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domingo, 23 de junho de 2013

Em Minas, prefeito negro petista enfrenta a massa e é ovacionado

Fonte: brasil247

: Prefeito de Poços de Caldas, uma das cidades mais ricas de Minas Gerais, deixou seu amplo gabinete de trabalho, desceu as escadarias do Paço Municipal e foi ao encontro de uma multidão calculada em cerca de 10 mil jovens
22 de Junho de 2013 às 17:09

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O preço do progresso e os dois Brasis


Protestos foram enorme surpresa internacional. Para entendê-los, deve-se examinar as agendas interrompidas no governo Dilma – e a que se impôs

Por Boaventura de Sousa Santos

Com a eleição da Presidente Dilma Roussef, o Brasil quis acelerar o passo para se tornar uma potência global. Muitas das iniciativas nesse sentido vinham de trás mas tiveram um novo impulso: Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente, Rio +20, em 2012, Campeonato do Mundo de Futebol em 2014, Jogos Olímpicos em 2016, luta por lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, papel ativo no crescente protagonismo das “economias emergentes”, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), nomeação de José Graziano da Silva para diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 2012, e de Roberto Azevedo para diretor-geral da Organização Mundial de Comércio, a partir de 2013, uma política agressiva de exploração dos recursos naturais, tanto no Brasil como em África, nomeadamente em Moçambique, favorecimento da grande agricultura industrial sobretudo para a produção de soja, agrocombustíveis e a criação de gado.
Beneficiando de uma boa imagem pública internacional granjeada pelo Presidente Lula e as suas políticas de inclusão social, este Brasil desenvolvimentista impôs-se ao mundo como uma potência de tipo novo, benévola e inclusiva. Não podia, pois, ser maior a surpresa internacional perante as manifestações que na última semana levaram para a rua centenas de milhares de pessoas nas principais cidades do país.
Enquanto perante as recentes manifestações na Turquia foi imediata a leitura sobre as “duas Turquias”, no caso do Brasil foi mais difícil reconhecer a existência de “dois Brasis”. Mas ela aí está aos olhos de todos. A dificuldade em reconhecê-la reside na própria natureza do “outro Brasil”, um Brasil furtivo a análises simplistas. Esse Brasil é feito de três narrativas e temporalidades. A primeira é a narrativa da exclusão social (um dos países mais desiguais do mundo), das oligarquias latifundiárias, do caciquismo violento, de elites políticas restritas e racistas, uma narrativa que remonta à colônia e se tem reproduzido sob formas sempre mutantes até hoje. A segunda narrativa é a da reivindicação da democracia participativa que remonta aos últimos 25 anos e teve os seus pontos mais altos no processo constituinte que conduziu à Constituição de 1988, nos orçamentos participativos sobre políticas urbanas em centenas de municípios, no impeachment do Presidente Collor de Mello em 1992, na criação de conselhos de cidadãos nas principais áreas de políticas públicas especialmente na saúde e educação aos diferentes níveis da ação estatal (municipal, estadual e federal). A terceira narrativa tem apenas dez anos de idade e diz respeito às vastas políticas de inclusão social adotadas pelo Presidente Lula da Silva a partir de 2003 e que levaram a uma significativa redução da pobreza, à criação de uma classe média com elevado pendor consumista, ao reconhecimento da discriminação racial contra a população afrodescendente e indígena.
O que aconteceu desde que a Presidente Dilma assumiu funções foi a desaceleração ou mesmo estancamento das duas últimas narrativas. E como em política não há vazio, o espaço que elas foram deixando de baldio foi sendo aproveitado pela primeira e mais antiga narrativa que ganhou novo vigor sob as novas roupagens do desenvolvimento capitalista todo o custo, e as novas (e velhas) formas de corrupção. As formas de democracia participativa foram cooptadas, neutralizadas no domínio das grandes infraestruturas e megaprojetos e deixaram de motivar as gerações mais novas. As políticas de inclusão social esgotaram-se e deixaram de corresponder às expectativas de quem se sentia merecedor de mais e melhor. A qualidade de vida urbana piorou em nome dos eventos de prestígio internacional que absorveram os investimentos que deviam melhorar transportes, educação e serviços públicos em geral. O racismo mostrou a sua persistência no tecido social e nas forças policiais. Aumentou o assassinato de líderes indígenas e camponeses, demonizados pelo poder político como “obstáculos ao desenvolvimento”.
A Presidente Dilma foi o termômetro desta mudança insidiosa. Assumiu uma atitude de indisfarçável hostilidade aos movimentos sociais e aos povos indígenas, uma mudança drástica em relação ao seu antecessor. Lutou contra a corrupção, mas deixou para os parceiros políticos mais conservadores as agendas que considerou menos importantes. Foi assim que a Comissão de Direitos Humanos, historicamente comprometida com os direitos das minorias, foi entregue a um pastor evangélico homofóbico e promove uma proposta legislativa conhecida como “cura gay”. As manifestações revelam que, longe de ter sido o país que acordou, foi a Presidente quem acordou. Com os olhos postos na experiência internacional e também nas eleições presidenciais de 2014, a Presidente Dilma tornou claro que as respostas repressivas só agudizam os conflitos e isolam os governos. No mesmo sentido, os prefeitos de nove capitais já decidiram baixar o preço dos transportes. É apenas um começo. Para ele ser consistente é necessário que as duas narrativas (democracia participativa e inclusão social intercultural) retomem o dinamismo que já tiveram. Se assim for, o Brasil estará a mostrar ao mundo que só merece a pena pagar o preço do progresso aprofundando a democracia, redistribuindo a riqueza criada e reconhecendo a diferença cultural e política daqueles para quem progresso sem dignidade é retrocesso.

domingo, 16 de junho de 2013

Manuel Castells analisa as manifestações em São Paulo

A verdade é que passados 10 anos de  governos petistas ainda não temos sistemas de saúde, de educação e de transporte, públicos, com qualidade. Isto sem falar na questão da habitação popular, entregue aos interesses dos empresários da construção civil, pela via do programa "Minha Casa, Minha Vida". Lula deveria ter eleito uma dessas esferas e tê-la revolucionado. Seria uma marca digna das esquerdas ao serem alçadas ao poder. Em vez disso, nos embrenhamos pela via conservadora, varguista, onde o emprego se torna a principal conquista. É pouco, para as tantas e tamanhas esperanças, que tínhamos.

Fonte:  fronteiras

Sociólogo espanhol, Manuel Castells esteve no Fronteiras do Pensamento 2013 para a conferência Redes de indignação e esperança, homônima à sua mais recente obra, a ser lançada no Brasil em setembro (editora Zahar). Em São Paulo, no preciso momento de sua fala no Teatro Geo (11/06), a Avenida Paulista era espaço de tensão entre a polícia militar e os manifestantes contra o aumento das passagens de ônibus. Questionado pelo público sobre o que estava acontecendo na cidade, Manuel Castells respondeu:
Todos estes movimentos, como todos os movimentos sociais na história, são principalmente emocionais, não são pontualmente indicativos. Em São Paulo, não é sobre o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior. Por isso, meu livro se chama REDES de indignação e de esperança. O fato provoca a indignação e, então, ao sentirem a possibilidade de estarem juntos, ao sentirem que muitos que pensam o mesmo fora do quadro institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe, mas seguramente não é o que está aí. Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas. Não é a velha história da democracia real, não. Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados.
Então, quando há qualquer pretexto que possa unir uma reação coletiva, concentram-se todos os demais. É daí que surge a indicação de todos os motivos - o que cada pessoa sente a respeito da forma com que a sociedade em geral, sobretudo representada pelas instituições políticas, trata os cidadãos. Junto a isso, há algo a mais. Quando falo do espaço público, é o espaço em que se reúne o público, claro. Mas, atualmente, esse espaço é o físico, o urbano, e também o da internet, o ciberespaço. É a conjunção de ambos que cria o espaço autônomo. Porém, o espaço físico é extremamente importante, porque a capacidade do contato pessoal na grande metrópole está sendo negada constantemente. Há uma destituição sistemática do espaço público da cidade, que está sendo convertido em espaço comercial. Shopping centers não são espaços públicos, são espaços privados organizando a interação das pessoas em direção a funções comerciais e de consumo. Os cidadãos resistem a isso.
Veja que interessante é o caso da Praça Taksim e do Parque Gezi, em Istambul. Há meses, eles estão protestando contra a destruição do último parque no centro histórico da cidade, onde seria construído um shopping center, um complexo dedicado aos turistas, que nega aos jovens o espaço que poderiam ter para se relacionar com a natureza, para se reunir, para existir como cidadãos. Portanto, é a negação do direito básico à cidade. O direito, como disse Henri Lefebvre, de se reunir e ocupar um espaço sem ter que pagar, sem ter que consumir ou pedir permissão a autoridades. Por isso, tenta-se ultrapassar a lógica da liberdade na internet à liberdade no espaço urbano.
Eu não posso opinar diretamente sobre os movimentos que estão acontecendo neste momento aqui em São Paulo, mas há algumas características de tentar manifestar que a cidade é dos cidadãos. E este é o elemento fundamental em todas as manifestações que eu observei no mundo.
O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais. E o virtual sempre acaba no espaço público. Essa é a novidade. Sem depender das organizações, a sociedade tem a capacidade de se organizar, debater e intervir no espaço público.

