Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

domingo, 28 de abril de 2013

O novo velho Mano Brown


Mano-Brown-I
Aos 25 anos de carreira, rapper prepara álbum romântico-político e afirma, em entrevista: “estou menos óbvio, menos personagem, mais natural”
Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai, na Revista Forum | Fotos de Guilherme Perez
“Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música.” Essa é uma das formas pelas quais o líder e vocalista do Racionais MC’s se define hoje, 25 anos depois de o grupo de rap conseguir levar sua mensagem não apenas às periferias de todo o Brasil, mas também a muitos lugares e pessoas que não tinham intimidade com o ritmo.
A mensagem de Brown sempre foi forte e contundente, mas hoje o músico prepara o lançamento de um álbum solo, no qual o soul e o romantismo predominam. Isso não significa, nem de longe, que o seu pensamento tenha se modificado, até porque muito do contexto que propiciou o nascimento do Racionais ainda está presente na realidade brasileira. “Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.”
O músico se refere à chacina que matou sete pessoas na região do Campo Limpo, zona sul paulistana, em 5 de janeiro. Entre as vítimas, DJ Lah, em um primeiro momento tido como autor de um vídeo que denunciava a execução de um comerciante no mesmo local, feita por policiais. A informação foi desmentida depois, mas o espectro de que se tratava de uma vingança paira sobre a população do lugar. E Brown fala sobre as possíveis consequências para quem viu e sentiu a tragédia de perto. “Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.”
Na entrevista a seguir, Mano Brown fala sobre a falta de oportunidades na periferia, do racismo, de um sistema que oprime, mas também ressalta o que ele considera ser o nascimento de um novo Brasil, destacando o papel da nova geração. Assim, ele mesmo tenta se “reinventar” para seguir na luta que sempre foi dele e de muitas outras pessoas. “Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, a juventude precisa de rapidez na informação, não dá pra ficar debatendo a mesma ideia sempre. É fácil para o Brown ficar nessas ideias, fácil, é até covarde ficar jogando mais lenha, então fui buscar as outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.”
Você esteve em uma reunião do pessoal do rap com o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e ali disse que não iria falar sobre cultura, mas sim denunciar que os jovens estavam morrendo na periferia. Recentemente, houve o assassinato do DJ Lah, e mortes violentas de músicos da periferia têm sido muito comuns em São Paulo, na Baixada Santista, por exemplo. Como definir essa situação?
Esses moleques cantam o que eles vivem. Geralmente, quando você chega nas quebradas, têm poucos lugares que são espaços de lazer, e o lugar onde teve a chacina era um ponto de lazer, querendo ou não. Um ponto meio marginal, mas tudo que é nosso é marginal. Era um bar, tinha a sinuca, tinham os amigos, o bate-papo com a família, tem o fluxo, é o centro da quebrada. O barzinho vende de tudo, vende pinga, vende leite, vende tudo, e o Lah gostava de ficar por ali, vários caras gostavam, era o quintal das pessoas.
O que aconteceu ali foi execução, crime de guerra. Tem a guerra e tem os crimes de guerra. As pessoas não estavam esperando por aquilo ali, não estavam preparadas pr’aquilo. É o que tem acontecido neste começo de ano, e aconteceu no final do ano passado, as mortes todas têm o mesmo perfil: moleque pobre em proximidade de favela. Os caras encontram várias fragilidades ali, várias formas de chegar, matar e sair rápido, e o governo simplesmente ignora o que aconteceu. existem as facilidades. O cara vai lá e mata sabendo que não vai ser cobrado.
Mas você acha que, por conta dessas ocorrências, há uma coisa dirigida contra o rap?
Acho que não, se dissesse isso seria até leviano, porque muitas pessoas que morreram não tinham nada a ver com o rap. Gente comum, motoboy, entregador de pizza, moleque que saiu da Febem e estava na rua, com uma passagenzinha primária e morreu… E o rap tá na vida da molecada mesmo, tá nos becos, nas esquinas, no bar, na viela, geralmente o moleque que curte rap tá nesses lugares. É uma coisa dirigida, mas é dirigida à raça. Dirigida a uma classe.
Se você for fazer a conta de quantas pessoas morreram no final do ano, mortes sem explicação, crimes a serem investigados, e somar o tanto de gente que morreu em Santa Maria… Morreu muito mais aqui. Lá foi comoção total pela forma que ocorreu, lógico, todo mundo é ser humano, mas veja a repercussão de um caso e a repercussão de outro caso, quanto tempo demorou pra mídia acordar pra chacina? Quanto tempo demorou pras pessoas perceberem a cor dos mortos? Coisa meio que normal, oito pretos mortos, quatro aqui, três ali… É uma coisa meio cultural, preto, pobre, preso morto já é uma coisa normal. Ninguém faz contas.
E quem está matando nas periferias?
A polícia. O braço armado, conexões armadas, de direita.
Você tem um histórico de estranhamentos com a polícia…
Houve a época em que soava o gongo, a gente saía dando porrada pra todo lado, não olhava nem em quem. Outra época, a gente procurava a polícia pra sair batendo. Hoje em dia, espera pra ver quem vai vir. Não é só a polícia, são vários poderes. A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso. E tem várias formas de matar, de matar o preto.
Da última vez que você deu entrevista à Fórum, há mais de 11 anos, boa parte da conversa foi sobre isso. Você é um ator importante dentro desse cenário, como está atuando para mudar a situação, está fazendo intervenções no governo, conversando com pessoas, ou só se manifestando pela sua arte mesmo?
Se eu disser que não uso meus contatos, estou mentindo. O que tem acontecido traumatizou todo mundo, então ficamos todos aqui com muita raiva, lógico que alguma coisa a gente fez. Mas não posso dizer o quê. Tenho minhas armas, mas não posso expor, parado a gente não ficou.
A partir do momento em que a gente nota realmente que nossa quebrada tem fragilidades, vê as famílias das pessoas com muitas mulheres e poucos homens, homens com pouca liberdade, pouca liberdade de movimento, vida pregressa com problema, pouca mobilidade na sociedade, caras condenados a viver no submundo, você começa a criar um exército na comunidade, de gente que vê aquele entra e sai da cadeia, de homens com vida pregressa que não conseguem mais arranjar emprego. As casas perdem esses caras, que deixam de ser úteis dentro de casa. Você vê a morte do homem da casa, cinco mulheres chorando; as famílias estão num processo que vai demorar, de restauração pra uma vida mais rotineira, mais calma, é uma corrente que tem de quebrar.

Um cenário de guerra, mesmo.
É, não passou a ser guerra agora, depois da chacina, já vivia em guerra. As mães também lamentam os filhos que vão pra vida do crime, perder pra droga… A molecada negra tá muito exposta ao perigo, o salário é baixo, o risco é alto. A sociedade cobra muito, você tem de ter as coisas, tem de estar, tem de ser, tem de aparentar ser… Aparentar ser já custa caro, “ser” é outro estágio. O pessoal acha que é vaidade boba a pessoa gostar de marca, de perfume bom, mas são coisas que ajudam a pessoa a circular, a arrumar um emprego, a arrumar uma gata, tudo melhora. No momento em que no Brasil começa a sobrar um dinheirinho pra categoria, pra raça, o outro lado já começa a cobrar com a vida também. O excesso de gente usufruindo deste novo Brasil… Não pode, é excesso, tem de limpar. Tudo que é moleque de moto… Os excessos que o pessoal começa a reclamar, todo mundo com celular no busão. Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra.
Você entende isso como uma reação da elite?
Uma reação. Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto… Os caras reagiram. O que aconteceu em São Paulo aconteceu no resto do Brasil. Em Alagoas, o índice de negros mortos é muito alto, em Belém do Pará, Goiás…
E você pediu o impeachment do governador Geraldo Alckmin em um evento na Assembleia…
Pedi o impeachment do Alckmin e ele tem de tomar providências. Naquela altura, estava em um estágio em que dava a impressão de que o Alckmin não estava nem aí. As declarações que ele deu foram piorando, chegou num ponto de eu achar que ele não sabia o que estava acontecendo. Era suicídio, como ele vai se eleger a qualquer coisa com esses números de morte?
Muitas vezes, acho a mídia com tanto medo e, de repente, vai um canal de direita, que é a Record, que começou a investigação. A gente conversava e sentia que tinha o medo no ar, eram jornalistas com medo, quando eu vi o [André] Caramante isolando e as pessoas pedindo pra ele não voltar, pensei: “Os caras tão com medo, o governo tá junto”. E as declarações que ele [Alckmin] estava dando mostravam isso, que não ia voltar atrás e era um movimento aprovado pelo povo, o povo estava com ele. Redução da violência, crime organizado, a guerra do PCC, o povo leu isso como uma coisa benéfica pra sociedade, mas estavam morrendo os filhos deles mesmos.
Será que o povo leu isso desse jeito?
Pelo número de PMs que foi eleito, percebo que o povo está se dirigindo a votar dessa forma, tem medo. Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica.

