe privilegiada e oligárquica.
* Entrevista feita por Vince Emanuele para a “Veterans Radio Unplugged”, transmissão que vai ao ar todos os domingos em Michigan City (EUA). Vince é também membro da organização Veteranos pela Paz e faz parte do conselho de administração do Veteranos do Iraque contra a Guerra. A entrevista, transcrita e publicada pelo Znet, um dos principais sites alternativos dos Estados Unidos. Publicamos a tradução, para o português, da versão em italiano.
Confira em nossa livraria algumas obras do autor em promoção.
rodapé-posts-margem

David Harvey: O marxista que quer reinventar as cidades (I)


Entrevista a Vince Emanuele | Tradução: Sônia Scala Padalino
Se vivemos em cidades que nos infernizam e aprisionam, qual a causa de sua desumanidade? E, mais importante: que caminhos permitirão transformá-las? As respostas, para esta questão crucial, raramente coincidem. Às vezes, são genéricas demais e paralisam: núcleos urbanos insuportáveis seriam consequência necessária de um sistema que coloca o lucro acima dos seres humanos. Só o fim do capitalismo abriria espaço para novas cidades. Em outros casos, as respostas são muito pouco ambiciosas. Diante de adversários poderosíssimos – o poder econômico e uma política institucional cada vez mais impermeável às aspirações sociais – deveríamos nos concentrar em humanizar espaços restritos. Uma bairro, uma praça, uma horta comunitária.
Acaba de percorrer três cidades brasileiras – Rio, Florianópolis e São Paulo – David Harvey, um pensador que busca, há décadas, soluções para este impasse. Geógrafo, Harvey é também marxista. Para ele, portanto, o degradação das cidades está associada ao capitalismo.
topo-posts-margem
Mas este britânico de 77 anos não se satisfaz com conclusões fáceis. Seu desafio intelectual tem sido, desde que se dedicou ao estudo da urbanização, localizar os mecanismos precisos por meio dos quais as relações capitalistas deterioram a cidade. Harvey sabe que identificar tais mecanismos ajudará a revertê-los; ao passo que repetir chavões poderá, no máximo, satisfazer egos.
Sua investigação o tem levado a conclusões importantes. Por trás de movimentos aparentemente contraditórios – em certos momentos, o centro das metrópoles esvazia-se, para se supervalorizar e aburguesar, no período seguinte –, há necessidades específicas relacionadas à acumulação de capital. Nos EUA, por exemplo, os centros foram abandonados a partir da década de 1950 (morar em Manhattan era baratíssimo…), quando esgotou-se o esforço de guerra e o sistema precisou realocar recursos na indústria automobilística, abertura de estradas e construção imobiliária intensa nos subúrbios. Trinta anos depois, uma nova supremacia (a dos mercados financeiros) estimulou uma volta às Velhas Cidades. Na primeira fase, agrediu-se a natureza. Na segunda, expulsaram-se os pobres…
Em certos momentos, prossegue Harvey, torna-se possível romper esta lógica. Para o geógrafo, a Comuna de Paris (1871) não foi apenas uma tentativa de expropriar a burguesia, mas a busca de “uma nova vida cotidiana, em reação ao desenvolvimento especulativo e consumista da classe alta”. Mas não é preciso esperar por estas rupturas, para começar a reinventar a cidade.
Harvey sabe que “o replanejamento é algo de longo prazo”. Por isso, valoriza também processos aparentemente menos radicais. Por exemplo, a invenção dos Orçamentos Participativos, que foram mantidos em Porto Alegre por cerca de dez anos, na virada do século. O decisivo é negar a lógica que reduz a cidade a um mero território de valorização capitalista e começar a fazer perguntas: “Como deve ser nossa relação com a natureza? Que tipo de urbanização queremos”?
Em sua passagem pelo Brasil, David Harvey fez palestras e lançou a primeira versão em português de uma obra antiga: “Os limites do capital”, publicado em 1982. A entrevista a seguir foi feita há alguns meses, por uma rádio alternativa dos EUA (“Veterans’ Unplugged”) e debate uma obra mais recente: “Rebel Cities” (2012), ainda sem tradução em português (embora tenha inspirado a coletânea brasileira “Cidades Rebeldes”, sobre os protestos de junho). É abordando este tipo de mobilização, aliás, que o geógrafo encerra sua conversa. “O conselho que dou a todos é ir para as ruas o mais possível, enfrentar a desigualdade social e a degradação ambiental. (…) Gostaria que as pessoas se tornassem ativas, avançassem. Esse momento é crucial. O grande capital não cedeu em nada até agora. Precisamos produzir um impulso enorme se quisermos ver algo diferente em nossa sociedade”.
