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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Protestos contra ordem racista fazem Secretaria prometer explicações


Fonte: afropress

S. Paulo – A tentativa do comando da Polícia Militar de S. Paulo de abafar o caso da Ordem de Serviço em que a 2ª Companhia do Batalhão de Campinas é orientada a fazer revistas "especialmente em indivíduos de cor parda e negra com idade aparentemente de 18 a 25 anos", alegando ter havido equívoco na redação e designando um porta-voz negro - o Capitão Sérgio Marques - para falar do caso, não pegou.
Indignados com a orientação de caráter racista do comando da PM, lideranças negras procuraram a Secretaria de Segurança Pública na manhã desta quarta-feira (23/01) para pedir explicações ao Secretário Fernando Grella, a quem a Polícia paulista – inclusive a PM – está subordinada.
Segundo o diretor executivo da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos, os líderes foram recebidos pelo Secretário adjunto de Grella, Antonio Carlos da Ponte, a quem foi entregue documento com três reivindicações: 1) levantamento de todos os casos de registro de Boletins de Ocorrência de brancos e negros na Companhia de Campinas; 2) quantos são os casos de anotação de prisões e mortes nestes Boletins; 3) o registro de todos os casos de morte no Estado de S. Paulo, com o perfil étnico das vítimas, idade e sexo, de janeiro de 2011 a dezembro de 2012.
Promessa
De acordo com o Frei, o Secretário Adjunto prometeu encaminhar as questões e já marcou uma reunião aberta no dia 15 de fevereiro, às 15h, no Auditório da Secretaria de Segurança Pública, na Praça Líbero Badaró, 39, térreo, com o compromisso de que será aberta à Imprensa e em que o assunto será tratado: “Nós queremos saber se existem outros Ordens de Serviço semelhantes para todo o Estado”, afirmou David, acrescentando ter saído com a expectativa de que haverá um posicionamento público oficial da Secretaria.
Os líderes presentes à reunião também entregaram ao Adjunto de Grella, documento dirigido ao governador, Geraldo Alckmin, em que destacam que "a Ordem leva-nos a entender que se os policiais cruzarem de carro ou a pé, com um grupo de 3 a 5 brancos entre 18 e 25 anos, não desconfiem deles; se forem pardos ou negros, abordem-nos imediatamente".
"Queremos que a Polícia se liberte da imagem do cidadão/ã Negro/a como sendo bandido/a. Quase 100% dos políticos processados e daqueles que aplicam grandes golpes financeiros contra a nação são indivíduos brancos. Para estes sim, a polícia deveria emitir alertas urgentes. Para nossa tristeza, neste caso são considerados inocentes até que se prove o contrário. A inversão de valores está no conceito de que são “autoridades” e não moram na periferia ou favelas", afirma o texto.
Leia, na íntegra.
Paulo, 23 de janeiro de 2013.
Para: Governador Dr. Geraldo Alckmin
Cc para: SSP Dr. Fernando Grella
Acreditamos que neste novo Brasil que estamos construindo, que deseja ser modelo civilizatório para o mundo, especialmente a partir da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, nenhum governante opta por ser racista ou desumano haja vista a responsabilidade da garantia assegurada pelos Direitos Humanos, tão atual no reconhecimento dos crimes praticados quando da Ditadura no Brasil. A própria ONU mostra-se preocupada com a violência de vários países entre eles, o Brasil e decretou a década do Afrodescendente que vai de 2013 a 2023.
No entanto, em vários setores da sociedade, especialmente órgãos públicos, vários fatos concretos deixam-nos preocupados, como por ex: cobramos do governo do Estado, na ocasião das primeiras ocorrências e até hoje o governo estadual não revelou quanto por cento das mortes pelos ataques do (PCC e da Polícia) foram de indivíduos negros.
Apesar dos protestos de boa parte da sociedade, poucas providências foram e são aplicadas para reeducar os funcionários públicos da segurança e de outros setores, autores isolados de atos discriminatórios ou vítimas do “Consciente Coletivo” que perpassa ao longo da história grande parte da corporação policial e da sociedade.
O “embranquecimento” ocorre para nossa tristeza e decepção na formação de nossos policiais que inconscientemente passam a não se verem como negros e aplicam na abordagem as ordens lhes passadas ao abordarem o negro como ele. Esta falta de formação gera e faz perpetuar a “abordagem racista de pressupor que o negro até que se prove em contrário é considerado um bandido, marginal!”
O novo fato, muito preocupante, refere-se à Ordem de Serviço nº 8 – BPMI – 822/20/12 da região de Campinas emitida pelo Capitão Ubiratan Beneducci, que segue anexo.
A ordem leva-nos a entender que se os policiais cruzarem de carro ou a pé, com um grupo de 3 a 5 brancos entre 18 e 25 anos, não desconfiem deles. Se forem pardos ou negros, abordem-nos imediatamente! Queremos que a Polícia se liberte da imagem do cidadão/ã Negro/a como sendo bandido/a. Quase 100% dos políticos processados e daqueles que aplicam Grandes Golpes financeiros contra a nação são indivíduos brancos. Para estes sim, a polícia deveria emitir alertas urgentes! Para nossa tristeza, neste caso são considerados inocentes até que se prove o contrário. A inversão de valores está no conceito de que são “autoridades” e não moram na periferia ou favelas.
Compreendemos que esta orientação e determinação não é governamental, mas este mesmo governo ao qual apelamos através deste ofício, pode combater com determinação e direito esta medida aplicada por este servidor policial, mal formado e não preparado para suas funções de comando.
Ao final, baseado na lei de transparência nº 12.527 de 18/11/2011, solicitamos ao governador Alckmin:
1) Que nos apresente os dados étnicos das vítimas de abordagens policiais, registradas como “resistência seguida de morte”, e quantos por cento são cidadãos/ãs brancos/as, indiodescendentes, negros/as ou orientais.
2) Apresente-nos o perfil étnico das vítimas dos ataques do PCC e da Polícia do ano de 2006 quando dos primeiros ataques.
3)  Apresente-nos os dados estatísticos daquele batalhão de Campinas sobre abordagens (sem e com mortes), bem como, a percentagem de moradores negros e brancos da área desse batalhão.
4)  Apresente-nos os dados estatísticos dos assassinatos de negros e brancos, no estado de São Paulo nos últimos 12 meses (janeiro de 2011 a janeiro de 2012), com perfil étnico, idade e classe econômica.
Sem mais, confiando em um retorno de nossas solicitações o mais breve possível,
Saudações franciscanas de Paz e Bem!
Frei David Santos, OFM
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