sábado, 15 de junho de 2013

Manifesto contra a violência da PM nos protestos de jovens pelo transporte público


A ação da Polícia Militar do estado de São Paulo em protesto de jovens contra o aumento das tarifas da passagem do ônibus, metrô e trem na capital paulista é mais um episódio na história de violência e desrespeito ao direito de organização e manifestação.

O direito de manifestação sofre permanente ameaça no país, mesmo depois de 25 anos de promulgação da Constituição Federal, o que demonstra que a democracia ainda não está consolidada no país. A PM do estado de São Paulo, controlada pelo PSDB, mantém os métodos que desenvolveu na ditadura militar, reprimindo manifestações, efetuando prisões políticas de cidadãos e estimulando tumultos, inclusive com infiltrações para desmoralizar a luta e organização popular.

Não podemos esperar um comportamento democrático de uma PM liderada pelo PSDB que, em janeiro de 2012, mobilizou helicópteros, carros blindados e 2 mil soldados do Batalhão de Choque para fazer a reintegração de posse violenta de 1600 famílias que viviam desde 2004 no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos (97 km de SP).

A legitimidade do protesto dos jovens contra o aumento das tarifas não pode ser desmoralizada por causa de ações equivocadas de uma minoria, que infelizmente não compreende que a sociedade está do lado daqueles que querem transporte barato e de qualidade para a população de São Paulo.

Apesar desses acontecimentos pontuais, a responsabilidade pela violência nos protestos é da Polícia Militar, que tem provocado o conjunto dos manifestantes, promovido o caos e agredido cidadãos que estão nas ruas exercendo o seu direito de manifestar de forma pacífica.

Esses protestos são importantes porque colocam em xeque uma questão central para a população da cidade, que é a mobilidade urbana. Os paulistanos perdem horas e horas todos os dias dentro de um carro ou ônibus parados no trânsito ou de um vagão de metrô e trem lotados. Horas que poderiam ser destinadas para ficar com a família ou para cultura, esporte e lazer, das quais são privados por causa de uma clara opção que privilegia o transporte privado e individual em detrimento do público e coletivo.

O histórico crescimento desordenado da cidade, o trânsito causado pelo número de carros nas horas de pico, a falta de linhas de metrô/trem, a baixa qualidade do sistema e a chantagem das empresas privadas concessionárias de ônibus, as altas tarifas do transporte público representam um problema social, que prejudica o conjunto da população, especialmente os mais pobres, que moram na periferia.

A lentidão da expansão do metrô é uma questão crônica da gestão do PSDB, que construiu apenas 21,6 Km de linhas do metrô, o que representa uma média de 1,4 km por ano. Com isso, São Paulo tem a menor rede metroviária entre as grandes capitais do mundo (apenas 65,9 km).

A gravidade dessa questão fez com que a mobilidade urbana fosse um dos temas centrais da campanha eleitoral para a prefeitura no ano passado. E o candidato Fernando Haddad, que acabou eleito, prometeu dar respostas que tocassem na raiz do problema.

A movimentação da prefeitura para adiar e realizar um aumento da passagem do ônibus abaixo da inflação do último período, dentro de um quadro de pressão das empresas concessionárias, não atende os anseios criados com a derrota dos setores conservadores nas eleições em São Paulo.

A resolução da questão urbana exige medidas estruturais, como a efetivação de um modelo de desenvolvimento, que prescinda o estímulo à indústria automobilística, e a implementação do controle direto sobre as tarifas por meio da municipalização dos transportes. Com isso, se evita soluções paliativas como a subvenção das concessionárias, financiando setores cujo interesse em lucrar se choca com a possibilidade de um sistema de transporte que atenda as necessidades da população.

Por isso, os protestos realizados pelos jovens ganham importância, uma vez que representam um sintoma do problema e constituem uma força social que pode apontar e sustentar mudanças estruturais na organização territorial e na mobilidade urbana. Essas mobilizações são um instrumento de pressão sobre as autoridades, para sustentar um processo de negociação, especialmente com a prefeitura, que esperamos que possa render conquistas para a população e acumular forças para novas lutas que virão.

Nesse processo, a mídia burguesa e os setores conservadores colocam uma cortina de fumaça sobre as soluções estruturais para as quais apontam os protestos, com a execração pública dos atos realizados por uma minoria. Esse tipo de cobertura coloca luz sobre os vínculos dos meios de comunicação da burguesia com as empresas automobilísticas (interessadas em vender mais carros), com as empresas privadas concessionárias de transporte (que lucram com a chantagem sobre a prefeitura) e com a especulação imobiliária (contrária à reorganização territorial).

Assim, manifestamos nosso apoio aos protestos dos jovens em defesa do transporte público, dos quais queremos contribuir para garantir a massificação e manifestação organizada e pacífica, condenamos a ação violenta da Polícia Militar, cobramos a libertação dos presos políticos e rechaçamos o aumento das tarifas de ônibus, metrô e trem.

ABGLT- Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
Consulta Popular
Fora do Eixo
JCUT- Juventude da Central Única dos Trabalhadores
JPT/SP- Juventude do Partido dos Trabalhadores da cidade de São Paulo
JSOL - Juventude Socialismo e Liberdade
JUNTOS!
Levante Popular da Juventude
MAB- Movimento dos Atingidos por Barragens
MST- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
PJ- Pastoral da Juventude
PJMP- Pastoral da Juventude do Meio Popular
Quilombo
REJU- Rede Ecumênica da Juventude
UBES- União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
UJR- Partido Comunista Rebelião
UJS- União da Juventude Socialista
UNE- União Nacional dos Estudantes

*Organizações/entidades que quiserem informar que aderiram ao manifesto devem enviar e-mail para nacional@levante.org.br
** Quem quiser assinar o manifesto deve acessar a página http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2013N41381 (ou clique aqui)