Por sua extensão (quase um ensaio), a entrevista será publicada, por “Outras Palavras” em duas partes. Boa leitura! (A.M.)
No prefácio de Cidades Rebeldes, você descreve sua experiência em Paris nos anos 1970: “Edifícios gigantescos, ruas, construções da administração pública desprovidas de alma; mercantilização monopolizada das ruas que ameaçavam anular a velha Paris… O que era velho não podia durar”. Além disso, em 1967, Henri Lefèbvre escreveu seu ensaio fundamental, O direito à cidade [publicado em português pela Saraiva]. Pode nos falar sobre o período?
O mundo inteiro considera os anos 1960, como um período de crise urbana. Nos Estados Unidos, por exemplo, muitas cidades importantes se incendiaram. Houve revoltas e revoluções em Los Angeles, Detroit e, depois do assassinato de Martin Luther King em 1968, aproximadamente 120 cidades daquele país viveram inquietações sociais e ações rebeldes mais ou menos maciças. Ocorre que as cidades estavam modernizando-se, com base no automóvel e nas zonas residenciais. A Velha Cidade, aquilo que fora o centro político, econômico e cultural durantes os anos 40 e 50, estava desaparecendo.
Essa era a tendência em todo o mundo capitalista avançado, não apenas nos EUA. Havia sérios problemas na Grã-Bretanha e na França, onde um antigo modo de vida estava sendo desmantelado – um modo de vida do qual, acredito, ninguém devia ter saudades. Esse velho modo de vida foi descartado e substituído por um novo, baseado na comercialização, propriedade, especulação imobiliária, construção de estradas, automóveis, suburbanização. Com todas essas mudanças, houve um aumento da desigualdade e das tensões sociais.
A depender do lugar em que estivéssemos, a desigualdade ou era de classe, ou se concentrava em minorias específicas. Nos EUA, é claro que a comunidade afro-americana tinha as menores oportunidades de trabalho e menos recursos. Se olharmos para trás, veremos que havia programas governamentais na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos para tentar enfrentar a “crise urbana”, sempre do mesmo modo. É fascinante estudar essa questão, mas traumático vivê-la como experiência. A crise dos anos 60 foi crucial, e acredito que Lefèbvre tenha compreendido isso muito bem. Ele acreditava que os moradores deviam ter voz ativa nas decisões sobre como as áreas deviam ser, o tipo de urbanização que devia ser adotado. Ao mesmo tempo, os que resistiam queriam inverter a maré da especulação imobiliária que começava a absorver as áreas urbanas em todos os países capitalistas industrializados.
Você escreveu, no primeiro capítulo: “A questão de que tipo de cidade queremos não pode ser separada da questão de que tipo de pessoas queremos ser, quais relações sociais procuramos, que relação temos com a natureza, que estilo de vida desejamos e quais valores estéticos temos”. Mais à frente, você cita a Comuna de Paris como evento histórico que deve ser analisado, pois talvez nos ajude a conceituar o que é o “direito à cidade”. Existem outros exemplos históricos, além deste, sobre os quais podemos refletir? Que desafios temos pela frente, especialmente no contexto neoliberal?
Penso que a ideia de que a cidade que queremos construir deva refletir nossos desejos e exigências pessoais é muito importante. Quem vive num lugar como Nova York precisa se deslocar pela cidade, precisa se relacionar com os outros de um modo bem específico. Como todos sabem, os nova-iorquinos tendem a ser frios e ríspidos. Isso não significa que não se ajudem uns aos outros, mas, para enfrentar a rotina cotidiana e a enorme quantidade de pessoas nas ruas e no metrô, você precisa negociar com a cidade de certa maneira. Da mesma forma, viver em zonas residenciais privadas leva a outros modos de pensar como deveria ser a vida cotidiana. Estas coisas evoluem para posições políticas diferentes, que quase sempre implicam a manutenção de certas urbanizações privadas e exclusivas, à custa do que se passa na periferia. Essas posições sociais e políticas são fruto do tipo de contexto que criamos.
