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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O racismo nas manifestações contra os médicos cubanos

 
 Manifestantes do Sindicato dos Médicos do Ceará fizeram ‘corredor polonês’ e ofenderam colegas cubanos Foto:  FolhaPress

Por Sergio J Dias

Aos gritos de "escravos" e "voltem para a senzala".

Imigração europeia e branqueamento
O racismo brasileiro tem como um de seus pilares o "ideal de branqueamento". No século XIX, nos considerávamos uma nação incapaz de se desenvolver pelo "excesso" de negros" que tínhamos em nossa população. Para resolver este e outros "problemas", nossa elite dominante e branca investiu em um processo de imigração que privilegiava a vinda de imigrantes europeus. O objetivo  era dar contornos menos trágicos ao "problema negro". Afinal, se misturássemos um pouco estes imigrantes à população local, não sanearíamos totalmente a questão, mas reduziríamos as consequências de uma realidade que se apresentava tão funesta para os destinos da nação.

Ainda, o mito da democracia racial
Muitos, para negar a existência do racismo brasileiro e reafirmar o mito da democracia racial  escamoteam e omitem esta passagem de nossa história, mas parece que a história insiste em se repetir, e não como farsa, mas como tragédia.
A vinda de médicos cubanos para o Brasil parece ter exposto esta ferida, ainda não cicatrizada. 

Cuba, uma terra de oportunidades
Cuba, uma nação socialista, tem em sua constituição elementos similares à nossa história. Também foi um colônia de exploração, uma enorme "plantation" produtora de cana-de-açúcar e fumo para exportação, e para tanto, fez uso de grande número de população escrava negra e africana. Com a implantação do socialismo, a partir dos anos 1960, esta população foi beneficiada pelos progressos sociais advindos da revolução. Neste país, hoje, tão hostilizado por nossas elites brancas, há negros médicos, engenheiros, professores, em número expressivo. Daí, quando se falava da vinda de médicos cubanos, já esperávamos a chegada de médicos negros.

Imigração negra, um pesadelo para nossas elites brancas
Há 100 anos atrás, juntávamos aos nossos, populações vindas da Europa, e nossa elite maldizia a chegada de japoneses, contudo, considerava tal fato, um mal menor, um leve descompasso. Hoje, vivemos de novo a experiência da imigração, entretanto, com maus presságios, assim avalia nossa elite, ainda branca. São bolivianos, angolanos, haitianos, cubanos, um "mal insanável ", devem estar pensando, "tanto esforço, e agora negros e índios chegam aos borbotões, temos de estancar esta sangria".

O racismo nestas manifestações
É assim que vemos as manifestações contra a vinda de médicos cubanos ao Brasil. Um bando de racistas, descendentes daqueles que modelaram nosso processo social e inventaram a imigração como solução para o "problema negro", portanto, não há do que se chocar quando assistimos tais atitudes. O racismo brasileiro existe. Uma ferida aberta, uma chaga que não cicatriza, um choro perdido nos porões de um tumbeiro.



Ministro condena protesto contra médicos estrangeiros

 Fonte: odia


Houve gritos de 'voltem para a senzala'

 Fortaleza e Brasília - ministro da Saúde, Alexandre Padilha, classificou de “truculência” e “xenofobia” as ofensas que médicos brasileiros  gritaram para os 96 colegas cubanos que saíam da primeira aula do curso preparatório para participar do programa ‘Mais Médicos’, do governo federal. Na segunda-feira à noite, em Fortaleza, manifestantes vestidos de branco chamaram os estrangeiros de “escravos” e repetiram palavras de ordem como “voltem para a senzala”.

 "Emprimeiro lugar, tem muita truculência, muita incitação ao preconceito e à xenofobia. Lamento veementemente a postura de alguns profissionais — porque eu acho que é um grupo isolado — de ter atitudes truculentas, incitar o preconceito, a xenofobia. Participaram de um verdadeiro ‘corredor polonês’ da xenofobia, atacando médicos que vieram de outros países para atender a nossa população”, disse o ministro ontem no Senado.

Padilha foi conversar com o vice-líder do PR na Casa, senador Antônio Carlos Rodrigues (SP) sobre o programa que pretende conceder bolsas de R$ 10 mil a médicos brasileiros e estrangeiros que concordem em atuar em áreas carentes no interior do país e na periferia das grandes cidades. A Medida Provisória que cria o ‘Mais Médicos’ precisa ser aprovada pelo Congresso até novembro.
O ‘corredor polonês’ a que o ministro se referiu aconteceu na Escola de Saúde Pública do Ceará. Os médicos cubanos também foram chamados de “incompetentes”.
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