Qual a sua opinião sobre o PCC?
O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir. Aí seria realmente um poder incontestável, e pelo número de mortes que foi reduzido em São Paulo, a gente sabe que muito tem a ver com eles. Já existe o PCC, não precisa fazer nada mais contra a lei. Se é que houve alguma coisa contra a lei… Não seria mais necessário usar contravenção, já existe a autoridade, existe a autoridade instalada, o povo aceitou.
Como você vê a ascensão dos movimentos sociais hoje em São Paulo?
Sou privilegiado de ver acontecer isso, minha geração. Acho digno e muito importante mesmo todos os saraus, as reuniões, os diálogos, todo o movimento de jovens dedicado a isso, a conhecer as causas do Brasil, não só reclamar. É uma geração que não só reclama, que faz, que desce o beco da favela, vai trabalhar, vai bater nas portas. É um novo Brasil, novos médicos, novos advogados, novos pedreiros, novos motoboys, novos motoristas. O que todo mundo bebe, vai ser; o que todo mundo come, vai ser; o que todo mundo respira, vai ser. Daqui a 20 anos, você vai ver o país que está sendo implantado pelo Lula, pela Dilma, pelos Racionais, pelo Bill, pelo Facção Central. Daqui a 20 anos, vai ter um povo que vai ter essa cara.
Fale um pouco mais de sua concepção desse novo Brasil.
Tenho 42 anos, sou fruto daquela geração dos anos 1980, aquela “geração lixo”. “Geração lixo”. Eu sou aquilo, com todos os defeitos e qualidades. Já os nossos filhos, nós que já aprendemos e sofremos um pouquinho mais, vão ser melhorados, mais ligeiros, mais práticos que eu, e não vão rodar tanto em volta do objetivo, vão direto ao foco.
Agora, os meus filhos, a molecada em geral… Ainda temos de lavar a roupa suja. Eu e eles. Não gosto de puxar a orelha dos moleques por revista e nem por entrevista, mas temos roupa suja pra lavar nas favelas, nas vielas, nas ruas, nos palcos, tem muita coisa pra melhorar ainda.
Mas existe um orgulho hoje de quem vive na periferia, ele não se esconde mais. Há marcas que nascem na periferia. 
É o que o judeu fez, o italiano fez, o japonês fez e o preto foi proibido de fazer. Nos dias de hoje, faz, monta time de futebol, loja, grupo de rap. Forma a família, que é onde está o foco nosso, a família, dialogar, organizar… Historicamente foi proibido pra nós, a gente vive correndo, se escondendo, um comportamento de foragido que talvez essa geração não vá ter mais.
Será que esse não é o susto das elites, perceber que daqui a 20 anos o Brasil não vai ser mais esse? 
O Brasil atrasado, os brancos também não querem isso, os brancos ligeiros não querem mais isso. Foi um ganho o branco acordar e o preto acordar também.
“Fim de semana no parque” fez vinte anos agora. Você acha que essa foi a principal mudança nesse período, além do ganho econômico, também a elevação da autoestima?
Começa pela raça, pelo orgulho do que você é, de você ter na sua família a sua raiz. Se você não tem vergonha da sua mãe você vai ouvir mais ela, se você acha sua mãe bonita, seu pai bonito… Eu sou de uma geração em que muitos não tiveram pai, não tive pai, vários amigos não tiveram. Tive de aprender a ser meu pai, o homem da casa sempre fui eu. Isso também fez eu ser quem eu sou, mas acho que seria melhor se tivesse tido um pai. Em várias casas falta um pai. Acho que a periferia vive este momento de fluxo de cadeia, da molecada se envolvendo na criminalidade, perdendo o direito de ir e vir, de oportunidade de emprego por conta de passagem [na polícia], então vai limitando e as famílias vão ficando empobrecidas. Mesmo que o governo faça, vai estar sempre correndo atrás, essa corrente tem de cortar. Dar oportunidade pra molecada – principalmente para os homens –, que não tem como demonstrar nada numa sociedade em que você tem de parecer que é, pelo menos. A molecada não tem oportunidade.
Falando em oportunidade, o que você acha das cotas?
Como tudo que envolve o negro, é polêmico. Agora, se você negar que o Brasil prejudicou a raça negra… [As cotas] não vão resolver o problema, mas dizer que o negro não é merecedor disso é racismo. Historicamente teria de ter, mas, dentro da raça negra, o lance de cotas é tão dividido ou mais que entre os brancos. Se você chegar na inteligência negra, perguntar ali o que acha da cota… Mano, é treta! Você vai ter cara crânio que é contra, vai falar pra ele que tem de ser a favor… É dividido, acho bom ser polêmico. O problema tem de ser debatido, depois faz o acordo, mas de cara tem de conversar.

Qual a sua avaliação do movimento negro no Brasil?
O movimento negro evoluiu muito, tenho muito orgulho de ver como o movimento atua hoje, algumas reuniões em que eu fui, moleques muito inteligentes… Dá vontade de parar de falar e deixar só os moleques falarem. No dia do evento mesmo, antes tinha falado um garoto do movimento negro, ele já tinha falado tudo. Eu nem quis falar muito porque ele já tinha falado tudo. Antigamente, ia nos movimentos e era um debate muito primário, ranço de 300 anos debatido nos anos 1980, nós estamos em 2013 e a molecada já está debatendo outras coisas, outros poderes, não só os visíveis. Já não querem só a roupa de marca, os caras querem poder, os moleques vêm pesado na reivindicação, no direito, na história. São terríveis e estão vindo aí. Tenho orgulho, já foi um movimento confuso, hoje não é mais. É um movimento prático.
Existe uma crítica de que somente o empoderamento econômico não traria consciência social para as pessoas, mas o seu depoimento não diz isso.
Traz. Traz porque o tempo é dinheiro pra todos, inclusive pra classe C. O micro-ondas, o carro que anda melhor vai fazer você chegar com mais conforto em casa, no seu trabalho, você vai ter tempo pra melhorar. Por que é conforto pro rico e pro pobre não? O pobre vai ficar bobo alegre, por quê? É preconceito. O que faz a vida do cara ter conforto, permitir organizar o tempo, poder estudar, trabalhar e cuidar do filho… Daqui a 20 anos, tá ele formado, o filho estudando, se ele não tivesse o carro, com certeza não trabalhava, não estudava, tinha cuidado só do filho. Ele não tinha estudado e era só o filho, não eram duas rendas, era uma. Bem material “aliena o pobre”, porque pobre é alienado, esse é o discurso… O pobre não tem inteligência… Sabedoria do povo é sabedoria do povo, tem de escutar, tem de entender a mensagem.
Você nunca pensou em se envolver com política?
Dá preguiça. Vou ser preso por agressão… Primeira reunião é agressão, é foda, tem de ter sangue frio.
No Rio de Janeiro, o MC Leonardo saiu candidato. Você não acha que o movimento deveria lançar mais candidatos?
Não houve sucessos nas últimas eleições, é a ideia que falei da disputa do cantor de rap, do padre e do policial, foi isso que aconteceu. Houve candidatos com votação inexpressiva. O MC Leonardo pegou o Rio de Janeiro de cabeça pra baixo, tá todo mundo embriagado com a UPP. Ele fez o movimento contrário, eu falei pra ele: “Você vai bater de frente com a UPP? O povo tá do lado. Sua bandeira é essa, então é difícil ganhar”. Deixou de ter excesso, UPP é a contenção dos excessos. Vai ter cocaína em todo lugar, maconha em todo lugar, na farmácia, na padaria você compra, vai ter o funcionário que vende a maconhinha… O problema é o excesso, polícia dando tiro, facção trocando tiro, garoto novo com arma.
Como você chegou no Marighella? Você pegaria em armas por algum desses motivos que falou aqui com a gente?
Pegaria. Não sou mais do que ninguém, mas pegaria. Não vejo por que não pegar, mesmo que eu fosse um mau soldado. Faria de tudo pra ser um bom soldado.
E o Marighella, como você chegou a ele?
Eu tinha ouvido falar do Marighella há alguns anos, alguém disse que a gente era parecido até fisicamente, e é mesmo né, mano? Através da esposa de um rapper, amigo nosso, me falaram que ia sair um filme e o pessoal queria falar comigo, porque tinha tudo a ver, Marighella e Racionais. Aí entrei em contato com o pessoal do filme e peguei a missão de fazer a música.
Você se surpreendeu com a história dele? 
Me identifiquei demais com ele, pra caralho, como pessoa. Gostava de futebol, samba, poesia, mulheres e não tinha medo de morrer, por isso ele é um líder até hoje.
E religião, você tem proximidade com alguma delas?
Minha mãe é seicho-no-iê, comecei a ir para a igreja por influência de amigos, estudei em colégio de ensino adventista, então tenho essa proximidade. Mas nasci dentro do candomblé e convivi com as duas culturas, uma conflitando com a outra. Imagina se eu sou confuso?
O adventista não agride tanto o candomblé ou qualquer outra religião, mas o neopentecostal é mais forte nisso, até porque os integrantes são tudo ex-filhos de santo, a maioria.
As igrejas evangélicas estão cada vez mais presentes nas periferias de São Paulo…
Já foram mais.
Qual a sua opinião sobre algumas lideranças religiosas, alguns pastores que estão enriquecendo? 
O povo tá injuriado com esse duplo sentido deles, essa dúvida sobre a honestidade que deixam no ar. E outra, tá meio neutralizado esse avanço, o povo fica de olho nessa dúvida que eles deixam.
E o que mudou?
O que mudou é esse monte de escândalos em que eles se envolvem. “Ah, o cara é representante de Jesus”, mas quem deu esse direito a ele? “Ah, Jesus falou…”. Então tá, falou pra ele e por que não falou pra mim?
Eles nunca tentaram chegar em você?
Não. Eles xingam os Racionais na TV, mas sem saber. Vou na igreja, gosto da ideia e da fé. Gosto de ajudar, de descer a favela, ir na cadeira, sou devoto dessa ideia, seja do candomblé, do evangélico ou do comunista, o cara que coloca em prática o que Jesus falou.