Para mim, esse é um conceito muito importante: as respostas revolucionárias ao ambiente urbano têm muitos precedentes históricos. Por exemplo, em Paris, em 1871, as pessoas queriam um tipo diferente de urbanização; queriam que um tipo diferente de gente vivesse ali. Era uma reação ao desenvolvimento especulativo e consumista da classe alta. A revolta que exigia um tipo diferente de relações sociais, de gênero e de classe.
Poderíamos citar muitos outros exemplos, como a greve geral de Seattle, em 1919. O povo assumiu o controle da cidade e criou estruturas comunitárias. Em Buenos Aires, em 2001, aconteceu a mesma coisa. Em El Alto, na Bolívia, em 2003, houve outro tipo de revolta. Na França, vimos as áreas suburbanas dissolverem-se em tumultos e movimentos revolucionários ao longo dos últimos vinte anos. Ora, os movimentos revolucionários nas áreas urbanas desenvolvem-se lentamente. Não é possível mudar a cidade inteira em uma noite. Para mim, portanto, o replanejamento de uma cidade é um projeto de longo prazo.
O que vemos, porém, é uma transformação do estilo de urbanização no período neoliberal. A resposta a muitos dos protestos de que falamos foi replanejar as cidades segundo os princípios neoliberais de autossuficiência, e traduzir a responsabilidade pessoal, a concorrência e a fragmentação da cidade em urbanizações privadas e espaços privilegiados. Por sorte, as pessoas são obrigadas a pensar em algum tipo de transformação revolucionária em determinados momentos – como em Buenos Aires, em 2001. Eclodiram movimentos que levaram à ocupação de fábricas e à realização de assembleias. Eles foram capazes de ditar o modo em que se devia organizar a cidade e começaram a fazer sérias perguntas: quem queremos ser? Como deve ser nossa relação com a natureza? Que tipo de urbanização queremos?
Pode explicar melhor alguns destes termos? Por exemplo, é possível ver a suburbanização como resultado de “um modo de absorver o excedente de produtos e resolver o problema da absorção da excedência de capital”? Em outras palavras, por que nossas cidades foram esvaziadas desse modo específico?
Este também é um processo longo, infinito. Voltemos aos anos 30 e à Grande Depressão. Como conseguimos sair dela? Um dos grandes problemas, reconhecidos por todos, era não haver um mercado forte. A capacidade produtiva estava lá, mas não havia como absorver o fluxo dos produtos. Havia, portanto, um capital excedente que não tinha para onde ir. Fizeram-se tentativas frenéticas para encontrar um modo de gastar o capital em excesso. Houve coisas como o programa de obras de Roosevelt para a construção de autoestradas, que tentavam absorver especialmente o excedente de capital e de mão de obra existentes.
Mas só se encontrou uma solução real com a chegada da II Guerra Mundial. Todo o excedente foi, então, imediatamente absorvido pelo esforço bélico – na produção de armas, munições e todo o resto. A guerra pareceu, de início, resolver o problema da Grande Depressão. Mas a essa altura, surgiu a pergunta sobre o pós-guerra: o que iria acontecer quando ela acabasse? O que iria acontecer com todo o capital excedente?
Aqui começa a suburbanização dos Estados Unidos. A construção de zonas residenciais – naquele momento tratava-se da construção de zonas ricas – absorveu o excedente de capital. Inicialmente, construíram o sistema de autoestradas e todos passaram a precisar de um automóvel, pois a casa de periferia tornou-se uma espécie de “castelo” para a classe trabalhadora. Tudo isso aconteceu deixando de lado as comunidades empobrecidas dos centros urbanos. Foi esse o modelo de urbanização dos anos 1950 e 60.
No período posterior aos anos 70 acontece o inverso: o centro da cidade torna-se extremamente rico. De lugar com preços baixos nos anos 70, Manhattan passou a ser um vasto complexo privado para gente muito rica e poderosa. Nesse meio tempo, as comunidades empobrecidas – minorias, em geral – foram expulsas para a periferia. As pessoas fugiram de Nova York para as pequenas cidades do norte do estado ou para a Pensilvânia.