As Cidades Rebeldes



Por
David Harvey


Um grande teórico das metrópoles contemporâneas contesta hipóteses conformistas e vê nestes centros, colonizados pelo capital, laboratórios de outra sociedade
Entrevista a John Brissenden e Ed Lewis, do New Left Project | Tradução: Daniela Frabasile e Laís Bellini
Acaba de sair (por enquanto, em inglês), um livro indispensável para quem quer debater crise do capitalismo, degradação social e ambiental das cidades e busca de alternativas. Numa obra curta (206 páginas), intitulada “Cidades Rebeldes”, o geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey sustenta pelo menos três ideias polêmicas e indispensáveis, num tempo de crise financeira, ataque aos direitos sociais, risco de desastre ambiental e… rebeliões contra o sistema. Elas estão expostas em detalhes em entrevista que Harvey concedeu a John Brissenden e Ed Lewis, do excelente site britânico New Left Project.
A primeira provocação do geógrafo – que é também um dos grandes estudiosos contemporâneos de “O Capital”, de Karl Marx (veja a área especialmente dedicada ao tema, em seu site) – diz respeito ao papel das grandes metrópoles. Harvey discorda de dois tipos de pessimismo. Estes grandes centros para onde fluem as multidões de todo o mundo no século 21, diz ele, são bem mais que templos da desigualdade, da vida automatizada e cinzenta, da devastação da natureza.
É a elas que afluem – e lá que se articulam — as multidões às quais o capital já não oferece alternativas. Esta gente estabelece novas formas de sociabilidade, identidade e valores. É nas metrópoles que aparecem a coesão reivindicante das periferias; novos movimentos como Occupy; as fábricas recuperadas por trabalhadores em países como a Argentina; as famílias que fogem ao padrão nuclear-heterossexual-monogâmico. Nestas cidades, portanto, concentram-se tanto as energias do capital quanto as melhores possibilidades de superá-lo. Elas não são túmulos, mas arenas. Aí se dá o choque principal entre dois projetos para a humanidade.
A segunda hipótese de Harvey diz respeito à própria (re)construção de um projeto pós-capitalista. O autor de Cidades Rebeldes está empenhado em identificar e compreender formas de organização social distintas das previstas por um marxismo mais tradicional. Ele reconhece: ao menos no Ocidente, enxergar na a classe operária fabril o grande sujeito da transformação social equivale quase a um delírio. É preciso buscar sentidos rebeldes nas lutas por direitos sociais empreendidas por um leque muito mais amplo de grupos e movimentos. Não cabe nostalgia em relação às batalhas dos séculos passados: é hora de tecer redes entres os que buscam de muitas maneiras, nas cidades, construir formas de vida além dos limites do capital.
Mas esta abertura ao novo não significa, diz Harvey (e aqui está sua terceira provocação fundamental), aderir a modismos. O autor saúda o surgimento de uma cultura da horizontalidade e da desierarquização, nas lutas sociais. Mas sugere: para enfrentar um sistema altamente articulado, será preciso construir, também, visões de mundo e projetos de transformação que não podem ser formulados no chão de uma assembleia local de indignados. Harvey teme que o horizontalismo – grosso modo, a noção de que tudo deve vir das bases e ser debatido em assembleias – acabe se transformando num fetiche. Seria, ele adverte, refazer pelo avesso a obsessão dos antigos Partidos Comunistas pela autoridade e centralização. A entrevista completa vem a seguir (A.M.).

“Rebel Cities: from the right to the city to urban revolution”, Verso, Londres, 206 páginas, U$ 13,95

John: Você diria que há um argumento central em “As Cidades Rebeldes: Do direito à cidade à Revolução Urbana”, ou o livro reúne diversos temas?
David Harvey: Um pouco dos dois. Se há um argumento central, ele está nos capítulos 2 (“As raízes urbanas das crises capitalistas”) e 5 (“Reivindicando a cidade para a luta anticapitalista”). O capítulo 2 é essencialmente sobre as relações entre capital e urbanização; o 5, sobre a oposição entre o capital e a urbanização. O conflito de classes está basicamente nos capítulos 2 e 5.
John: Você fala sobre as rendas do monopólio e as contradições intrínsecas a esse processo. Poderia explicar essas contradições e o significado delas para sua análise?
David Harvey: Argumenta-se que capitalismo tem a ver com competição, algo muito repetido e valorizado. Mas basta falar com um capitalista para descobrir que ele prefere o monopólio, se houver essa possibilidade. O que existe na verdade, por parte do capital, é uma incessante tentativa de evitar situações competitivas por meio de algum truque monopolista.
Por exemplo, o fato de dar nome e marcas produtos é uma tentativa de colocar neles um selo do monopólio, É por isso temos o swoosh do Nike [a seta estilizada que caracteriza a marca], ou ícones parecidos, que tornam certos produtos diferentes de qualquer outra coisa. Esta tendência ao monopólio é permanente. Ao escrever A Arte da Renda, eu quis chamar atenção sobre como os capitalistas gostam de chamar algo de original, autêntico, único. Eles adoram o “marketing da arte”. Há, portanto, um fluxo enorme de capital em direção a qualquer coisa que se possa facilmente monopolizar.
John: Mas uma vez que esse processo começa…
David Harvey: Bem, num certo aquilo que não era uma mercadoria de marca transforma-se em algo menos exclusivo, uma commodity. Esta tensão sempre existe. Veja, por exemplo, a modernização dos portos urbanos. O primeiro processo foi muito bom, todos diziam “que interessante”. Agora, quando você a muitas cidades do mundo e lhe perguntam: “viu o porto?”, você responde: “Vi um, vi todos”. E Barcelona não parece mais tão única quanto antes, porque seu porto [modernizado] se parece com qualquer outro. Rotterdam, Cardiff e, claro, Londres, têm um. Não é mais uma coisa única, se tornou apenas um tipo de taxa urbana comum.
John: Você argumenta um espaço se abre, nessa tensão…
David Harvey: Sim, acho, por exemplo, que a qualidade de vida em uma cidade frequentemente é algo definido por seus habitantes, sua forma de vida, seu modo de ser. Para que isso se torne único, o capital depende da inventividade de uma população para fazer algo, para fazer algo diferente. O capital tende a ser homogenizante. As pessoas frequentemente fazem o diferencial, produzem atrações únicas, existe um tipo de relação aí. Isso significa que os movimentos populares podem ter espaço para florescer, para tentar definir alguma coisa que é radicalmente diferente.
John: Você pode apontar exemplos de onde isso está acontecendo?
David Harvey: Sim. Em Hamburgo, existe uma área, o bairro St. Pauli, que era cheio de squats [ocupações de prédios abandonados, em geral feitas por jovens e imigrantes]. Eles criaram um ambiente único, muito diverso. Múltiplas etnias, classes, uma vida urbana muito intensa. O setor imobiliário, muito presente em Hamburgo, havia transformado a cidade em algo muito homogêneo. De repente, perceberam que existe esse bairro incrível, e agora estão tentando apropriar-se dele, comprando casas e alugando-as por um preço diferenciado, porque “não é interessante viver nesse bairro vibrante?”. Esse tipo de coisa você vê nas cidades a toda hora: as pessoas criam um bairro único, ele se torna burguês e entediante.
John: Sabemos que, no interior do capitalismo urbanista, há forças de compensação muito poderosas. Como podemos reverter sua lógica?
David Harvey: Um exemplo: o movimento Occupy desencadeou, em Nova York, uma resposta policial muito feroz e realmente exagerada. Basta você tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor – e são bem agressivos.
Tentei entender por que. Quando os Giants venceram o Superbowl [campeonato nacional de futebol americano], as pessoas tomaram as ruas, interromperam a atividade normal de maneira ainda mais clara e a polícia não fez nada. “Ah, eles estão apenas comemorando”. Mas o Occupy cria, por seu significado político, uma resposta violenta. E se você pergunta por quê, sinto que Wall Street enerva-se muito com a possibilidade de esse movimento virar moda. Se isso ocorrer, haverá uma clara demanda para responsabilizar pessoas por muito do que aconteceu à economia. E o pessoal de Wall Street sabe o que fez, sabe que tem responsabilidade e que pode acabar preso. Penso que dizem ao prefeito e a todas as demais autoridades: “acabe com esse movimento antes que vá longe demais”. Isole-o, faça com que pareça muito violento. Então você acaba com esse tipo de resposta política.