Você falou de pegar em armas. Na periferia já não existem grupos de garotos falando em reagir, vingar essas chacinas?
Essa resposta você vai ver em sete ou oito anos. Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.
O governador Geraldo Alckmin, na sua opinião, está pecando por omissão ou é conivente com essa situação?
Peca por negligência, peca por prevaricação, por não executar a lei.
Uns dois anos atrás, você disse que queria mudar sua imagem, que estava ficando “mapeada e óbvia”. Você mudou? Quem é o novo Brown?
O novo Brown não existe, porque esse termo “imagem” não existe, imagem é nada. Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música. Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.
Você sempre teve uma visão crítica da mídia. O que acha dela hoje?
Ando muito chateado com a mídia por conta da chacina do final do ano. Dá para ver quem são os mais contestadores, eles são mais jovens e não têm forças. Os mais velhos têm espaço, mas são conservadores. Quem é da mídia e queria falar estava amarrado, e quem poderia falar fechou com a polícia, meio que concordando, entendendo mais a polícia do que a gente. Ontem (6 de fevereiro), em outra chacina em Guarulhos, mataram três irmãos nossos, filhos da mesma mulher, que já não tinham pai. Típico. A mulher de 40 perde os filhos de 15, 18 e 21 porque um polícia morreu na quebrada deles e mataram cinco para vingar.
A chacina em que morreu o Lah realmente marcou você…
Muito, mano. Eu estava acompanhando antes daquilo, na véspera da eleição eu falei, em novembro; avisei de novo, aí depois vem essa chacina… Foi uma ação suicida, deram tiro com a bala da delegacia, foi como se dissesse assim: “Governador, você não é homem, o Estado não existe. Brasil, você é uma merda. Vem me pegar se vocês quiserem, matei sete pessoas no bar, com arma da polícia, e não vai dar em nada”. Deixou o recado. Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê? ONU? Unicef? Qual a justificativa para tantas mortes? Não estamos em guerra. Queria saber como a Dilma lidou com isso.
Sua relação com o Lula sempre foi forte.
É uma relação de respeito, sem badalação. Desde adolescente, eu votava no Lula, eu era simpatizante do PT, criei empatia. Ele é um cara honesto, gosto do Lula.
E você ainda tem simpatia pelo PT?
Tenho. O PT, com todos os defeitos, ainda é a única coisa que a gente tem para lutar contra o PSDB, o partido do Alckmin, do Serra, da polícia tal, do delegado tal.
Olhando para trás, após 25 anos de Racionais, você consegue identificar por que os Racionais ficaram tão grandes?
Porque o povo é muito grande. De cara, eu e o KL Jay, a gente trabalhava juntos, e falávamos que a periferia é a maioria absoluta e não tinha para ninguém. Se eles vierem com a gente, tá feito. O rap é a única coisa que sabia [fazer] e acredito nele até hoje.
Quantos discos o Racionais vendeu?
Não tenho ideia, uns 2 ou 3 milhões.
O que você pensa da pirataria?
Ótimo. Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom.
Seu disco novo vai vir mais romântico mesmo? Você sempre falou de sua admiração por Marvin Gaye e Barry White, está se inspirando neles?
Continuo sendo o mesmo cara, interessado pelas coisas políticas do Brasil, pelo povo. Musicalmente, sempre gostei de música romântica, do Jorge Ben, Djavan, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho… Hoje em dia, as pessoas esperam do Brown aquele posicionamento combativo, de luta e guerra, mas aí é um personagem também, né? O Brown é um cara atuante, que tá buscando na vida novidade, força, inspiração, razões, buscando pessoas… É o que eu mais busco: pessoas. Quando as pessoas viram as costas e saem andando, você tem de saber por quê. Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, não voltar ao zero toda hora. A juventude precisa de rapidez, mobilidade de ideias, não dá pra ficar na mesma ideia todo dia. Seria uma atitude até covarde, fácil, ficar jogando mais lenha na fogueira. Então, você tem de buscar outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.
E essas novas ideias…
Passam pela raça, todas as ideias. Mas nenhuma ideia é desprezível.
Você gosta de polêmicas, Brown?
O Brown está como sempre, velho e chato. Atuante, jamais calado ou inoperante. Tô aqui, ali, gesticulando, trazendo divisão de ideias, porque meu papel é esse também, trazer essas ideias, e tem de saber o que o povo quer também, não é só o que os intelectuais querem. Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir. Que nem quando escolheram o Serra, ficamos aqui, interagindo com as consequências da eleição do Serra [para prefeito, em 2004], encontrei gente na favela que votou nele. Quando a gente erra, o reflexo é violento.
Você falou da eleição de policiais. A base de votos deles está na periferia. 
A base de voto de todo mundo. O público-alvo é a massa, os números estão aqui. Os partidos não conseguem se eleger com conceitos, é com números, com votos dos que não sabem o que estão fazendo e dos que sabem, dos brancos, índios, negros, confusos. Depois, quando estão lá em cima, decidem que direção tomar. Ter candidatos de dentro das comunidades seria bom, mas acho que isso ainda vai demorar um pouco. Do mesmo jeito que o rico se cerca com cerca elétrica, o pobre quer pular.
Apesar de não ter candidato, a comunidade está exercendo um poder de pressão não pela via política, mas pela mobilização. Você vê que as pessoas estão experimentando novas formas de fazer política que não sejam necessariamente pelo voto?
Há quem diga que o povo que votou no Serra queria mudança, o que é uma forma de inteligência. Mas trouxe consequências gravíssimas na relação entre o povo e o poder, acabou o diálogo. Vamos ver o número de homicídios na periferia, não é possível que, por mais que sejam maquiados, que a informação seja negada, alguns excessos como essa chacina… No caso do DJ Lah, foi quando eu vi a revolta realmente, sete pessoas mortas em um lugar onde já tinha morrido um, prometida uma vingança… O povo vê a fragilidade, a opressão, o medo das famílias.
Um povo que não tinha noção de direito, de cidadania nenhuma, não sabe o que representa, o poder que tem, não confia em ninguém e, consequentemente, não respeita ninguém. Não vai respeitar o orelhão, não vai respeitar o ônibus, o que tem cheiro de sistema é alvo de agressões. É o orelhão que o moleque, por ignorância, quebra, até a casa onde ele picha. Então, a relação é entre seres humanos, não entre robôs, o comandante que está ali atrás da farda é um ser humano, o cara que dá a palestra na hora de formar o soldado é um ser humano, tem mulher, tem filhos. O que ele lê, o que assiste na TV, o que ele come, o que sofreu na infância dele pra ter esse comportamento?
Recentemente, você esteve em Nova York e encontrou o Criolo lá. Quando você sai do País, você vai nas periferias? Como você vê o comportamento da juventude nesses locais?
O negro brasileiro é caloroso, e o americano é arredio, é outro comportamento. Fui lá procurar uns contatos de uns negões, uns negros muçulmanos, pesado demais cara, sombria a parada. Os caras ensinando coisas ruins para os negões, ensinando a fazer bomba, vai vendo, vai só piorando, é foda [risos]. O cara coloca na cabeça dos meninos a religião e tira a preguiça do corpo, dão motivo para o cara querer lutar.
O Racionais, de um tempo para cá, tem sido muito ouvido na classe média. Como você lida com isso?
Há quem diga que a classe média é que cresceu muito [risos]. Mas já estava lá. Vejo com respeito, ouço crítica, elogio, converso, é importante ouvir o que eles dizem. Acho da hora que eles venham falar, até pra explicar minhas teorias, há muitos que vão de embalo, mas no caso do Racionais, estamos meio à prova de “embalista”, porque estamos há dez anos sem lançar disco, curte quem gosta mesmo. Não tem “modinha” Racionais.
Como você tem se relacionado com os movimentos culturais, como o Tecnobrega?
Apoio. Conheci a Gaby Amarantos na MTV, mina lutadora, a nossa luta é a mesma, ela como mulher e negra, a luta é duas vezes maior. Eu dialogo com todos, o pancadão, os saraus, a várzea, até a música gospel. Sou envolvido com o começo da música gospel no Capão, não como evangélico, mas como amigo dos caras, eu gostava dos caras e eles gostavam de mim do meu jeito, a cena é forte aqui.
Como é a história daquele diálogo inicial do Vida Loka 1?
A gente correu um certo perigo naquela gravação, porque celular em presídio é proibido, tá ligado? E é passível de punição. Ele estava preso, o disco saiu assim e não pegou nada. Houve uma falha no sistema, que estava meio embriagado de poder e nem viu nada. Naquela época a cadeia estava cheia de celular, e aí, porra, a gravação foi feita daquele jeito, ele lá dentro, falando comigo aqui fora.
E o Santos? Você é um dos torcedores símbolos do Santos.
Não reconhecido, o Santos nunca me chama para nada, eu até conheço o presidente do Santos. Inviabilizei a contratação do Rafael Moura, ah, melei mesmo, contrata a Xuxa também, tá de brincadeira [risos]. Aquela reunião foi treta, aí eu sugeri: “Traz o André aí”. O Santos tá com um complexo de pobreza que eu não compreendo, esse negócio ridículo de colocar vidro no estádio inteiro, não dá pra ouvir as vozes da torcida, diminui a pressão. Os caras ficam batendo nos vidros, ficam parecendo loucos, esse negócio de colocar televisão nos camarotes. O setor Visa é vazio o ano inteiro, eu já perguntei ao presidente pra quem que é bom o marketing da torcida vazia, abre a câmera e o estádio está vazio.
E o Neymar?
O Neymar é sensacional, melhor coisa que aconteceu no Brasil depois da eleição do Lula. Só poderia ter nascido no Santos mesmo, é foda, não cabe em outro time, mano.

Criminalização da pobreza e da juventude

Fonte: adital

O tema da internação compulsória e da redução da maioridade penal está sendo pautado de forma intensiva pelo governo do Estado de São Paulo, desde janeiro desse ano, quando efetivou uma ação conjunta entre o Judiciário e o Executivo, com médicos, juízes e advogados, colocando a internação compulsória com pauta na agenda pública.

Por Sérgio Botton Barcellos

Ao mesmo tempo, na semana passada o governador Geraldo Alckmin esteve pessoalmente durante a sessão que aprovou o Estatuto da Juventude, para também dar entrada junto com outros senadores ao projeto de lei para a redução da maioridade penal, defendendo penas mais rígidas para menores infratores e punições mais severas para os/s jovens que cometerem delitos graves(1).
Nesse embalo os senadores estão dando andamento à tramitação do projeto de lei que trata da internação compulsória de dependentes químicos e traficantes de drogas já presos que sejam viciados. O projeto com relatoria da senadora Ana Amélia (PP-RS), prevê que a decisão do tratamento pode ser imposta ao usuário de droga por decisão judicial. Esse projeto foi aprovado no dia 10 de abril na Comissão de Assuntos Sociais (CAS). A matéria ainda vai tramitar nas comissões de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). O texto aprovado, em forma de substitutivo ao projeto de lei original - PLS 111/2010 - prevê que o juiz, com base em um laudo emitido por comissão técnica, poderá encaminhar os dependentes químicos e traficantes viciados em drogas no território nacional, para tratamento especializado e, se necessário, à internação compulsória.
Observa-se, que nas cidades onde estão ocorrendo às internações compulsórias, em grande parte junto a usuários de Crack e aos/as jovens em condições de pobreza, como Rio e São Paulo estão ocorrendo os preparativos para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Associado a isso há inúmeras denúncias por parte dos movimentos sociais e até da ONU sobre violações dos direitos humanos nessas cidades, pois não estão sendo respeitados o direito à moradia e à cidade, com a remoção de comunidades inteiras para a instalação de perimetrais e obras turísticas descumprindo legislações como, Constituição, Leis Orgânicas municipais, o Estatuto das Cidades e tratados Internacionais dos quais o Brasil é signatário.
Além de não oferecer indenizações ou aluguel social apropriados para as famílias desalojadas se instalarem em um local equivalente ao qual residia, estão sendo oferecidas habitações em conjuntos, distantes muitas vezes até 50 km do local original. Ainda, nessas cidades estão ocorrendo perseguições sistemáticas ao trabalho dos camelôs, a precarização do trabalho nas construções dos estádios e outras infraestruturas, bem como o recolhimento compulsório das pessoas moradoras de rua para abrigos distantes e sem uma estrutura de atendimento apropriada.
Nesse processo de preparação do Brasil para receber os megaeventos, o discurso da "higienização” das cidades e criminalização da pobreza está ganhando cada vez mais vulto, mesmo que sempre tenha perpassado o processo histórico de urbanização no Brasil. Esse conjunto de situações e fatos que estão ocorrendo, sinalizam a chegada das leis de exceção e a limitação na liberdade de manifestação e comunicação em diversas cidades brasileiras.
As retóricas para a segregação e dominação social
Uma das variáveis pela qual podem ser analisadas as medidas higienistas e disciplinadoras nas cidades e na sociedade brasileira é a partir de uma lente sobre a história do Brasil, desde a invasão e a colonização européia no país. Evidencia-se que o processo de segregação e criminalização da pobreza foi convencionado em meio a um padrão civilizador que assume distintas feições nos estágios de desenvolvimento do capitalismo e são reafirmados pelas elites e muitos seguidores na classe média, os quais atuam por intermédio das instituições de Estado, bem como pela opinião pública por meio das corporações midiáticas.
Percebe-se que esse modelo urbano no Brasil beneficia poucos segmentos da sociedade e não está sendo capaz de prover as condições adequadas e necessárias de renda, moradia, mobilidade e saneamento para uma grande parcela da população brasileira que está situada em sua maioria à margem dos mercados de habitação, infraestrutura, serviços básicos e produtos de bens e consumo. Com este modelo vigente, há uma tendência em configurar-se concreta e simbolicamente a formação de um "cordão sanitário” entre as elites e a pobreza com todas as questões sociais (drogadição, diversos delitos e homicídios) que acompanham os conflitos gerados sob condições paupérrimas de vida.