O modelo geral de urbanização está relacionado com a questão de onde se encontram as oportunidades rentáveis para investir o capital. Como sabemos, as oportunidades rentáveis foram poucas nos últimos 15 anos mais ou menos. Durante esse tempo, rios de dinheiro entraram no mercado imobiliário para a construção de casas. Depois vimos o que aconteceu na primavera de 2008, quando a bolha imobiliária explodiu. Por isso, precisamos considerar a urbanização como produto da busca de meios para absorver a produtividade e a produção crescentes de uma sociedade capitalista muito dinâmica, que precisa crescer numa taxa 3% para sobreviver.
Agora, você cita o crescimento explosivo do PIB na Turquia e em várias partes da Ásia. Cita também um paradoxo da China: houve um processo enorme de urbanização nos últimos vinte anos, mas os mesmos projetos industriais que produzem lucros enormes deslocaram milhões e destruíram o ambiente natural. Cidades inteiras estão completamente vazias, já que apenas uma pequena porcentagem da população pode se permitir luxo e conforto. Pode falar destes fenômenos e contradições?
Bem, a China está agindo do mesmo modo que os Estados Unidos, quando lançaram a suburbanização após a segunda guerra. Acho que quando os chineses precisaram decidir o que fazer – principalmente dentro de uma recessão econômica global e diante dos lucros muito lentos de 2007-08 –, resolveram enfrentar as dificuldades econômicas por meio da urbanização e dos programas de infraestrutura: trens de alta velocidade, autoestradas, arranha-céus, etc. Esse foi o meio de absorver o excedente de capital. É claro que todos os que forneceram matérias-primas à China deram-se muito bem: a demanda chinesa foi muito alta. Ela absorve metade do fornecimento mundial de aço.
A aparência do mundo muda muito conforme o lugar em que estamos. Acabo de ir a Istambul (Turquia), e vi guindastes de construção civil por toda a parte. O país cresce 7% ao ano e é hoje muito dinâmico. Quando se está lá, não é possível imaginar que o resto do mundo esteja em crise. Depois, com um voo de duas horas e meia, cheguei a Atenas (Grécia), e nem preciso dizer o que está acontecendo por lá. É como entrar numa zona de calamidade pública, onde tudo está parado. As lojas estão fechadas, não há construções em lugar nenhum da cidade. A distância entre as duas cidades é de menos de mil quilômetros, mas são dois lugares completamente diferentes. É isso que podemos esperar da economia global de hoje: alguns lugares em pleno boom e outros que vão à falência. As crises econômicas têm sempre um desenvolvimento geográfico desigual. É fascinante contar essa história.
No capítulo 2, “As raízes urbanas da crise”, você aborda a relação entre crise econômica nos Estados Unidos, casa própria e direitos de propriedade individual que são componentes ideológicos importantes do “sonho americano”. Mas logo avisa que esses “valores culturais” adquirem certa importância quando são subvencionados por políticas públicas. Que políticas são essas?
Bem, nos anos 1930, menos de 40% dos americanos tinha casa própria – ou seja, 60% da população pagava aluguel, principalmente pessoas empobrecidas ou de classe média. Essas populações estavam inquietas. Por isso, nos anos 40 e 50 ganhou força a ideia de que era possível estabilizá-las e torná-las favoráveis ao capitalismo dando-lhes a oportunidade de adquirir casa própria. As instituições de poupança e crédito receberam muito apoio. Era lá que as pessoas depositavam suas economias, e estas eram usadas para promover a casa própria das populações de baixa renda. Aconteceu a mesma coisa na Grã Bretanha com a “Building Society”.
Essa tendência teve início, aliás, já por volta de 1890, quando a classe empresarial pensava em como tornar as populações de renda mais baixa estáveis e menos irrequietas. Havia uma frase maravilhosa: “os proprietários de casas não fazem greve”. Lembre-se que as pessoas precisavam contrair dívidas para se tornar proprietárias. E aí está o mecanismo de controle. Esse sistema, porém, foi muito fraco nos anos 20, até que nos anos 30 o governo dos Estados Unidos e as classes empresariais decidiram reforçá-lo. Criaram-se os empréstimos de trinta anos. Mas para que funcionassem era preciso ter, de algum modo, uma garantia. Isso levou à criação de instituições públicas que garantissem as hipotecas.