John: Que outras qualidades do movimento Occupy lhe parecem particularmente significativas?
David Harvey: Eu estive fora ano passado inteiro, realmente não acompanhei o Occupy em seu período mais ativo nos Estados Unidos. Mas algo que fizeram foi chamar muita atenção para a questão da desigualdade social, para os bônus enormes pagos aos altos executivos. Estes conceitos estão se espalhando. Antes do Occupy,nada disso era discutido. Agora o Partido Democrata nos Estados Unidos, e até Obama, estão dispostos a tratar a desigualdade social como um problema. Os acionistas das grandes empresas estão começando a votar contra os grandes pacotes de bônus. Acho que tudo isso foi consequência da agenda criada pelo movimento. Mas, como sempre acontece, os poderes políticos cooptam parte do discurso contra o sistema e tentam diluí-lo. Vivemos agora uma fase de certa cooptação, em que os acionistas estão assumindo parte da retórica e Obama, outra parte
Ed: Sobre isso, estamos interessados em suas discussões sobre estratégia. Como ponto de partida, é claro que a concepção tradicional que a esquerda tinha, da classe operária industrial como sujeito revolucionário e agente de mudança, não se encaixa mais no Ocidente. Você pode contar como reconcebeu o sujeito revolucionário, quem pode constituí-lo hoje e como está relacionado às cidades e à identidade urbana?
David Harvey: Para tratar deste tema, faço uma pergunta: quem está produzindo e reproduzindo a vida urbana? Se você olhar para o tipo de produção que prevalece hoje, definirá o proletariado de maneira totalmente distinta da que se contentava em associá-lo ao trabalhador fabril.
Este é o passo necessário. A partir daí, é possível pensar em quais formas de organização são possíveis hoje, entre as novas populações urbanas. Elas são mais difíceis de organizar, precisamente porque não estão em fábricas. Por exemplo, a imensa quantidade de trabalhadores que atuam no transporte de produtos e pessoas, de caminhoneiros a taxistas, Como organizá-los?
Há algumas experiências interessantes a respeito, em Nova York e Los Angeles. Politicamente, não é possível falar num sindicato nos termos tradicionais, é preciso criar organizações diferentes.
Ou tomemos o caso dos empregados domésticos. É extremamente difícil organizá-los, particularmente quando são, como em muitos países do Norte, ilegais. Porém, são uma força de trabalho bastante significativa, em muitas cidades. Parte do que estou dizendo é que todas estas formas de trabalho desenvolvem-se nas cidades e são vitais para a reprodução da vida urbana. Por isso, deveríamos nos preocupar em organizar politicamente estes trabalhadores, para influir na qualidade e natureza da vida nas cidades. Em alguns casos, a organização é muito difícil; em outros, pode ser muito vigorosa, mas assume frequentemente formas muito distintas das tradicionais.
Ed: Você acha que a esquerda está mergulhada neste tema, em compreender os desafios e oportunidades com que nos deparamos?
David Harvey: Penso que, historicamente, a esquerda sempre estabeleceu algum tipo de separação entre o que você poderia chamar de organizações de trabalhadores, ou baseadas em classes, e movimentos sociais. Uma de minhas batalhas nos últimos 30 ou 40 anos tem sido dizer que é preciso enxergar estes movimentos como movimentos de classe. Penso que houve uma relutância a aceitar isso, em muitos setores da esquerda.
Veja que esta relutância diminuiu, inclusive em razão da rapidez com que o trabalho fabril desapareceu. Quando cheguei em Baltimore, em 1969, havia algo como 35 mil operários na fábrica de aço. Quinze anos depois, eram 10 mil e na virada do século, apenas 2 mil. Se você quisesse organizar algo politicamente em 1970, você abria um diálogo com o sindicato dos metalúrgicos, porque eles tinham musculatura. Hoje, são irrelevantes. Mas se o sindicato já não conta, como organizar os trabalhadores? Diante desta questão, penso que a esquerda passou a compreender e valorizar melhor os movimentos sociais.
Ed: Em relação às dificuldades na organização dos grupos de que estamos falando, você investigou uma grande variedade de movimentos, em momentos diferentes. Existem lições particulares que devam ser generalizadas?
David Harvey: A maioria dos grupos desse tipo aparece como de organizações por direitos sociais. Sob esse guarda-chuva, eles podem criar formas organizativas menos restritas que as dos sindicatos convencionais. Agora, uma das coisas que vi em Baltimore foi que um movimento de sindicatos convencionais pode ser hostil a essas novas organizações. O movimento sindical convencional dividia-se: algumas vezes eles apoiavam; mas era mais comum considerarem essas formas de organização como uma ameaça a si próprios.
Penso que hoje, o movimento sindical convencional está preparado para enxergar essas organizações como cruciais para apoiar suas lutas. Começa a surgir um tipo de coalizão. Na marcha do Primeiro de Maio realizada em Nova York, há pouco, pessoas tradicionalmente ligadas ao movimento sindical juntaram-se aos movimentos sociais.
Sou muito a favor de uma forma diferente de organização sindical, de preferência local, e não por setor. Acredito que os sindicatos convencionais devem prestar mais atenção aos conselhos de comércio locais e aos conselhos municipais. Os sindicatos tendem se preocupar apenas com o bem estar de seus membros, e uma organização geográfica precisa pensar no proletariado em geral, na cidade. Desse ponto de vista, uma forma de organização diferente pode abranger uma cidade inteira, e unir pessoas  envolvidas em sindicatos diferentes, com todas as suas diferenças, em um tipo de sindicato da cidade, ou uma organização política da cidade.
Ed: No capítulo 5 do novo livro, você relaciona algumas de suas hipóteses sobre organização urbana às dificuldades enfrentadas pelas formas tradicionais de organização da esquerda.  Não apenas no que diz respeito a diferente composição do proletariado, mas também nas relações com organizações autônomas, como cooperativas; ou na dificuldade para atuar na esfera estatal. Você parece sugerir que as cidades são locais de organização especialmente poderosos, e se fosse possível organizar uma cidade inteira, então possivelmente estaríamos muito empoderados. Por que você acha que as cidades são tão importantes? As cidades radicalmente isoladas não sofreriam da mesma vulnerabilidade das cooperativas?
David Harvey: Gosto de pensar nas cidades porque são uma escala maior que uma simples fábrica. Se você observar as fábricas recuperadas na Argentina, tomadas pelos trabalhadores em 2001-2002, verá que uma das dificuldades que surgiriam desse movimento e das associações de trabalhadores envolvidas é que, em certo ponto, como estão imersas num sistema capitalista, vêem-se envolvidas na competição e, em consequência, em práticas de auto-exploração.
Marx tem uma série de passagens interessantes, onde diz que o primeiro passo em direção a uma transformação revolucionária é a tomada dos meios de produção pelos trabalhadores; mas se ficarmos apenas nesse nível, não será suficiente. Se você começar a pensar em organizar uma cidade inteira (e isso está começando a acontecer um pouco na Argentina), as fábricas precisarão de matérias primas — se você está produzindo camisas, precisa de tecido. Mas de onde vem o pano? Bem, você começa a criar uma rede; monta uma rede de cooperativas produzindo coisas diferentes, interligadas.
Você pode imaginar que podem surgir, em uma área metropolitana, economias interligadas dessa forma, o que nos levaria além das possibilidades de tomar apenas uma fábrica específica. Outro fato interessante sobre as fábricas na Argentina é que quando foram tomadas, não permaneceram simplesmente como fábricas. Tornaram-se centros comunitários, integraram realmente os bairros próximos, tinham programas educacionais e culturais. Quando os donos voltaram, uns cinco anos depois, e disseram “queremos nossa fábrica de volta ou levaremos as máquinas”, a população saiu de suas casas para impedi-los. Assim, é muito mais fácil de defender as fábricas tomadas.
Claro que se você tentar criar uma cidade totalmente comunista no meio do capitalismo, provavelmente irá sofrer uma repressão real e violenta. Estará numa situação como a da Síria, em uma cidade como Homs onde há um movimento de oposição muito forte. De certa forma, é uma cidade rebelde, cercada pelo exército e esmagada, com pessoas mortas e outras submetidas.
Penso que há perigo real em ir muito longe e muito rápido. Quão longe uma cidade pode ir, em relação a sua organização? Há exemplos disso: Porto Alegre construiu sua forma orçamento participativo, e agora há orçamento participativo em muitas cidades do mundo. Não é uma medida revolucionária, apenas uma medida transformadora que aprofunda a democracia urbana.
Esse movimento tornou-se significativo. Algumas inovações ocorrem no campo ambiental. Outra cidade brasileira muito interessante é Curitiba, que trabalhou questões ambientais e tornou-se conhecida por organizar seu sistema de transporte coletivo de uma forma ecológica e  sofisticada. As inovações que vieram de lá também estão sendo implantadas em outras cidades. Você pode imaginar uma situação como essa nos termos do que chamo de “teoria dos cupins”[Harvey refere-se aos casos em que é possível corroer por dentro uma estrutura capitalista, sem alarde, até que ela entre em colapso], para transformação social. Esta cidade agora tem uma estrutura institucional diferente, e você começa a ver tais mudanças como algo que se espalha pela rede urbana.
Ed: No entanto, você também é crítico da teoria dos cupins…
David Harvey: É preciso sempre ter cuidado. Quando sou crítico, não estou desprezando. Sustento que algumas estratégias são boas, que as pessoas poderiam adotá-las, mas por outro lado temos que considerar as limitações da realidade. Em que momento você passa de uma “estratégia dos cupins”para outra? Uma das coisas em que realmente me empenhei, no capítulo 5, foi tentar mostrar que há uma variedade de estratégias, para uma variedade de situações e propósitos. Não devemos, portanto, nos restringir dizendo: “esta é a única estratégia que vai funcionar”. Podemos adotar diversas, todas as que forem possíveis. Em alguns casos, não há outra opção além de se envolver em estratégia de cupins; e é possível, ainda assim, fazer um bom trabalho.
John: Você fala no livro sobre a cidade chinesa de Chongqing, onde Bo Xilai, líder do Partido Comunista, liderou processos muito interessantes, até ser afastado. Seria um exemplo dos riscos de ir “longe demais, rápido demais”?