Algumas das expressões sociais relativas ao discurso da redução da maioridade penal e internação compulsória estão associadas a fatores como a expansão, diversificação e sofisticação da violência delitual nas grandes cidades contra os grupos étnicos, geracionais e de expressão sexual (homofobia), a criminalização da pobreza e a criação de antagonismos entre grupos sociais em meio à restrição das condições de inserção social e ao mercado de trabalho. Exemplo disso são os/as jovens no Brasil, que são as principais vítimas da violência urbana, alvos prediletos dos homicidas e dos excessos policiais, em destaque os/as jovens negros que também lideram estatísticas, como, o grupo social que recebe os salários mais baixos do mercado, do maior contingente de desempregados e dos que têm maior defasagem escolar.
Por exemplo, segundo o recém divulgado PNAD (2011), as/os desempregadas/os do mercado formal e informal, mais da metade são mulheres (mesmo que mais escolarizadas que os homens); mais de um terço (33,9%) são jovens entre 18 e 24 anos de idade; e 57,6% pretos ou pardos e 53,6% com ensino médio incompleto.Outra pesquisa recém divulgada pela OIT (2012) reafirma essa condição.
Ainda, de acordo com a publicação Mapa da Violência, um jovem negro entre 15 e 25 anos tem chances 127% maiores de ser assassinado que a de um branco na mesma faixa etária. Em 2010, foram registradas 49.932 pessoas vítimas de homicídio no Brasil, desses 70,6% eram negras (os). Em 2010, 26.854 jovens entre 15 e 29 foram vítimas de homicídio, 74,6% dos e das jovens assassinadas/os eram negros/as e 91,3% eram do sexo masculino. Já as vítimas jovens (ente 15 e 29 anos) correspondem a 53% do total de homicídios e a diferença entre jovens brancos e negros salta de 4.807 para 12.190 homicídios, entre 2000 e 2009. Em outro estudo aponta-se que das vítimas de violência homofóbica no Brasil, que registraram denúncia, indica-se o predomínio de vítimas até 29 anos (50,3%) e na maioria são jovens de cor parda ou negra. Portanto, não deve ser delegado aos/as as jovens o conjunto de delitos e a causa da violência nas cidades, pois são as vítimas desse próprio processo.
Faz-se necessário rememorar que a constituição das cidades no Brasil foi estruturada por uma economia competitiva, como o símbolo da modernização da estrutura produtiva da sociedade brasileira, junto ao processo histórico de uma sociedade que estruturou sua economia pelo mercantilismo e pela escravidão. Isto acarretou a inserção desigual dos vários grupos raciais (em grande parte em faixa etária jovem) na economia competitiva, como um processo de racionalização econômica em curso e a imposição de um novo modelo de organização da vida econômica e social na história (Fernandes, 1978). Nesse processo, evidentemente, a integração dos/das negros/as foi de exclusão, pois o processo imigratório colocado em prática pelo governo brasileiro no início do século passado priorizou a utilização de força de trabalho originária da Europa, pela crença e o advento da civilização e da modernização da sociedade nacional balizada pelas diretrizes do trabalho livre, do regime republicano e capitalista(2).
Afirma-se, a partir desse conjunto de questões expostas, que as atuais políticas de criminalização da pobreza por parte do Estado, como a internação compulsória e a redução da maioridade penal, vão além da segregação social, pois tem recorte geracional e racial e estão enderaçadas mais uma vez para a juventude. Percebe-se que, se alguém está matando alguém, não são os e as jovens pobres, mas a discussão parece ser bem mais complexa e pode estar desvinculada de preceitos imediatistas propalados pelas elites ardorosas por segurança e divisão social.
Destaca-se que os projetos de lei sobre a redução da maioridade penal e da internação compulsória, em tramitação no Congresso Nacional, também tem seu recorte de classe junto aos propositores da matéria, pois são projetos azeitados por forças histórico-conservadoras e as elites que atualmente tem assento legislativo historicamente em partidos como PSDB, DEM, PRB e atualmente, até mesmo, em partidos como PSB, PCdoB e PT. Junto a isso, observa-se um governo apático e sem reação perante essas pautas postas no Congresso, a princípio para manutenção de uma suposta governabilidade.
Outra questão que pode ser feita sobre esse debate, é: como e aonde irão colocar em regime de cárcere tantas pessoas? Entre 2001 e 2011, a população brasileira cresceu 9,32% e a população carcerária 120%. São 550 mil presos e um déficit de 250 mil vagas, sendo uma das maiores populações carcerárias do mundo. Ainda, consta em uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do total de adolescentes em conflito com a lei em 2011 no Brasil, apenas 8,4% cometeram homicídios. A maioria dos delitos são roubos, seguido por tráfico. Quase metade do total de adolescentes infratores realizou o primeiro ato infracional entre os 15 e os 17 anos.
Também cria-se uma certa espetacularização do uso das drogas e a propagandeação de que está ocorrendo uma epidemia do crack. Contudo isso parece não estar de acordo com a realidade, exemplo disso, é que segundo dados do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), 12% dos paulistanos, por exemplo, são dependentes de álcool e apenas 0,05% usa crack.
Percebe-se que se o regime de cárcere e internação compulsória fossem medidas eficazes e que tivessem algum desdobramento considerado benéfico à sociedade, não seria necessário discutir formas de contenção e cárcere para mais pessoas. O debate da desigualdade social, por exemplo, que pode ser considerado um dos principais geradores de criminalidade e violência na sociedade é mascarado por argumentos maniqueístas, eugenistas e psicologistas pelos formadores hegemônicos de opinião pública, bem como pelas elites políticas e econômicas do país.
A questão do uso do Crack e outras drogas parece ter que ir além de ser apenas um caso de polícia ou abordada sob um viés sanitarista, ou como uma epidemia, ou tornando a decisão da internação em uma política pública de retirada de circulação da pobreza e cárcere sanitário, o que é o avesso aos atuais conceitos e tratamentos em saúde mental(3).
Nessa breve provocação não foi possível dar conta da diversidade de aspectos possíveis e necessários de serem contidos no debate sobre a internação compulsória e a redução da maioridade penal. Contudo, percebe-se que os debates e as disputas políticas para o aprimoramento e a ampliação das ações e políticas públicas em saúde e segurança pública precisam estar em pauta para e pelo conjunto da sociedade, além das medidas conservadoras e "medievais” que estão sendo propostas.
Notas:
(1) Segundo o Código Penal, a Constituição, a Lei de Segurança Nacional e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), menores de 18 anos são penalmente inimputáveis. Atualmente, a internação máxima prevista pelo estatuto é de três anos, mas uma pessoa pode ficar internada até os 20 anos e 11 meses, se ela for pega na véspera de completar 18 anos.
(2) Ver mais em FERNANDES, F. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. Vol.I. São Paulo: Ática, 1978.
(3) O movimento da reforma psiquiátrica é uma luta pelos direitos de pacientes psiquiátricos que denuncia a violência praticada nos manicômios e que propõe a construção de uma rede de serviços e estratégias comunitárias para o tratamento dessas pessoas, ou seja, em locais que o paciente possa frequentar, sem a necessidade de passar longos períodos internado, longe da convivência familiar e comunitária.
Sérgio Botton Barcellos, Pesquisador e doutorando no CPDA/UFRRJ. Assessor voluntário de movimentos sociais
Fonte: Adital

domingo, 14 de abril de 2013

Atual projeto de nação não tem lugar para povos indígenas, diz indígena e doutor em antropologia

Fonte: racismoambiental

Gersem Baniwa (Daiane Souza/UnB Agência)