Ao mesmo tempo, os bancos precisavam encontrar um modo de repassar os empréstimos a terceiros e foi assim que criaram essa organização chamada Fannie Mae. Foi isso que aconteceu naquele período: órgãos públicos usados para favorecer e garantir a propriedade das casas, em particular para as classes média e baixa, o que as desencorajava na hora de fazer greves ou de sair da linha. Estavam endividadas. Estas instituições deslancharam realmente depois da II Guerra Mundial. Houve muita propaganda sobre o “sonho americano” e sobre o que significava ser americano. Permitia-se deduzir, dos impostos, os juros pagos sobre o empréstimo. O Estado subvencionava a propriedade da casa; as instituições públicas promoviam-na.
Já no governo Clinton, em 1995, promoveu-se a casa própria para as minorias. O desenrolar da “crise de subprime” esteve estreitamente ligado ao que o setor privado fazia e também ao que as políticas de governo garantiam. Este é um aspecto crucial da vida americana: 60% da população pagava aluguel, nos anos 1930; mas, entre 2007/08, atingiu-se um pico em que 70% passou a ter casa própria. Isso cria naturalmente um tipo diferente de atmosfera política, na qual a defesa dos direitos e dos valores da propriedade passa a ter grande importância. Surgem os movimentos de bairro com os quais os proprietários tentam manter certas pessoas fora de suas áreas, pois dão-se conta de que poderiam desvalorizar as propriedades. As habitações tornam-se uma forma de poupança para as famílias de classe média e da classe trabalhadora. As pessoas têm acesso a essas poupanças por meio do refinanciamento de suas casas. A casa própria é apresentada, agora, como se fosse o sonho de toda uma vida para os que vivem nos Estados Unidos. Mas, sem dúvida, esse sonho sempre existiu, pelo fato de que, ao conseguir um pouco de terra, pode-se cultivar alguma coisa, conseguir uma vida melhor, etc. Isso fazia parte do sonho dos migrantes. Mas foi transformado na casa própria suburbana, o que não significa ter vacas e frangos no quintal, mas sim estar cercado pelos símbolos do consumismo.
Mais adiante, no mesmo capítulo, você menciona o fato de que devemos ir além de Marx, mas usando suas percepções mais proféticas. De que modo podemos “ir além de Marx”?
Marx é importante porque compreendia profundamente como funciona a acumulação de capital. Percebia que essa máquina de crescimento perpétuo contém muitas contradições internas. Uma das contradições fundamentais das quais fala é entre o “valor de uso” e o “valor de troca”. Vemos com clareza de que modo ela age na situação da casa. Qual é o valor de uso de uma casa? Bem, é uma forma de refúgio, um lugar de privacidade, é onde se pode criar uma família. Podemos citar muitos outros valores de uso.
Mas ela tem também um valor de troca. Lembre-se que quando alguém aluga uma casa, aluga-a com base apenas no que lhe é útil. Mas quando alguém compra uma casa, considera-a como um tipo de poupança e, depois de certo tempo, usa-a como forma de especulação. Como consequência, os preços das casas aumentam. Nesse contexto, o valor de troca passa a dominar o valor de uso. A relação entre o valor de troca e o valor de uso escapa ao controle. Assim, quando o mercado imobiliário explode, repentinamente cinco milhões de pessoas perdem as casas e o valor de uso desaparece. Marx fala dessa importante contradição. Precisamos fazer a seguinte pergunta: o que devemos fazer com a habitação? O que devemos fazer com a saúde? O que estamos fazendo com a educação? Não deveríamos promover o valor de uso da instrução? E por que as necessidades vitais devem ser supridas por meio do sistema do valor de troca? É óbvio que devemos rejeitar o sistema do valor de troca, refém da especulação e dos lucros excessivos. É realmente impressionante quanto somos capazes de comprar produtos e serviços. Essa é uma das contradições que Marx descreveu muito bem.
(continua)
* Entrevista feita por Vince Emanuele para a “Veterans Radio Unplugged”, transmissão que vai ao ar todos os domingos em Michigan City (EUA). Vince é também membro da organização Veteranos pela Paz e faz parte do conselho de administração do Veteranos do Iraque contra a Guerra. A entrevista, transcrita e publicada pelo Znet, um dos principais sites alternativos dos Estados Unidos. Publicamos a tradução, para o português, da versão em italiano.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Enfim, Comissão de Ética dos jornalistas pauta a questão racial na mídia