David Harvey: Bem, eu não sou especialista em China, e me pergunto se ele era tão brutal e tão corrupto está sendo pintado; ou se o retratam dessa maneira porque não gostam do modelo que estava desenvolvendo. Era maoísta na retórica; estava muito preocupado com a redistribuição da riqueza. Estava muito claro que sua tentativa de se tornar poderoso no Comitê Central baseava-se no desenvolvimento deste modelo urbano particular,  radicalmente distinto do que se vê em Xangai, Shenzhen e lugares assim. Nesse aspecto, eu o achava muito interessante.
Agora, tanto quanto sei, o Comitê Central tem adotado, como políticas nacionais, algumas das práticas que Bo lançou em Chongqing. Isso é típico: como sabemos, há na China uma necessidade de incentivar o mercado interno  e alguma preocupação sobre redistribuição da riqueza. Eles observaram um processo local bem-sucedido e talvez tenham decidido enfrentar estes problemas por meio de aumento salários ou construção de habitações, como Bo estava fazendo. Pode ser o modelo chinês de urbanização, que tem sido, na minha opinião, bastante desastroso — ambiental e mesmo economicamente — mude nos próximos anos, nas mesmas linhas que o dirigente afastado estabeleceu. Mas ressalto que são apenas especulações.
Ed: Quero voltar para o que você afirmou sobre abraçar uma pluralidade de estratégias, e uma diversidade de formas organizacionais. Você tem participado de um debate permanente, e às vezes ácido, opondo “horizontalistas” a “centralistas”, ou “verticalistas”. Pode falar mais sobre isso, e como se relaciona a sua análise sobre capitalismo e cidade?
David Harvey: Acho que há hoje um grande apego pela horizontalidade. Tento dizer a meus alunos que gosto de passar grande parte da minha vida no horizontal, mas também gosto de ficar de pé de vez em quando e andar por aí! Porque acho que esta oposição não é útil. Sou a favor de ser tão horizontal quanto você puder. Mas há o que chamo no livro de uma espécie de fetichismo da forma de organização — o que foi terrível nas concepções de centralismo democrático dos partidos leninistas e comunistas.
Repito: a questão é para mim, identificar que tipo de organização será capaz de enfrentar e resolver cada tipo de problema. Acho que a horizontalidade pode ajudar a resolver alguns problemas, em certas escalas, mas não funciona em outras situações. Vivemos num mundo onde há um sistemas muito estruturados, a de maneira que você também precisa de estruturas de comando e controle para lidar com eles. Por exemplo, uma estação de energia nuclear é um sistema fortemente estruturado. Quando algo dá errado, você precisa reagir imediatamente, caso contrário tudo acontece muito rápido e explode. A universidade não é um sistema fortemente hierarquizado. Se algo der errado nela; se alguém não aparecer para uma palestra, por exemplo, isso importa pouco: a instituição sobrevive perfeitamente bem. Mas em sistemas fortemente hierarquizados, você precisa tomar decisões com rapidez.
Por isso, pergunto aos horizontalistas radicais: você quer organizar o controle de tráfego aéreo por meio de princípios horizontalistsa? Quer ter assembleias o tempo todo, na torre de controle de tráfego aéreo? Será que funciona? Como você se sentiria se estivesse no meio de um voo cruzando o Atlântico, e de repente dissessem: “bem, os controladores de tráfego aéreo estão em assembleia, e eles vão nos informar amanhã o que decidiram”? Há muitas atividades que precisam, como essa, de formas bem diferentes de organização. Acho ótimos que as pessoas estejam debatendo horizontalidade, mas é ruim que digam algo como: “ou é horizontal, ou não é nada”.
Ed: Estas ideias vêm de um semi-anarquismo, de uma profunda suspeita diante de qualquer forma de autoridade. Você está dizendo,  basicamente, que ser um radical, um anti-capitalista, ainda é necessário reconhecer que às vezes a autoridade tem o seu papel?
David Harvey: Sim, claro: acho que a autoridade tem seu papel. O problema importantíssimo que se coloca é: como você controla uma autoridade? Quais são os mecanismos de revisão de mandatos e de controle? Porque uma estrutura hierárquica pode, de fato, tornar-se autoritária. Mas há uma grande diferença entre autoritarismo e autoridade. Eu acho que em certas situações, você precisa de alguém para exercer autoridade.
O exemplo ilustre de que muitas pessoas lembrariam são os zapatistas. Mas eles, militarmente, não são horizontais. Sobrevivem até hoje precisamente porque, se você tentar mexer com os militares, eles têm um comando muito bom e estruturas de controle com os quais podem resistir. Se você não tiver isso, será muito vulnerável. Uma das críticas que sempre foram feitas à Comuna de Paris é que, devido a uma espécie de anarquismo filosófico, não havia nenhuma autoridade central para defender a cidade inteira.
As pessoas defendiam seu distrito, mas não toda a cidade. Por isso as forças da reação puderam atacar: não havia nenhuma estrutura de comando e controle para resistir militarmente à invasão.
John: Você fala, no novo livro, sobre Murray Bookchin, e sua abordagem sobre uma saída para este problema de escala. 
David Harvey: Sou um geógrafo, e o pensamento anticapitalista na Geografia sempre foi predominantemente anarquista. Os anarquistas têm uma longa tradição de estar muito mais interessados em questões ambientais e urbanas que os marxistas. Eles exerceram, ao longo do tempo, muita influência sobre as práticas de planejamento. Figuras como Lewis Mumford, que vêm dessa tradição, exerceram muita influência —  inclusive sobre mim, obviamente. E Bookchin é seu herdeiro. Estou interessado em seus ensaios sobre municipalismo libertário: fala sobre formas horizontais de organização descentralizada mas, em seguida, fala também sobre a confederação das assembleias regionais. Foca sobre as necessidades das bio-religiões, em vez de se limitar a comunidades particulares.
Ou seja, ele está disposto a pensar em uma estrutura hierárquica de algum tipo, tenta falar sobre como os poderes foram atribuídos e como devem ser. Recorre a um pequeno truque teórico de Saint-Simon: diz que pode haver gerenciamento das coisas, não de pessoas. Que deve-se gerir, por exemplo, o abastecimento de água ou o saneamento uma região — mas não o que as pessoas fazem. É muito diferente da política real, mas a ideia, e o pensamento de Bookchin em geral — me parece muito interessante.
Participei, há duas semanas, de uma reunião em Nova York, com David Graeber. Murray Bookchin compareceu ao debate. Sua filha estava na platéia, e nós conversamos sobre reunir, num pequeno livro, uma seleção de escritos de Murray sobre o tema. Acho que é um momento muito bom para reintroduzir a tradição anarquista, que pode contribuir para o debate sobra algumas  questões mais amplas. Por exemplo, como você realiza tantas assembleias municipais e não coloca em questão o fato de algumas pessoas, com muitos recursos, converterem-se em ultra-ricos — enquanto muitos, sem recursos, reduzem-se a ultra-pobres?
Ed: Sua visão parece que, no fim das contas, será necessário um Estado. Parece que você acha que Bookchin talvez aceite isso, mas não pode admitir.
David Harvey: Sim. Você sabe: o que se parece com um Estado, é visto  como um Estado, e se expressa como um Estado… é um Estado! Há algo que se pode chamar de Estado capitalista, que poderíamos querer esmagar. Mas há, também, uma forma de organização diz respeito às relações entre diferentes assembleias e grupos. E no plano mundial, você também tem que pensar sobre certas questões como o aquecimento global. Precisam ser abordadas e compreendidas em plano global. Significa que certas  ideias sobre o que fazer têm de ser resultado de uma preocupação mundial.
John: Isso nos leva de volta a um ponto que abordamos antes, sobre as organizações com base geográfica. Existe uma oposição entre o urbano e o não-urbano?
David Harvey: Muitas pessoas me fazem essa pergunta. Elas dizem “a cidade não existe realmente hoje. Você está falando sobre o direito a algo que não existe na mais?” Ou: “você está falando sobre a cidade, por que não sobre o campo. Por que você não fala sobre as áreas rurais?”. Minha resposta é que, de fato, nos últimos cinquenta anos, nós nos tornamos um mundo totalmente urbano, e o que pode ter sido verdade há algum tempo — a existência de uma vida urbana e uma vida camponesa auto-sustentável, independente — desapareceu em grande parte. O que você vê é um contínuo entre o campo e a cidade. Na América Latina, por exemplo, se você está na área rural, as pessoas assistem aos mesmos canais na televisão, dirigem os mesmos carros. Isso é o que chamo de desenvolvimento geográfico desigual no interior do processo de urbanização.
E desse ponto de vista, você diz que as diferenças no interior das cidades são tão significativas quanto as diferenças entre a cidade e subúrbio, e o subúrbio e  as zonas não-urbanas. Há tantas diferenciações no interior do próprio processo de urbanização, que a diferença entre áreas ricas e favela é dramática — na realidade, mais dramática que a que existe entre o que acontece na cidade e fora dela.
Há formas de organização que refletem isso. O movimento dos trabalhadores sem-terra no Brasil tem conexões urbanas muito amplas e as leva muito em conta. Ele não se vê fora do mundo autônomo, mas como parte de um processo geral de urbanização. É como quero ver este processo. Há, em alguns lugares, tentativas de organizar uma cadeia de produção de alimentos para as cidades, que começa nos campos e passa por várias etapas. Vendendo a produção  diretamente aos supermercados, por exemplo — o que me parece uma ideia  muito interessante. Em El Alto [subúrbio popular de La Paz, Bolívia], um dos meus exemplos preferidos, a conectividade entre as pessoas que vivem na cidade e as que estão fora dela é muito, muito forte. Foi ampliada, nos últimos dez ou quinze anos, por causa do agro-negócio e a forma com que o campo tem se transformado em uma paisagem capitalista.
Ed: Então um urbanismo revolucionário uma forma universal de revolução política?
David Harvey: Eu diria que sim. A única razão pela qual me atenho à palavra “cidade” é que ela tem um significado icônico e é foco de sonhos e utopias. Ao mencioná-la, você está invocando o imaginário de uma cidade linda, uma cidade na colina, etc. Continuo com o termo “cidade”, mas entendo perfeitamente que, em um sentido estrito, diferenciado de todo o resto, ela essencialmente desapareceu.


Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra

Fonte: geledes

 por Mabia Barros

O post é na esteira do Dia dos Namorados e é um pensamento em construção. E como todo pensamento em construção, tem um quê de autobiográfico. Contudo, mais que isso, esta é uma observação que tenho feito e que, espero, consiga sanar minhas curiosidades acerca do tema muito em breve, num mestrado. :) Antes de tudo, explico o meu lugar de fala: cis, negra, heterossexual. Primeiro, vamos à Síndrome de Cirilo. Antes me referia a ela como um complexo, mas acredito que síndrome seja a nomenclatura mais adequada. Coloquei o link do post ótimo da Daniela Gomes, mas explico um pouco: Cirilo é o garotinho negro da novela infantil Carrossel, que passa toda a trama sendo humilhado e desdenhado pela menininha rica e loira, pela qual ele se interessa. Cirilo, apesar de humilhado e rejeitado, visivelmente não pertencente àquele grupo, se esforça para estar "à altura de sua amada" e sofre com a rejeição, mas não a compreende como racismo, apenas absorve a imposição de inferioridade e se ressente por não ser igual ao seu rival.
cirilo
Maria Joaquina e Cirilo em cena da novela Carrossel, exibida pelo SBT

Nesta relação Cirilo-Maria Joaquina há toda uma historicidade das relações "amorosas" entre homens negros e mulheres brancas, especialmente depois da abolição da escravatura. Estar com uma mulher branca é mudar de status, é evoluir, é ser aceito na roda dos "bem nascidos". Larissa Santiago falou sobre isso em Relações inter raciais – isso não é sobre amor. É preciso entender que os nossos gostos, que tanto dizemos que "não se discute", são construídos socialmente. São influenciados desde cedo pelo que aprendemos e vemos em casa, no cinema, na TV, nos quadrinhos, nas propagandas... E, convenhamos, vivemos num país cujo padrão de beleza hegemônico é eurocêntrico. O que beleza tem a ver com isso?! Numa era em que tudo é imagem, tem tudo a ver. Por mais que a pessoa diga que não escolhe x parceirx romântico baseado em aparência, no fundo, existe sim alguns critérios que x "pretendente" precisa ter. E os aspectos raciais estão intrínsecos nesse jogo. Ter o nariz de batata, a pele negra, o cabelo crespo... Claro que, aquelas consideradas "até que bonitas para uma negra" não sofrem tanto com o problema, por estarem dentro do estereótipo da mulher negra que é sexualizada e transformada em objeto de desejo. Sorte (?) da delas.
Mas é esta preferência (ou principalmente ela) pela mulher branca que leva à solidão da mulher negra. Ser preterida pelos brancos, ok. Mas os negros também preferem as branquinhas. São mais bonitas, né? Dá para fazer cafuné, brincar com os cabelos, os filhos não vão "sofrer" com o cabelo "duro", ele vai poder "clarear a família". Há até quem ache que o mestiço tem vantagens no Brasil. Como se diz na Bahia: Aonde?! Outra coisa que ouço bastante, infelizmente até de mim mesma, é que há poucos negros com que se relacionar nas classes média/média-alta. Eu acredito piamente que moro no bairro errado. rs Mas não deixo que isso impeça que eu conheça pessoas de outros lugares. Onde eu moro e no meio onde trabalho são mesmo raros os negros. Estamos começando agora. Mas, os poucos que vejo, usualmente namoram com uma menina branca. Não se reconhecem como negros ou acham que "esse negócio de raça é bobagem, somos todos humanos". Também tem os que me chamam de paranoica, mas estes eu converso com calma, até me entenderem... ;)
No frigir dos ovos, temos, por um lado, meninos que sofrem desde crianças para se adequar a um padrão irreal e meninas que, igualmente, se mutilam para tentar alcançar o padrão inalcançável e as que são rejeitadas. Tem que ver isso aí, produção!
Mabia Barros escreve sobre moda no Maxibolsa

Nota da CUT sobre os episódios relativos à tarifa de transporte coletivo

Fonte: cut

Para Central, falta de políticas públicas de mobilidade urbana é o real motivo das manifestações

Escrito por: CUT Nacional

 
As recentes manifestações contra as tarifas dos transportes coletivos em várias capitais brasileiras ganharam visibilidade por conta da repressão policial e da violência que deixaram centenas de feridos e um rastro de destruição, principalmente em São Paulo.
 