Thiago Pimenta – Portal EBC

Após manifesto de funcionários da Funai por um plano de  indigenismo brasileiro, o Portal EBC entrevistou o indígena e doutor emantropologia Social, Gersem Baniwa, que atualmente é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Na opinião de Gersem, que é originário do grupo indígena Baniwa (localizado normalmente no noroeste do Amazonas), um plano indigenista passa previamente por um projeto de nação do país, não podendo acontecer de forma dissociada: “Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o Brasíl ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas”, destaca.
O pesquisador,  que já trabalhou em projetos no Ministério da Educação, reconhece alguns avanços das ações do governo na área escolar e na saúde indígena. O pesquisador reforça os esforços de gestores e técnicos que tentam avançar nas políticas indigenistas, mas denuncia as pressões sofridas pelos índios brasileiros por outros setores.
PLANO INDIGENISTA
Portal EBCAntes de tudo, em que consiste um plano indigenista?
Gersem: Um plano indigenista para o Brasil passa pela existência de um Projeto de Nação do Brasil. Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o país ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas.
Portal EBC: O texto da Constituição de 88 reconhece aos indígenas o direito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e dá a eles os direitos originários sobre as terras que ocupam. Jà a União é responsável por demarcar essas terras, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Não seria esse o começo desse projeto?
Gersem: A sociedade brasileira tentou dar sua contribuição por ocasião da Constituinte de 1988, assegurando direitos básicos que garantissem a continuidade étnica e cultural dos povos indígenas, por meio dos direitos sobre suas terras tradicionais e o reconhecimento de suas culturas, tradições e organização social, além do reconhecimento da plena capacidade civil e de cidadania. Minha hipótese é de que essas conquistas legais tinham relação com sentimento de culpa pelos séculos de massacres e mortes impostos aos índios pelos colonizadores, portanto, como medidas reparadoras do ponto de vista moral.
Mesmo reconhecendo alguns avanços pontuais no campo da educação (acesso à educação básica e superior ampliado), do direito à terra principalmente na Amazônia Legal e de participação política (06 prefeitos e 76 vereadores indígenas), o Estado continua passando por cima das cabeças e de caveiras dos povos indígenas como acontece de forma escancarada e vergonhosa no Estado de Mato Grosso do Sul, onde os índios Guarani-Kaiowá continuam sob fogo cruzado por fazendeiros e políticos da região. Para as elites econômicas e políticas do país, os povos indígenas continuam sendo percebidos e tratados como empecilhos para o desenvolvimento econômico do país (que na verdade é o enriquecimento desses grupos). Portanto, um plano indigenista brasileiro depende necessariamente da clareza de que nação, sociedade e país se quer construir. Os povos indígenas só terão chance se o Brasil assumir com seriedade a construção de um projeto de nação baseada em uma sociedade pluriétnica, multicultural e solidária.
Portal EBC: Quais seriam os pontos são mais importantes para um bom plano indigenista para o país?
Gersem: O ponto mais importante de um plano indigenista é garantir as condições reais para a garantia plena dos direitos indígenas, baseadas no protagonismo e na cidadania dos indivíduos e coletividades indígenas. Somente a garantia desses direitos pode garantir a continuidade étnica e cultural desses povos, por meio de segurança territorial, segurança econômico-alimentar, política de educação adequada e  política de saúde eficiente.  Isso também daria sinal de que os povos indígenas podem ter seu espaço na sociedade brasileira. Percebemos uma grande contradição na política indigenista atual: uma parte minoritária do Estado (governo) que tenta adotar o discurso e a prática em favor dos povos indígenas e a outras majoritária que ao contrário, adota discursos e práticas anti-indígenas.
Leia também:
SITUAÇÃO ATUAL DOS ÍNDIOS BRASILEIROS
Portal EBC: Como você vê a atual situação dos indígenas brasileiros? O que precisa mudar?
Gesem: Hoje os povos indígenas do Brasil passam por uma situação muito difícil e ruim, com violações constantes aos seus direitos e com a crescente violência física e de morte que sofrem. Os dez anos seguintes à promulgação da CF de 1988 foram de gradativo processo de conquistas de direitos concretos (demarcação de terras, educação escolar, organização social e participação política) mas, os últimos três anos foram de estagnação com forte tendência de retrocesso sem precedentes para os povos indígenas.  A leitura que faço é que o Estado (comandado pelas elites políticas e econômicas) se arrependeu de reconhecer os direitos indígenas e agora faz de tudo para, em primeiro plano, violar esses direitos e em segundo plano, anular ou reduzir esses direitos. Ou é isso, ou o Estado está assumindo sua incapacidade e incompetência para garantir os direitos dos povos indígenas. As políticas existentes são completamente insatisfatórias. Estão sempre voltadas para resolver ou minimizar problemas acumulados. As políticas indigenistas continuam sendo autoritárias, paternalistas e tutelares. Embora o Brasil tenha adotado a Convenção 169 da OIT, há anos, até hoje ela não foi regulamentada. Neste sentido, um plano indigenista moderno precisa superar seriamente a visão imediatista, autoritária e de descaso institucional. Precisa ser construído um plano transparente e participativo de curto, médio e longo prazo, com metas, objetivos e condições claros de implementação. O mais importante é o plano indigenista ser do Estado e não apenas de um governo ou do órgão indigenista.
Portal EBC: Que ações merecem destaque na atual política indigenista?
Gersem: É importante reconhecer que nos últimos houve esforços e tentativas do governo federal em avançar nas políticas de atendimento voltadas para os povos indígenas, principalmente após o fim do monopólio da política indigenista pela Fundação Nacional do Índio (Funai), no início da década de 1990. O Ministério da Saúde tem se esforçado para tentar responder às demandas indígenas. O Ministério do Meio Ambiente iniciou experiências inovadoras ainda no final da década de 1990 em apoio técnico e financeiro para projetos socioeconômicos alternativos e autossustentáveis de comunidades indígenas na Amazônia. O Ministério da Educação empreendeu esforços junto aos estados e municípios em busca de melhorias no atendimento escolar às aldeias indígenas. Sem dúvida que essas experiências das últimas duas décadas lograram avanços e êxitos parciais e de algum modo contribuíram para a recuperação da autoestima e de esperança no futuro dos povos indígenas, expressa por meio do crescimento demográfico desses povos que está se aproximando de um milhão de indígenas no país (considerando que na década de 1960 chegaram à cifra de 200.000 indígenas) e da presença cidadã dos indígenas na vida do país. As experiências revelaram também questões preocupantes, como as limitações do Estado no atendimento aos direitos e anseios indígenas. Os gestores e técnicos de ministérios bem que tentaram avançar nas políticas voltadas aos povos indígenas, mas percebe-se atualmente o limite dessas possibilidades, diante do contexto político e econômico do país. Essas possibilidades esbarram na falta de vontade política dos dirigentes maiores em dar relevância às questões indígenas. Sem determinação política o tema nunca entra na lista de prioridades do governo e, por isso, as instâncias e estruturas que atuam junto a esses povos estão sempre esvaziadas, desestruturadas e desqualificadas, sem recursos financeiros, sem equipes e sem condições administrativas. Deste modo fica difícil assegurar os direitos indígenas que ficam a mercê dos interesses econômicos anti-indígenas. Muitas vezes parece que o governo se presta a servir aos interesses desses grupos.
Portal EBC: Como você avalia o trabalho da Funai hoje?
Gersem: Nos últimos dez anos a Funai tem se esforçado para estar ao lado dos povos indígenas no enfrentamento dos problemas existentes nas aldeias, mas é um órgão do Estado e dos governos, portanto, dominada pela incapacidade e ineficiência institucional. É um órgão com eminência de falência institucional, por ausência de força e crédito político, falta de recursos humanos, equipe reduzida e mal preparada, e com infraestrutura arcaica. É evidente o processo de sucateamento e enfraquecimento do órgão nos últimos anos, na mesma proporção em que as oligarquias econômicas e políticas nos municípios e Estados se organizaram e se fortaleceram contra os direitos indígenas. O enfraquecimento da Funai é o mais claro exemplo do descompromisso do governo e do Estado para com a defesa e garantia dos direitos indígenas no país. Com isso, os povos indígenas cada vez mais estão à mercê e se tornam reféns de municípios, estados e grupos políticos e econômicos hostis aos direitos indígenas. Isso deixa claro também a necessidade de reorganização e fortalecimento do papel do governo federal na defesa e garantia desses direitos.
Portal EBC: Como você vê a atual atenção à saúde prestada aos indígenas?
Gersem: A política de saúde indígena no Brasil é a que mais se esforçou na busca por um plano mais adequado para o atendimento aos povos indígenas que teve início com a implantação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI´s), enquanto uma etnoterritorialização do atendimento, o que é uma ideia inovadora com grandes possibilidades. No entanto, tem sofrido como todas as demais políticas indigenistas das profundas contradições e irracionalidades da política e da administração pública brasileira. Recentemente foi criada a Secretaria Especial de Saúde Indígena, como resultado de décadas de luta dos povos indígenas, mais uma iniciativa relevante e, no entanto, foi neutralizada pelos gargalos administrativos homogêneos da burocracia estatal pensada para atender as realidades dos centros urbanos. Sem equipes e sem condições logísticas adequadas, a política de saúde indígena está sendo um pesadelo para a saúde dos povos indígenas. O mesmo acontece no campo das políticas de educação escolar indígena, principalmente em regiões da Amazônia e do Nordeste, onde construções de infraestrutura e transporte logístico básicas não são possíveis de serem resolvidas pelos irracionais procedimentos licitatórios. O mesmo acontece com a falta de recursos humanos qualificados para atuar nas aldeias ou próximo às aldeias, pois as formas de contratação, temporárias ou de carreira, não são adequadas, pois dificilmente profissionais qualificados se dispõem a trabalhar nas aldeias com baixos salários pagos pelo poder público.
Portal EBC: Como você vê a situação dos indígenas isolados e recém-contatados?
Gersem: Entendo que esses povos apresentam consciência sobre a situação de não estabelecerem contato permanente com a sociedade nacional e por isso devem ser respeitados nessa decisão. Neste sentido, cabe ao Estado protegê-los, criar condições de proteção sem ação interventiva ou esforço para estabelecer contato, pois estes povos fazem parte da nação brasileira, ainda que desconhecidos da população majoritária.
PRESSÕES SOFRIDAS POR POVOS INDÍGENAS
Portal EBC: Quais são as maiores pressões sofridas pelos indígenas brasileiros? Quais são os agentes dessas pressões?
Gersem: Na atualidade, as maiores pressões aos povos indígenas vêm dos grupos ruralistas e mineradores do país além, é claro, dos próprios agentes do Estado e das grandes construtoras interessados pelos territórios indígenas e principalmente pelos recursos naturais neles existentes. As principais ameaças vêm das elites econômicas, principalmente ruralistas, na medida em que estão, a todo custo, espoliando as terras indígenas. É importante afirmar que não é possível garantir a continuidade etnocultural dos povos indígenas sem a garantia territorial. Mas não podemos esquecer a outra ameaça que vem das igrejas religiosas, que estão realizando, verdadeiros massacres culturais por meio de suas imposições doutrinárias em detrimento das culturas e valores indígenas.
Portal EBC: De que forma essas pressões podem ser aliviadas?
Gersem: Primeiro, a partir de um ordenamento territorial, respeitando-se os direitos constitucionais dos povos indígenas. No Brasil, é necessário se criar o hábito e a cultura de se respeitar as leis e o Estado ou governos precisam criar vontade e capacidades para exerceram o poder para zelar pelo cumprimento das leis, indistintamente de classes, grupos sociais ou credos. Segundo, é necessário respeitar a legislação nacional e internacional que asseguram a participação e a consulta prévia e qualificada aos povos indígenas em qualquer projeto ou programa governamental que lhes afetem. Em terceiro lugar, o que é mais importante é a superação do preconceito histórico sobre os povos indígenas de que são empecilhos para o desenvolvimento do país e a superação do racismo que considera os povos indígenas como atrasados ou não civilizados. Não é possível pensar o Brasil desenvolvido e civilizado enquanto não aprender a respeitar e valorizar um dos seus três pilares étnicos, que formaram o povo e a nação brasileira, que são os povos indígenas ou povos originários.
Portal EBC: As grandes obras como a construção de hidrelétricas e rodovias também ameaçam os povos indígenas?
Gersem: Sem dúvida, depois da luta pela terra as construções de grandes obras ameaçam seriamente a vida presente e futura dos povos indígenas, na medida em que afetam diretamente os ecossistema dos territórios indígenas que são fundamentais para a sobrevivência física e cultural. É importante destacar que os povos indígenas precisam integralmente de seus territórios, enquanto ecossistemas integrados e abrangentes para perpetuarem suas culturas, tradições, seus conhecimentos e seus modos de vida.
Portal EBC: Qual a sua opinião sobre a recente militarização nessas grandes obras, como a presença da Força Nacional no Complexo Tapajós?
Gersem: Acho completamente desnecessária e mostra claramente a atitude arbitrária e autoritária do governo. Mostra ainda total falta de sensibilidade e capacidade de diálogo com o movimento social indígena. E o que mais assusta com essa atitude do governo é a possibilidade de que o governo esteja radicalmente decidido a seguir o discurso de em nome do “relevante interesse público” passar por cima dos povos indígenas, ou seja, mais uma vez os povos indígenas podem pagar com suas vidas o suposto bem estar da sociedade majoritária e pode no futuro próximo estimular instabilidade social nas regiões e no país. Um diálogo franco, transparente e democrático com os interessados deveria ser instituído para mediar e solucionar conflitos de interesses. Nem sempre a força física e militar é a melhor solução para muitos casos.
Portal EBC: A lei 5.371 diz que a Funai deve exercer o poder de polícia nas áreas reservadas e nas matérias atinentes à proteção do índio. Como você vê a questão do poder de polícia conferido à Funai? A instituição deve ter autonomia ou deve recorrer a outros órgãos de segurança pública?
Gersem: Em primeiro lugar não tenho nada contra o poder de polícia da Funai, mas acho isso completamente inviável pelas condições em que o órgão se encontra: enfraquecido, desestruturado e principalmente sem equipe qualificada. Em segundo lugar, é importante considerar o papel do estado brasileiro na defesa e proteção dos direitos dos povos indígenas e, para isso, dispõe de vários instrumentos e mecanismos institucionais, como Ministério Público, a Polícia Federal e a Força Nacional e outros órgãos. Não acredito que somente uma Funai armada irá resolver os problemas dela e dos povos indígenas, mas sim um plano indigenista sério, forte e eficiente, com o peso e a responsabilidade do Estado e dos governos.
Portal EBC: Um delegado da Polícia Federal da Delegacia Vilhena, em Rondônia, sugeriu que a Funai fizesse a regularização quanto ao porte de armas de fogo por parte dos servidores. Você é contra ou a favor do porte de armas por funcionários da instituição?
Gersem: Em primeiro lugar sou contra porte de armas para qualquer cidadão que não represente órgãos de segurança pública, de modo que os funcionários da Funai só deveriam portar armas caso eles exerçam poder de polícia, caso contrário sou completamente contra.
PERSPECTIVAS PARA O INDIGENISMO BRASILEIRO
Portal EBC: Na sua opinião, qual é a maior urgência do indigenismo brasileiro?
Gersem: A maior urgência é a definição clara de uma política indigenista para o país com metas de curto, médio e longo prazo. Uma política que estabeleça com clareza o lugar dos povos indígenas na nação brasileira. E para mostrar compromisso e seriedade com esta política é fundamental a aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas que expresse este plano indigenista de curto, médio e longo prazo de forma articulado. O governo federal precisa assumir a responsabilidade pela defesa e proteção dos direitos desses povos, conforme determina a Constituição Federal. Só uma atuação exemplar do governo federal pode tirar os povos indígenas das mãos sanguinárias das elites econômicas, principalmente ruralistas.
Portal EBC: Quais são as perspectivas futuras para o indigenismo brasileiro?
Gersem: De muita angústia, muita dúvida e muita luta na tentativa de evitar que mais uma onda de genocídios volte a ser executada no Brasil. A esperança está em uma geração de jovens indígenas que estão se formando nas academias brasileiras e que ao longo dos próximos anos vão estar assumindo a liderança de suas aldeias e seus povos e, em muitos casos, também ocupando espaços nos órgãos da administração pública e nos poderes constituídos do país e que podem propor e construir novas alternativas de resistência e sobrevivência dos povos indígenas do Brasil. O grande desafio dessa nova geração de lideranças indígenas é domesticar a hostilidade, a ambição, a vaidade e o senso de tirania dos grupos políticos e econômicos que dominam as estruturas e as políticas do Estado e dos governos. Mas tenho certeza que os povos indígenas continuarão sua histórica luta de resistência mas também de fé por dias melhores em mundos melhores.
Edição: Leyberson Pedrosa
-
Compartilhada por João Alexandre Guarani Kaiowá.