De Fernando Paulino

Pela primeira vez na história, a Comissão de Ética dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro vai tratar da questão racial na mídia.Na próxima quarta-feira, dia 6, os jornalistas Fátima Lacerda e Fernando Paulino terão que dar explicações perante a Comissão. Motivo: eles são responsáveis pela divulgação de um texto intitulado "Estudante denuncia aula de racismo na UFF”, que descreve a denúncia de uma aluna da disciplina Ação Cultural em Unidades de Informação, do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, que se recusou a fazer uma prova que considerou de conteúdo racista. A denúncia chegou à Coordenadoria Municipal de Promoção de Políticas de Igualdade Racial de Niterói, para análise.
O texto da prova, aplicada pela professora Renata Gouvea Barbatho, foi retirado de um site que chama o deputado federal Jean Willian de pedófilo, diz que o holocausto nunca existiu, desqualifica todos os heróis negros, além de lançar o pastor Marcos Feliciano para a Presidência da República.  Para a Comissão de Ética, os jornalistas foram parciais na divulgação. A Comissão sugeriu que eles optassem por alguma forma de defesa: por escrito ou em uma reunião presencial. Fátima e Fernando escolheram a reunião presencial, considerando que, desta maneira, cria-se uma rara oportunidade de se discutir a questão racial na mídia.
"A Comissão de Ética, historicamente, nunca tratou da questão do racismo na mídia. Então, achamos que devemos debater coletivamente o tema a partir do procedimento ético que a comissão abriu. Não é de hoje que optamos por um Jornalismo de combate às desigualdades e injustiças sociais, em contraponto a essa mídia de mercado, que discrimina o negro, o pobre, a mulher e LGBT”, afirma Fernando Paulino.
Já Fátima Lacerda diz que “nos expor a esse constrangimento é uma questão política que evidencia a necessidade das nossas elites intelectuais aprofundarem o debate sobre o racismo no Brasil, em lugar de banalizarem o que em hipótese alguma pode ser banalizado. Nossas elites intelectuais parece que preferem repreender ou punir aqueles que ousam colocar o dedo nessa dolorosa ferida, que marca a ferro e fogo a sociedade brasileira, ignorando a persistência do racismo e a necessidade de superarmos essa chaga”.
Fátima tem pós-graduação em História da África (Penesb/UFF) e Fernando fez pós-graduação em Relações Étnico-Raciais e Educação, no Cefet-RJ.
A reunião presencial está marcada para as 19h, na sede do sindicato da categoria, na Rua Evaristo da Veiga, 16, 17º andar, na Cinelândia, Centro do Rio.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Elementaryos Luna: Guia pós-instalação


Por Sergio J Dias


Abra o terminal:
Clique no Menu Aplicativos Icones/nav_next.png Ferramentas do sistema Icones/nav_next.png Terminal ou Ctrl + Alt + T do teclado.

Primeira atualização:
sudo apt-get update && sudo apt-get upgrade

Atualizar kernel:
sudo apt-get install linux-generic-lts-raring

Instalar elementary-tweak:
sudo apt-add-repository ppa:versable/elementary-update (enter 2 vezes)
sudo apt-get update
sudo apt-get install elementary-tweaks

Instalar libreoffice e coloca-lo em pt-br
sudo add-apt-repository ppa:libreoffice/ppa
sudo apt-get update
sudo apt-get install libreoffice libreoffice-l10n-pt-br myspell-pt-br


Instalar Flashplayer no Midori
sudo apt-get install flashplugin-installer
sudo ln -s /usr/lib/mozilla/plugins/flashplugin-alternative.so /usr/lib/mozilla/plugins/libflashplayer.so
sudo apt-get install nspluginwrapper
nspluginwrapper -v -a -n -i

 
Instalar zram
sudo add-apt-repository ppa:shnatsel/zram && sudo apt-get update && sudo apt-get install zramswap-enabler -y

Instalar java da Oracle
sudo add-apt-repository ppa:webupd8team/java
sudo apt-get update
sudo apt-get install oracle-java7-installer

Instalar aplicativos essenciais
sudo apt-get install ubuntu-restricted-extras audacious clementine firefox  chromium-browser devede winff k3b libavformat-extra-53 libavcodec-extra-53 tomboy vlc audience etube rar unrar foto gazette faac faad ffmpeg ffmpeg2theora flac icedax id3v2 lame libflac++6 libjpeg-progs libmpeg3-1 mencoder mjpegtools mp3gain mpeg2dec mpeg3-utils mpegdemux mpg123 mpg321 regionset sox uudeview vorbis-tools x264  dconf-tools wingpanel-slim soundconverter  gwenview pinta gimp indicator-synapse gstreamer0.10-ffmpeg gstreamer0.10-plugins-bad gstreamer0.10-plugins-ugly p7zip p7zip-full p7zip-rar vorbis-tools unace-nonfree transmission-gtk


