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domingo, 18 de agosto de 2013

Quando tirei minha negritude do armário: negação, reconhecimento e orgulho


Fonte: medium
Por Higor Faria
Ser negro no Brasil é uma questão que perpassa o tom de pele, o cabelo crespo e os traços (sic) não finos (sic). É uma questão política e de resistência. Fazer parte desse grupo é trazer consigo um processo histórico de escravidão e de um racismo estruturado que resultou em uma população estigmatizada, marginalizada e subjugada. Entender isso — e mais que isso — faz parte da luta diária contra o racismo velado e o explícito.
Contudo, essa consciência não nasce com quem é negro. Na verdade, é mais provável que o indivíduo não tenha contato com esse discurso e esteja vulnerável a reproduzir falas e comportamentos racistas, como anegação da própria etnia. Até meus 14 anos, eu não me identificava como negro, eu não me via como negro e eu não queria ser negro. Apesar de minha origem estar na cara, na pele, no cabelo e nos traços, a fala por mim entoada era de que meu pai – com quem eu nem mantinha proximidade – era branco, logo eu seria um mestiço (ou até moreno, risos). Isso porque, na minha cabeça, eu não queria ser o que quando “não faz merda na entrada, faz na saída”, ou que quando “parado está pensando em roubar, correndo já roubou”, ou que “não sabe qual é o pente que te penteia”, ou que veio “de um povo amaldiçoado” etc.
A figura do negro foi tão explicitamente e sutilmente (como nessas falas acima) negativada que eu não queria fazer parte de um grupo assim. Era vergonhoso. Pensava que quanto menos preto eu fosse, melhor. Maria Aparecido Silva Bento (2002) explica que isso faz parte do processo de hegemonia e opressão do homem branco, pois a branquitude se coloca num patamar de superioridade através do rebaixamento e da estigmatização da negritude. Isto é, quanto mais o preto é inferiorizado, mais o branco é colocado num espaço de ideal de humanidade. Cruel, né? E, por esse e outros motivos, eu entoava a pele clara do meu pai, afinal era a única forma de me afastar do ser negro e estar mais próximo dessa perfeição que se traduzia no homem branco.
Mal sabia eu que o processo de construção da minha identidade e do espaço que ocupo no mundo passa pelo o que afirmo ser e o que a sociedade diz sobre mim — Kabengelê Munanga (2004) fala em identidade autodeclarada e atribuída. Até então, a sociedade me apontava como negro (identidade atribuída), mesmo eu afirmando uma possível mestiçagem (identidade autodeclarada). Mas o racismo não pede licença para verificar sua origem, sua árvore genealógica ou sua quantidade de genes étnicos (Alô, BBC! Alô, G1! Neguinho da Beija-flor não poupado de racismo por ter mais gene europeu). Ele ocorre de supetão de acordo com seu fenótipo – e aos poucos fui percebendo isso e meu lugar como negro.
A partir dos 15 anos, fui me reconhecendo como negro e resolvi desenvolver um blackpower na cabeça e outro na consciência. Parecia que eu tinha ficado mais escuro, mais preto depois dessa decisão. Entre um olhar torto na rua e outros tantos bacús (abordagens policiais nada amigáveis) nas ruas de Brasília, o discurso da mestiçagem e igualdade de Gilberto Freyre foi se desconstruindo mais. Eu não entendia: se todos nós somos iguais, porque sou tratado de forma tão diferente dos meus amigos brancos? Se o tratamento é distinto, se a abordagem é diferenciada, se as oportunidades e obstáculos são relativos a sua etnia… Ora, não há igualdade! Tudo isso é definido pelo olhar do outro sobre a sua identidade negra.
Como sempre quis “incomodar”, meu black cresceu mais e meu discurso era (mesmo que ainda não embasado) mais forte, principalmente no campo visual. Foi aí que tirei minha negritude do armário. E expô-la envolveu sentir orgulho de ser parte de uma população tão e estigmatizada e querer mudar toda a configuração ruim que era atribuída a esse grupo. Ainda não sabia de que forma ocupar meu espaço na sociedade ou como construir meu discurso, mas já me colocava como negro e não aceitava que me embranquecessem – curiosamente, hoje me chamam de moreno com certa frequência, confesso: dá gastura, “ofende” (já dizia o Ilê Aiyê).
Construir minha identidade como homem negro foi complicado. Encontrar quem me apresentasse pensadores e pensamentos para que eu criasse e embasasse meu discurso foi muito difícil, mesmo na universidade – até porque é um espaço hegemonicamente branco, mas essa é outra discussão. Mesmo hoje com um acesso maior, produções mais constantes, espaços para diferentes opiniões e o índice de pessoas que se declararam negras tenha aumentado (IPEA), o conteúdo não chega ao jovem que está se construindo e se posicionando. Muitos ainda passam por um período de negação longo até se reconhecer e, por fim, tirar sua negritude do armário.
Outros negam até hoje, mesmo com a sociedade apontando sua etnia.“Enxerga quem quer!”, alguém poderia argumentar. Não é tão simples assim, pois somos ensinados desde pequenos a não querer ver, a não querer ser, ainda que nos tornem constantes vítimas do racismo. Por vezes, quando não se reconhece a própria negritude, há uma tentativa de aproximação desse suposto ideal de humanidade branco, seja por meio de um discurso genealógico ou por meio de produtos químicos, por exemplo. Não adianta! Haverá sempre um dedo social que irá te apontar como negro e dizer que você é diferente daquilo que tenta ser. Então, assumir sua identidade negra é se valorizar. É valorizar o povo negro. É contribuir para que mais gente se perceba, se identifique, se assuma e se valorize.
Black is beautiful, meu nêgo: há um ilê todinho especial para você que estampa sua negritude na rua!

Higor Faria é preto, publicitário, estuda masculinidade negra e escreve no https://medium.com/@higorfaria
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