A Literatura não está Fora da Caixa – O PNBE na escola

Fonte: cartacapital

entrevista_aparecida
Obras literárias chegam às instituições públicas de ensino, mas sem uma política de informar os professores e formar mediadores de leitura os livros não saem da caixa, diz a pesquisadora Aparecida Paiva. Foto: Washington Alves

O Brasil é um dos países que mais investem na compra e na distribuição de livros para as escolas. Só em 2013, o governo federal entregou 6,7 milhões de obras literárias, um investimento de 66 milhões de reais. No entanto, a política de distribuição de livros, protagonizada principalmente pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), não se traduziu na apropriação do livro, tampouco na formação de leitores. Na maioria das vezes, as obras literárias não saem das caixas.
Foi o que constatou a pesquisadora Aparecida Paiva, organizadora e uma das autoras do livro Literatura Fora da Caixa – O PNBE na escola, publicado pela Editora Unesp. Segundo a professora de pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais, a formação incipiente de mediadores de leitura e a falta de entendimento do livro como um bem cultural ajudam a explicar por que as obras literárias não chegam aos estudantes.
“Muitos professores nem sabem que os livros chegam à escola”, afirma Aparecida, que conversou com Carta Fundamental sobre o PNBE, sua inserção nas instituições e a importância da literatura como uma possibilidade de educação cultural que não pode ser puramente escolarizada.