Milhares de pessoas foram às ruas reivindicar redução de tarifa inferior a cinquenta centavos. É evidente que esta não é a real razão dos atos. O que as manifestações e seus desdobramentos desastrosos revelam é uma população, em especial a paulista, cansada de ser vítima da falta de uma política de mobilidade urbana.
 
Os trabalhadores e trabalhadoras do Estado de São Paulo e de outras regiões do País não aguentam mais enfrentar longas e intermináveis filas de espera por ônibus, trens e metrôs sempre lotados e de péssima qualidade para ir e voltar do trabalho.
 
O poder público precisa criar canais de diálogo e de negociação com a sociedade para, juntos, debater e encontrar e saídas à questão da mobilidade urbana.
 
Nesse sentido, a CUT se dispõe a conversar com o poder público e apresentar propostas que contribuam para a solução do problema, melhorem a qualidade do transporte coletivo e, consequentemente, a vida dos trabalhadores/as e da população em geral. Sugerimos também a realização de uma conferência para discutir a mobilidade urbana.
 
Uma das responsáveis pela construção da recente democracia brasileira, a Central Única dos Trabalhadores reafirma a sua posição em defesa da liberdade de manifestação e destaca que a repressão policial em nada contribui com o processo.
 
A CUT repudia os episódios de violência entre a polícia e grupos isolados e reconhece que em todo movimento legítimo pode haver pessoas que deturpam seus objetivos, mas essas são exceções e não justificam a criminalização de manifestações e atos legítimos. Não é possível generalizar e punir todos pela inconsequência de alguns.
 
No final da tarde desta sexta-feira (14), a CUT entrou em contato com o prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que se comprometeu a receber lideranças do movimento. A CUT defende a formação imediata de uma mesa de negociação e entendimento entre os atores envolvidos (movimentos sociais e os governos) nas questões de mobilidade urbana. A Central está disposta a participar dessa mesa e contribuir com o processo de solução desses conflitos e atender às necessidades básicas da sociedade, caso dos transportes públicos.
 
São Paulo, 14 de junho de 2013.
 
Vagner Freitas                                            Sérgio Nobre
Presidente Nacional da CUT                    Secretário-Geral Nacional da CUT  

quinta-feira, 13 de junho de 2013

"Sois a Esperança", de Paul Craig Roberts - sobre o Estado Policial Estadunidense

Fonte: voltairenet

 Eis o apelo dramático dirigido aos seus leitores, por Paul Craig Roberts, uma das vozes mais autorizadas nos Estados Unidos, quando ele assisti ao descambar rápido do seu país para um estado policial de tipo Gestapo.