Instalar temas, ícones e wallpapers:
sudo apt-get install elementary-blue-theme elementary-champagne-theme elementary-colors-theme elementary-dark-theme elementary-harvey-theme elementary-lion-theme elementary-milk-theme elementary-plastico-theme elementary-whit-e-theme

sudo apt-get install elementary-elfaenza-icons elementary-emod-icons elementary-enumix-utouch-icons elementary-nitrux-icons elementary-taprevival-icons

sudo apt-get install elementary-wallpaper-collection

Instalar Nuvolaplayer
sudo add-apt-repository ppa:nuvola-player-builders/stable
sudo apt-get update
sudo apt-get install nuvolaplayer 

Instalar FF-MultiConverter
sudo add-apt-repository ppa:ffmulticonverter/stable
sudo apt-get update && sudo apt-get install ffmulticonverter

Ao final:
sudo reboot


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Elementaryos Luna, rapidez e estabilidade

Por Sergio j Dias

O Elementaryos se encaixa entre aquelas pequenas distrôs que se preocuparam em primeiro lugar com o usuário do desktop, na medida em que as distrôs tradicionais têm foco nos servidores, de onde vêm a maior parte de seus lucros. Ao longo da história do GNU/Linux tivemos algumas, deixaram saudade, sem dúvida. Em todas, o desejo de fazer uma distribuição que fizesse do software livre a opção de todas as pessoas, e que tornasse qualquer um de nós, conhecedor das entranhas da programação.

A primeira, no Brasil, que se propôs a enfrentar esta batalha foi o Kurumin. Criada por Carlos Morimoto, administrador do site: Guia do Hardware ela abriu as portas do GNU/Linux para muitos. Era o começo dos anos 2000, em uma trajetória fulgurante o pequeno indiozinho nos abria novas searas da percepção, mas como era de se esperar um projeto tão ambicioso precisava de um grande time e seu solitário empreendedor não conseguiu suportar o caminho.

Na mesma época, surgia o Ubuntu, "o linux para pessoas comuns" apregoava. Surgia com uma proposta inovadora, quanto mais fácil de usar melhor. Em seu começo cobriu um trajeto revolucionário. Se tornou a distrô GNU/Linux mais usada. Pretendia-se com ele superar o Windows, ultrapassar a Microsoft, subir aos céus. Se agigantou. Contudo, seu controlador cedeu a ilusões demais. Quase rompeu com a comunidade e muitos usuários comuns se viram abandonados. Hoje, o Ubuntu busca emplacar o Ubuntu Edge, um sistema operacional voltado para os smartphones. Algo já realizado pelo Firefox OS, no plano do software livre.

Mais recentemente tivemos contato com o Fuduntu. Baseada no Gnome 2.0, fazia da leveza e da usabilidade seus fatores dominantes. Seus gráficos de uso da CPU eram animadores. O seu destino, fazer as grandes distribuições olharem para baixo e ver uma comunidade clamando por um sistema que nos desse rapidez e estabilidade. Não apenas, em seu uso inicial, mas, sobretudo após semanas de atualizações. Seus desenvolvedores fecharam as portas, parecem ter olhado para o lado e visto o Elementaryos Luna e realmente não dava para competir com os caras. Eles vêm com gana e vontade de acertar.

É isso, o Elementaryos, é isso, uma distribuição que seus desenvolvedores estão sequiosos por acertar. Sua rapidez de instintos me emociona e sua robustez me compraz. É uma distrô que vai incomodar, e muito. Ela promete magia, é feita com calma e paciência. Nada de afobamentos e sonhos mirabolantes. Surge da empafia dos desenvolvedores do Ubuntu, que rejeitaram as ideias que propunham. Não há dúvida, se você não usou experimente. Já instalei em todos os computadores aqui de casa e a turma está gostando. Simplicidade e velocidade, foco no usuário, promessas até agora cumpridas. Legal, muito legal. Valeu gente do Elementaryos Luna, adiante!
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.5 Brazil License.