Carta Fundamental: O que falta para que uma política de distribuição de livros, como a do PNBE, seja bem-sucedida?
Aparecida Paiva: Se nós circunscrevermos a conversa ao PNBE, é muito louvável a política que gasta milhões de reais por ano para atender as bibliotecas. O problema é que essa política universal de distribuição de livros não vem acompanhada de uma formação de mediadores de leitura. Antigamente, questionava-se que os alunos de escolas públicas não tinham acesso aos livros. Hoje os livros chegam às bibliotecas, mas permanecem dentro das caixas. O País precisaria investir em formação de mediadores de leitura, mas antes é necessário informar que os livros estão chegando. Muitos professores relatam que nunca souberam que esses livros chegavam às escolas. Se eles não sabem o paradeiro dos livros, como é que vamos pensar numa política de formação de leitores? Além da falta de informação, falta a formação do professor enquanto mediador. Se ele não é leitor, não terá a competência instalada de mediador de leitura. Também falta uma consciência de que a literatura transcende o processo de escolarização. Há um grande equívoco: consolida-se a distribuição dos livros sem o acompanhamento de uma política de formação de leitores.
CF: De forma geral, as bibliotecas escolares brasileiras possuem um bom acervo?
AP:  Os acervos são bons.  Grosso modo, as escolas públicas são abastecidas com essa grande política. O esperado é que pelo menos esses livros componham os acervos, além de algumas políticas municipais que também produzem seus kits e das compras autônomas de gestores. O paradoxo é que você gasta milhões, mas é muito pouco diante do conjunto de alunos e da dimensão do País. São poucos livros por acervo, nunca passa de cem por escola. Se um professor quiser fazer um trabalho com determinada obra, ele tem um ou dois exemplares no máximo para desenvolver isso com suas turmas. É pouco, mas quando se pensa no conjunto de livros, a quantidade distribuída é muito grande. Fica difícil.
CF: Que ações poderiam ser tomadas para que os livros não fiquem dentro das caixas?
AP: Primeiro, o MEC precisa fazer correspondências que não sejam apenas uma carta dentro das caixas. Precisava haver uma política de divulgação da chegada dos livros de literatura nas escolas. Além isso, o diretor tem de se comprometer com a divulgação: acionar o coordenador, o professor, o bibliotecário, o auxiliar da biblioteca, e divulgar. O MEC tem uma distribuição de materiais generosa e, às vezes, os gestores ficam atordoados com o volume dos materiais. Sem o devido esclarecimento da política, você não pode responsabilizar o gestor e deixar a iniciativa correr por conta de um profissional mais esclarecido. Todos na escola precisam divulgar e se apropriar do livro. Não adianta imaginar que o único endereçamento do livro seja para o professor de Português e para o responsável pela biblioteca. Boa vontade dos profissionais que estão na escola existe, mas entre sair do discurso de que o livro é importante para uma prática concreta de formação de leitores há um caminho muito longo.
CF: Quais as características esperadas de um bom mediador de leitura na escola?
AP: Ele tem de ser um leitor, gostar de literatura, não interessa o gênero. Ele precisa estar disposto a viver o inusitado, precisa ter disponibilidade e competência para articular esse texto literário com o cotidiano e com o con-
teúdo que ele ministra. O problema é que essa característica do mediador fica muito no âmbito do escolar, enquanto se deveria pensar no leitor perene, para fora dos muros da escola. O mediador precisa entender que a literatura é uma possibilidade de educação cultural, da educação da sensibilidade do ser humano, que não pode ser puramente escolarizada. Ele tem de investir sem pensar num resultado imediato.
CF: Assim como acontece com as leituras para o vestibular?
AP: Exatamente. Já entrevistei muitos professores que dizem que quando eram adolescentes liam muito, mas depois que passaram no vestibular só leem livros técnicos da sua área. Esse é o leitor que parou nas obrigações escolares, que não faz uso social da literatura, não se apropria dela como um lazer. Na verdade, evito citar características de um bom mediador de leitura, não tem como traçar um perfil. Houve uma pesquisa na UFMG para distinguir qual era o melhor alfabetizador, cruzaram-se vários dados: formação, idade, tempo de serviço, experiência em salas de alfabetização, remuneração. A única coisa comum a todos os bons alfabetizadores era gostar de alfabetizar, era ter prazer em acompanhar o desenvolvimento da criança em contato com a escrita. A pessoa tem de gostar de literatura, mas também se convencer de que aquilo é um bem a ser transmitido, do contrário aquilo permanece no foro íntimo, como uma atitude ­pessoal. Na verdade, precisamos reconhecer que a literatura amplia horizontes, desenvolve a capacidade leitora. Apropriações escolares ajudam, mas queremos muito mais.
CF: A última pesquisa Retratos da Leitura aponta o professor como principal influenciador da leitura.
AP: Essa foi a nossa grande alegria. Porque o núcleo familiar sempre predominou como os maiores incentivadores da leitura e esse deslocamento para o professor pode ser lido de uma forma muito positiva. É muito bom trabalhar esse dado com os professores, falar que eles podem fazer diferença. Porém, nós que investigamos o campo de pesquisa precisamos pensar em outras coisas. As crianças de escola pública só têm acesso aos livros na escola. É a escola que faz a mediação, porque as famílias estão subnutridas de leitura. O resultado do professor como mediador é incontestável, já avançamos muito. Mas sempre é o professor, aquele que faz a diferença na vida do aluno. Precisava ser uma coisa mais consistente, uma ação educacional mais colegiada na escola, no sentido de eleger a formação de leitores não pelo viés da avaliação de proficiência em leitura, mas porque queremos formar cidadãos conscientes, que leem e que podem fazer descobertas incríveis por meio do ­texto ­literário, que é capaz de romper com grilhões de formatação de educação.
CF: Quem são os profissionais que trabalham nas bibliotecas escolares?
AP: Na escola pública, são muito poucos, sem carreira. O curso de Biblioteconomia sofreu reformulações grandes e muitos não querem ser bibliotecários escolares, querem perseguir outras carreiras. Começa por aí, não tem um bibliotecário por escola, muitas vezes um bibliotecário atende dez escolas do seu polo. O auxiliar de biblioteca ou o responsável, em grande parte é o professor em desvio de função, que não tem condições de estar em sala de aula, ou é aquele profissional de nível médio, de qualquer área, que faz concurso para trabalhar nas bibliotecas escolares.
CF: Eles são valorizados dentro da instituição de ensino?
AP: Ele é pouco valorizado porque não se ­investe no papel de fomentador cultural e de formador de leitor. Ele é o guardião de livros: cuida, cataloga e abre ocasionalmente a biblioteca para os alunos acessarem. Às vezes ele até fecha a biblioteca na hora do recreio, no único horário que os alunos podem acessar. E não recebe formação específica nenhuma para trabalhar como formador de leitores. As condições são muito precárias: eles trabalham sozinhos, dobram turno, a biblioteca fica fechada, os armários ficam trancados porque os livros não podem sumir. A realidade das bibliotecas escolares brasileiras é muito dramática. Pode ser uma visão pessimista, mas não vejo ainda o trabalho do bibliotecário como um educador, como um profissional integrado na escola, salvo exceções.
CF: Além de não fazer esse trabalho de formação de leitores, o responsável pode até dificultar o acesso aos livros?
AP: Já presenciei professores que não têm a menor condição de receber os alunos na biblioteca, um espaço que é tudo e nada ao mesmo tempo: lá se guardam livros, mas é também lugar de castigo por indisciplina, é onde se guardam os recursos audiovisuais, é sala de reunião para os professores. Como um espaço que é tudo e nada pode ser identificado como um espaço de leitura? A luta pela biblioteca de verdade ainda é muito grande.
CF: Como o bibliotecário pode atrair as crianças para a biblioteca da escola? Um acervo com obras mais próximas da juventude pode ser um caminho?
AP: Qualquer livro é uma isca. Muitas vezes a comunidade de leitores que se forma fora da escola é mais poderosa do que a de dentro. Como os meninos não querem ficar excluídos dos assuntos da turma, eles fazem fila para pegar o livro da vez. Se o profissional estiver atento a isso, pode sugerir outros títulos, tem de mostrar mais, tem de atrair. Levar os meninos para a biblioteca pode ser um segundo passo, antes, ele deveria ir para a sala de aula fazer propaganda da biblioteca. Tudo esbarra no projeto político pedagógico da escola. Jeito tem, basta querer.

A favela em ‘Salve Jorge’

 Do blog do Implacável: blog/implacavel

Fonte:
Comentário meu: Já tinha detectado o mesmo problema na novela Avenida BrasilReproduzido do Geledés – Instituto da Mulher Negra,
A autora de Salve Jorge está esculachando a favela, como diria uma carioca atenta. Poxa, é uma moçada jovem que não trabalha, não estuda e só tem quatro ou cinco tipos de ações: batem perna, batem boca e gritam, postam coisas na internet, tomam sol na laje e dançam, do funk ao pagode. De quebra, fecham com o pessoal do movimento e planejam subir na vida arrumando marido rico.
O tal do pescoço (Nando Cunha) é um personagem caricato que a mim incomoda muito. É a reificação de um modelo de homem negro vagabundo, aproveitador, desonesto. Sim, eles também existem, não nego, mas lamento que não haja um contraponto de homem negro honesto, bonitão, subordinado a uma mulher no trabalho, como os auxiliares da delegada Helô (Giovanna Antonelli).
Maria Vanúbia é outra personagem mega estereotipada. Uma pena, Roberta Rodrigues vinha fazendo bons papéis na TV. Vão dizer que a personagem é boa. Sim, deve ser. O problema é que sua riqueza não é explorada. Em mim fica a sensação daquele humor apelativo em que à medida que o público responde positivamente, os trejeitos da personagem são exacerbados.
Não vi trabalhos anteriores de Lucy Ramos, mas a interpretação de Sheila é naturalizada demais, como também o é a da protagonista Morena (Nanda Costa), bem como D. Diva (Neusa Borges) e o neto (Mussunzinho). Sinto falta de mais interpretação. Algo que só vejo nos trabalhos dramaturgicamente mais convincentes de Lucimar (Dira Paes), Deuzuite (Susana Badin) e de Clóvis (Walter Breda), marido de D. Diva.
Olhar em volta
Sou habituée do teleférico do Alemão e lá de cima vejo tanta coisa interessante além das moças tomando banho de sol na laje em trajes sumários: tem as crianças brincando nas numerosas piscinas de plástico, churrascos animados, gente andando de uniforme escolar pelas ruas e tem a criativa pintura dos barracos. Adoro uma casa que tem Bob Marley fumando um charutão de marijuana, outra tem Nelson Mandela, outra, instrumentos musicais, outra, palavras de ordem da luta negra. Tem quadra de esportes também.
Entretanto, às telespectadoras da novela não é dado ver essa favela esteticamente negra. Tampouco a locação em terra reflete a diversidade dos morros cariocas. A moçada jovem do folhetim pode não fazer nada de útil na vida, tudo bem, é uma opção de quem criou a trama, mas tanta coisa acontece ao redor daquelas moças e do rapaz: tem sempre um espaço onde funciona um curso de pré-vestibular comunitário, a associação de bairro, uma ONG, uma creche.
A diversidade na caracterização de um espaço físico é fruto de vontade política e compromisso com a própria diversidade, para não mencionar o conhecimento abrangente de um ambiente, pré-requisito para quem cria o cenário.
Na primeira vez que liguei um aparelho de TV numa cidade dos EUA assisti a um comercial surpreendente, tendo em vista minhas referências brasileiras. Pensando bem, até hoje ainda seria. Tratava-se de uma propaganda de shampoo para cabelos lisos estrelada por uma atriz famosa, o marido e duas crianças, típica família branca estadunidense. O homem saca uma máquina e começa a fotografar as crianças e a mulher brincando com um cachorro enorme. Os cabelos de todos voam, desembaraçados e perfumados pelo shampoo (a mãe cheira o cabelo dos filhos).
Animado, o paizão fotografa coisas do jardim, o dia ensolarado e num dado momento, fotografa o vizinho abraçado pelo filho ao chegar da rua, ambos negros. E por que aparecem um adulto e uma criança negra naquele anúncio de shampoo para cabelos lisos e sem qualquer relação outra com o produto? Por que negro é gente e faz parte daquela paisagem humana. Porque houve vontade política ou exigência de colocá-los ali em respeito aos negros que potencialmente não se interessarão por aquele tipo de shampoo, mas, pode haver uma versão para cabelos crespos. Porque negros assistem televisão, são consumidores e querem se ver representados em toda parte, mesmo que indiretamente ligados aos produtos em tela.
Quando houver empenho da autora e da telenovela em refletir a diversidade das telespectadoras que garantem a audiência, moradoras de favelas e de outros lugares empobrecidos será fácil, fácil de fazer. Basta olhar em volta e pescar elementos múltiplos da realidade.
***
Cidinha da Silva é historiadora, coordenadora do Programa de Educação de Geledés – Instituto da Mulher Negra e coautora de Rap e educação, rap é educação (1999) e Racismo e anti-racismo na educação: Rapensando a nossa escola (2001) ambos pelo Selo Negro Edições

terça-feira, 9 de abril de 2013

Como a Finlândia constrói a melhor escola do mundo


Fonte: outraspalavras



130409-Finlândia
Surpresa: não é perseguindo índices — mas oferecendo ampla liberdade curricular para que alunos descubram suas vocações e valorizando atitude e autonomia dos professores
Por Beatriz Rey, na Revista Educação
“Não!”, interrompeu Alfons Tallgreen, 13 anos, ao ouvir que o finlandês, sua língua materna, tinha raízes semelhantes às da língua russa. “O estoniano, o húngaro e o finlandês são línguas correlatas. Aconteceu assim: primeiro, o finlandês começou a ser usado no sul da Finlândia e, aos poucos, foi ganhando o norte do país”, conta o menino ruivo, aluno da 7ª série da Itäkeskus, em Helsinque, capital da Finlândia. Apesar de já conhecer a história de sua língua, Alfons quer, no futuro, estudar as propriedades de plantas e microorganismos. Pausadamente, explica que sua vontade inicial era ser dentista – a mãe o demoveu da ideia. Porém, já estava interessado em biologia nessa época. “Estava pesquisando a floresta aqui do lado da escola. Mas infelizmente as árvores serão cortadas para a construção de casas de madeira no lugar”, diz.
A escola em que Alfons estuda tem o foco específico em línguas. Ali, os alunos têm a opção de estudar diversos idiomas. É o caso de seu colega, Muaad Hussein, cuja família tem ascendência libanesa. Com a mesma idade de seu colega, o menino já conhece cinco línguas: árabe, sueco, italiano, francês e finlandês, além de entender também um pouco de espanhol. “É claro que nem todos os alunos se interessam assim. Alguns não querem nem ouvir os professores. Não pensam no futuro”, desabafa. Muaad tem razão. Ali, na Finlândia, os meninos e meninas são iguais a todos os outros no mundo: não gostam de escola, adoram o videogame, o computador, andam de skate em praças e passeiam em grupos pelos shoppings. O que leva, então, o país a ser sucessivamente o primeiro colocado nas avaliações do Pisa? Na última edição, que avaliou ciências, a média finlandesa foi de 563 – o Brasil alcançou 390 (52º de 56 países).
Um documento do próprio Ministério da Educação, criado para apresentar o sistema educacional finlandês a estrangeiros, começa a responder à pergunta. Logo no começo, há uma advertência: o sucesso só pode ser explicado em função de uma conjugação de fatores, e não por uma única ação. A primeira razão, diz, é que a sociedade finlandesa valoriza a educação e, portanto, tem uma atitude muito favorável à área. Os números dão subsídio à frase que, aparentemente, não diz muito: aproximadamente 75% dos adultos entre 25 e 64 anos têm diploma de ensino superior. Na Finlândia, o ensino é obrigatório dos 7 aos 16 anos – em outras palavras, cursa o ensino médio quem quer. Mas apenas 1% dos estudantes da chamada escola “compreensiva” (equivalente ao nosso ensino fundamental) não continua os estudos.
Ser professor
Muito dessa atitude favorável à educação provém de uma cultura desconhecida em terras brasileiras. Na Finlândia, o professor é visto com respeito – profissionalismo e responsabilidade envolvem a profissão. Há um componente histórico nessa valorização: há cem anos, quando o país ainda se configurava como nação, a pobreza reinava, principalmente no interior. Ali, quem tinha um diploma de professor era tratado como se fosse rei. Foi esse o relato de um membro do Conselho Nacional de Educação Finlandês, Reijo Laukkanen, em entrevista à Educação na edição 150. Hoje, é menos reverenciado, pois divide o conhecimento com profissionais de outras áreas. Mas nas ruas de Helsinque é possível perceber a atmosfera positiva que o envolve. Enquanto espera em frente à famosa loja de departamento Stockmann, Sari Nummila, 41, mãe de dois filhos, é categórica: “o que posso dizer? Nós precisamos deles. Ficaria feliz se um dos meus filhos se tornasse professor”, diz. Lea Itoonen, 56, mãe de três filhos e voluntária da Cruz Vermelha Internacional, diz estar satisfeita com a educação que recebem na escola. Só tem uma reclamação: antigamente, os professores tinham personalidade mais forte. “Gostaria que eles não apenas fossem um agrupamento excelente, mas tivessem mais atitude, enfrentassem os pais e o governo por melhores salários”, relata. Mas, de qualquer maneira, diz: “é uma profissão bonita para se ter aqui”. Mesmo entre os mais jovens, a percepção não se altera. Annette Backman, 21 anos, tem inclusive uma amiga que quer ser professora. “Eles são competentes e ela gosta da profissão”, relata.
O fato de o professor ter autonomia para trabalhar em sua sala de aula também colabora com a visão social tão positiva. Há um currículo nacional básico, que dita as linhas gerais do que deve ser ensinado, mas o docente pode escolher os métodos, os livros, o tipo de didática e inclusive optar ou não pelo uso da tecnologia. “O currículo não é sobre o que se ensina. É sobre o que os alunos devem aprender. Ele define as capacidades e habilidades que os estudantes devem ter quando terminarem seus estudos”, explica Heljä Misukka, secretária de Estado da Educação. Na Finlândia, antes de aprenderem os conteúdos, os alunos têm experiências práticas que auxiliarão no seu entendimento futuro. Um exemplo: na escola Itäkeskus, estudantes de 10 anos têm aulas de culinária. Mas, ao assistir a uma aula, percebe-se o motivo da intervenção dos professores quando eles explicam a reação do fermento em água quente e em água fria. Além disso, os alunos aprendem a economizar energia e água. É através dos saberes cotidianos, como fazer uma receita, que os pequenos estudantes já apreendem conceitos para, mais tarde, aprenderem o conteúdo. Tudo é muito bem amarrado.
Formação
Heljä lembra outro aspecto da profissão docente: os professores são altamente qualificados. Para começar, a concorrência nas universidades de pedagogia é enorme. Dados do Ministério da Educação dão conta de que, na última primavera, havia 6 mil candidatos para 800 vagas. Após ser aceito, o aluno deve completar o mestrado para poder lecionar em qualquer nível educacional (veja mais sobre formação de professores na próxima edição de Educação ). “Nós realmente podemos escolher os melhores”, coloca.
Não é difícil encontrar pelas escolas docentes cujo sonho de ser professor foi realizado. É o caso de Lejeune Hannele, 42 anos, que leciona apenas para alunos com dificuldade de aprendizagem na escola Itäkeskus. “Queria ser professora desde os 8 anos. Estudei seis anos para conseguir. Sempre gostei de estar com crianças”, conta. Lejeune passou seis anos no curso superior porque estudou letras durante quatro anos e teve um ano extra para ser docente e outro para ser professora de crianças com necessidades especiais. É importante notar que há um facilitador para a qualidade docente: os alunos já vêm com repertório e formação consolidada para a universidade, adquiridos durante o ensino fundamental e médio. Aliás, eis outro aspecto digno de nota: os ensinos fundamental é obrigatório e de graça para todos os alunos. Isso inclui materiais escolares, merenda, atendimento médico, atendimento dentário e transporte. No ensino médio, só fica a cargo do aluno o material escolar.
Liberdade e liberdade
O modelo de gestão educacional na Finlândia também é diferenciado. O Ministério da Educação não tem as mesmas funções que o MEC brasileiro. Responsável pela elaboração de políticas públicas e de legislação, ele as propõe ao Parlamento, que pode aprová-las ou não. É um órgão de caráter menos executivo. O Conselho Nacional de Educação age mais efetivamente na implementação das leis. Um exemplo: o Ministério opta pela existência de um currículo mínimo nacional. O Conselho, então, fica responsável pelo desenho desse currículo. Abaixo dele, estão os chamados escritórios estaduais, cuja função na prática é a elaboração de estatísticas sobre determinadas regiões. Quem realmente executa são os municípios. O material didático usado por eles não é inspecionado pelo Ministério desde 1990, quando o processo de autonomia se consolidou. Os municípios e as escolas têm liberdade para escolher o material didático mais adequado às suas realidades. Geralmente, os municípios que estão localizados no interior do país e têm menos condição financeira recebem um repasse de verba do governo central – algo em torno de 42% do orçamento municipal. Helsinque não recebe nenhum tipo de ajuda do gênero. Todo orçamento provém dos impostos municipais. “As pessoas dizem que gostariam de pagar mais impostos, já que consideram a escola um serviço muito importante. Eles são altos, mas eles têm retorno do governo”, aponta Heljä.
O documento do Ministério da Educação ressalta a existência de um sistema educacional que oferece oportunidades iguais a todos, independente mente da região em que moram, do sexo, da situação econômica, da língua ou das origens culturais. A maioria dos imigrantes que residem na Finlândia é composta por russos, estonianos, chilenos e chineses. Eles vão para as escolas regulares, onde aprendem o finlandês e a sua língua materna. Por trás dessa iniciativa está a intenção de que as raízes culturais não se esvaiam. “Se você não sabe sua própria língua, é muito difícil aprender outras”, coloca Heljä Misukka. A secretária de Estado enxerga alguns grandes desafios pela frente. Um deles é a discussão do número de alunos por sala. Quando assumiu o cargo, fez um mapeamento desse número em todos os municípios – o que não foi bem recebido nas cidades. Como as escolas são autônomas, há salas de 8 alunos e de 36, o máximo registrado. “Demos 16 milhões a eles neste ano e daremos mais 30 milhões no próximo ano para que deixem suas salas menores”, diz.
Outra questão, a formação continuada dos professores, toca num ponto importante: tecnologia. Mais uma vez, a rede autônoma cria sistemas paralelos. Algumas escolas, como a Itäkeskus, usam lousa digital. Mas os municípios que sofrem com problemas financeiros não podem arcar com esse custo. Heljä diz que ter medo da tecnologia não é uma atitude correta. Lembrando que a Nokia é finlandesa, afirma que grande parte dos alunos do 1º ano já tem celular. “Se vão à escola e lá não há nenhum tipo de tecnologia, a escola vira um museu. Se o professor quer ensinar como um aluno deve se comportar no universo on-line e a escola não puder lidar com isso, temos um problema”, levanta. Há um projeto-piloto no país que usa a tecnologia com crianças que têm necessidades especiais. Elas aprendem a ler e a escrever primeiro no computador, e depois vão para o papel. “É mais fácil para eles e não há nada errado com isso. Há diferentes tipos de aprendizes e diferentes soluções pedagógicas para eles”, afirma.
-
*A jornalista Beatriz Rey viajou a Helsinque a convite da Embaixada da Finlândia no Brasil e do Ministério das Relações Exteriores da Finlândia
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.5 Brazil License.