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Se há esperança, caríssimos leitores, ela está em Vós. Vocês tem a motivação para buscar a verdade.
Vocês podem raciocinar fora do formatado. Vocês podem ver para além da propaganda.
Vocês são os que restam com o senso comum que outrora era uma virtude geral Americana. Vocês vêm a este site, porque obtêm explicações que não fazem parte da agenda-teleguiada, que não são BS, que não são de direita ou de esquerda, conservadoras ou liberais, Republicanas ou Democratas. Vocês obtêm explicações baseadas na minha experiência vida e na minha formação académica. Alguns de vós são suficientemente jovens para possuírem a energia e a coragem necessárias para organizar a resistência, que for precisa, se um Estado de tipo Gestapo se começar a instalar nos Estados Unidos da América.
Até ao Regime de George W. Bush, eu nunca pensei que isto pudesse acontecer aqui. Eu não podia imaginar professores de Direito e dirigentes do Departamento de Justiça (sic) redigindo memorandos de Lei justificando, em nome de uma propagandeada “guerra ao terror,” a destruição dos direitos civis dos Cidadãos dos Estados Unidos. Nós éramos a terra dos livres. A Constituição era a nosso alicerce sólido. No entanto, a Constituição e o Bill of Rights foram facilmente tirados ao desatento povo Americano.
A Constituição não protegeu os habitantes nativos e os escravos que não eram considerados como parte da população Americana, mas a supressão geral nos E.U. dos direitos dos “não-brancos” produziu, no final, o movimento dos direitos civis que trouxe a consciência moral dos erros e incluiu com êxito a sua causa nos documentos fundacionais do país.
Onde está hoje a consciência moral quando Washington bombardeia populações civis à volta do globo? Onde está a consciência moral do movimento dos direitos civis quando o Primeiro Presidente Negro, o primeiro membro da classe oprimida a sentar- se no Gabinete da sala Oval, valida a asserção do Regime Bush do direito de um executivo sem rédea a ignorar o habeas corpus e um processo de Direito? Não satisfeito com este crime, Obama justificou o direito do braço do executivo a assassinar qualquer cidadão suspeito, sem que sejam mostradas provas num tribunal, de nebuloso “apoio do terrorismo.” Hoje todos os Americanos têm menos direitos que os negros tinham antes da Lei dos Direitos Civis.
Qualquer coisa, incluindo uma coluna critica sobre a guerra e o estado policial, pode ser declarado como estando “em apoio do terrorismo.” Tal como o tirano Bush o colocou: “ Ou vocês estão connosco, ou vocês estão contra nós.”
Os media da imprensa e da TV, e muitos sites da perceberam a mensagem: Sirvam a agenda de Washington e vocês terão êxito. A CIA e os anunciantes bombearão dinheiro para os vossos cofres. Desafiem-nos, e vocês serão demonizados e poderão enfrentar um tribunal militar, detenção indefinida, ou assassínio. Bradley Manning e Julian Assange estão a ser perseguidos por dizerem a verdade.
Até agora, Washington tem convencido o público que o terror está principalmente limitado aos Muçulmanos, que são obrigatoriamente demonizados pela imprensa, TV, e muita da media da Internet. Contudo, se os cidadãos Muçulmanos Americanos perderam as suas liberdades civis, o mesmo acontecerá ao resto dos cidadãos Americanos. Os únicos que estarão seguros são aqueles que forem aliados do tirano e que permanecerem subservientes.
Para estar aliado com o tirano, um cidadão dos Estados Unidos não poderá ter qualquer consciência moral, nenhum senso de justiça, nenhuma compaixão pelos inocentes e desafortunados. Estes são o pior tipo de Americanos; e assim, serão os únicos que poderão ser bem sucedidos no presente ambiente.
De cada vez que eu escrevo uma coluna que é a verdade, ou a verdade que sou capaz de descobrir a propósito, em vez de vender a linha da propaganda oficial, eu subo um escalão na lista dos que são persona non grata no Império.
Um colunista pode dar por si demonizado, e declarado um tolinho, simplesmente por reportar dados de distintos cientistas, arquitectos do maior nível, engenheiros de estruturas, emergêncistas, e uma coleção internacional de altos funcionários governamentais. Há não muito tempo atrás um colunista, ou repórter, do Huffington Post descobriu com surpresa que eu e Pat Buchanan, (colunista, figura da Direita americana, várias vezes candidato Republicano nas primárias e conselheiro de vários presidentes como Reagan e Bush – NdT), discordávamos a propósito de todas as guerras que foram lançadas para proteger-nos do terrorismo. Ele pediu-me uma entrevista, e eu acedi.
Uma hora ou tanto após a entrevista ser publicada no Huffington Post, recebi uma chamada telefónica de emergência, ou email. Ele tinha sido criticado por entrevistar- me, “por lhe ter dado audiência quando você é um céptico a propósito do 9/11 (11 de Set- ataque no WTC - NdT) .” Ele estava espantado em como era possível, para um nomeado pela presidência Reagan, ser um céptico do 9/11, (11 de Set. em inglês- NdT), e perguntou se eu o era.
Eu repliquei-lhe que tinha reportado os dados de cientistas, arquitectos, engenheiros, e o testemunho público de emergêncistas (médicos, para-médicos, bombeiros, polícias etc..,NdT), porque pensei que estas eram pessoas tão habilitadas a emitir uma opinião, pelo menos tão qualificada, como a dos políticos da Comissão do 9/11, ou das cabeças falantes da Fox “News” e da CNN, nenhuma das quais poderia ser aprovada nos testes de fim de Liceu em leis da Física, e muito menos em altos estudos de Arquitectura e Engenharia de Estruturas.
O colunista do Huffington Post entrou em pânico. Em vez de deixar cair a entrevista, ele sentiu-se compelido a assegurar aos leitores, e ao seu patrão, que tinha sido enganado. Ele escreveu, no início e no final da entrevista, que não sabia que tinha entrevistado alguém sobre a Guerra do Iraque que tinha apoiado aqueles teóricos da conspiração, que tinham levantado perguntas acerca da seriedade do governo dos E.U. Ele escreveu que as minhas opiniões sobre as guerras deveriam ser descartadas, porque eu escrevera que cientistas, arquitectos, engenheiros, e emergêncistas tinham fornecido provas contrárias às proclamações do governo.
E lá está.
O Huffington Post tem muito mais leitores do que eu, e muito mais dinheiro. Não há limite para a capacidade do Huffington Post propagar e vender as mentiras da Agenda oficialista.
Eu lembro-me de quando era um editor e colunista do Wall Street Journal, um colunista do Business Week, um colunista do Scripps Howard News Service e aparecia regularmente nos maiores media da imprensa políticamente correcta, e mesmo de tempos a tempos nos programas dos mestres-falantes das TV. Hoje em dia, o editor ou produtor que me desse audiência seria instantaneamente despedido, e todos eles sabem isso.
É desmoralizante que depois de tantas e tão claras orquestrações e mentiras – armas de destruição em massa, circuitos al-Qaeda, engenhos nucleares Iranianos – a maioria dos Americanos ainda acredite no governo. Agora os Americanos até engolem a teoria que a Síria é dirigida por um brutal ditador, cujo derrube justificará a aliança de Washington com o seu inimigo do 9/11 (11 de Set-NdT), a al-Qaeda, de modo a derrubar um líder secular que faz frente à mesma al-Qaeda.
Washington chega à pescadinha de rabo na boca. O seu anterior inimigo é agora o seu aliado. Washington estoirou triliões de dólares e um numero de vidas sem conta, em onze anos de guerra, e construiu um estado policial doméstico, tudo em ordem a combater a al Qaeda com quem agora está aliada contra o governo Sírio.
A resposta do público às Bombas na Maratona de Boston é ainda mais desmoralizante. Nem mesmo o Rei George e os seus Casacas Vermelhas [1] puderam conseguir o que a Homeland Security (Departamento de Segurança Interna – DHS em inglês, NdT) súbitamente montou – fechando 100 milhas quadradas de Boston e arredores com tropas pesadamente armadas, avançando através dos lares dos cidadãos gritando ordens à bruta, tudo justificado pela caça a um suspeito de 19 anos de idade. Foi a Gestapo do Terceiro Reich em operação, precisamente aqui, na América da “liberdade e democracia”. Ron Paul (ex-congressista pelo Texas, e ex-candidato presidencial, NdT) está correcto quando afirma que a suspensão da liberdade civil é um perigo maior que o atentado bombista. Repare-se no eufemismo do governo para lei marcial – ”shelter-in-place.” (algo como protecção-no-local, NdT)
Dois irmãos foram condenados nos media e pelo Regime Obama, incluindo as próprias declarações do presidente, por um atentado bombista, sem que ao público, sequer, tenham sido apresentadas quaisquer provas a não ser relatórios anónimos, não assinados, e um filme dos alegados irmãos caminhando com mochilas, os quais apareciam por todo o lado.
Eu tenho idade suficiente para me lembrar quando não era permitido ao governo, e aos media, condenar uma pessoa previamente ao veredicto do júri. Outrora, os Americanos viviam num país livre, governado pelo império da lei, na qual uma pessoa era presumida inocente até se provar culpada.
Qual foi a razão, ou prova essencial, para nomear os irmãos como suspeitos? Foi dada alguma razão, ou foi simplesmente o filme dos dois caminhando com mochilas mostrado vezes sem conta, hora após hora, dia após dia, com a media reportando que estes eram os suspeitos. Por outras palavras, ocorreu-vos pensar que eram suspeitos só porque eles ali estavam na filmagem? Se não, porque era o mesmo filme passado repetidamente? A Fox “News” ainda continuava a mostrar o filme a 26 de Abril, onze dias depois do atentado, e pode ainda continuar a exibi-lo. Por acaso não terão sentido: “Aqui estão os suspeitos. Vejam são eles. Eles carregam mochilas. Vejam. Sabemos que eles são os suspeitos, porque, vejam, ali estão eles.”
Quando foi a última vez que os media investigaram alguma coisa ? Boa candidata a investigação é a escalada pós-bombista em que, alegadamente, os irmãos entraram, roubando uma loja 7/11, (mais tarde desmentido pela policia local), matando um polícia do campus, alvejando um polícia de trânsito (policial de tráfico - br), sequestrando um SUV e libertando o dono.
Porque iriam terroristas, tentando escapar de modo a poder atacar de novo, chamar a atenção para si mesmos de forma tão estranha, e libertar o dono de um carro sequestrado para este alertar a polícia para o número da matricula? Se os irmãos estavam determinados a matar polícias a tiro, e inocentes à bomba, porquê libertar o fulano cujo veículo eles tinham roubado, que podia informar a polícia do número da matrícula, e tornar a sua captura mas fácil? Qual é a prova, para além de meros “relatos das autoridades,” que estes eventos ocorreram ou tiveram maior ligação aos irmãos que as falsas notícias do roubo de 7/11 que a policia local descartou ? Porque é que os media dos E.U. aceitam de forma simplista qualquer coisa que as autoridades governamentais digam?
Onde estão as provas do primeiro tiroteio e do segundo tiroteio ? O segundo tiroteio consistiu no bombardeio pelas autoridades de um jovem imobilizado, sangrando de ferimentos, num barco, com múltiplos lançamentos de granadas de choque e depois uma barragem de tiros. O jovem de 19 anos estava inconsciente, desarmado, e incapaz de responder ao dono do barco que o descobriu. Enquanto lá jazia, ele é baleado várias vezes, incluindo um tiro na garganta, e fica em cuidado de reanimação médica. Mas no dia imediato, de acordo com a media prostituída, ele fornecia já confissões escritas pela sua mão.
Foi propósito dos relatos da escalada criminosa o de criar o pânico entre a população, de modo a que esta aceitasse a lei marcial, e as revistas de casas por tropas armadas ordenando a saída de cidadãos Americanos de suas casas com as mãos por cima das suas cabeças, sob o pretexto que poderiam estar a albergando o Bombista da Maratona de Boston?
Os vídeos das celebrações de rua nas quais os Bostonianos agradecem à polícia, e o de duas famílias de Boston, que se não foram encenados por actores, mostram Americanos que longe de se oporem ao estado policial lhe dão as boas-vindas. Um pai afirma que, ele com a sua filha nos braços, foi forçado a sair da sua casa por tropas apontando espingardas automáticas às suas cabeças, mas que estava grato pela segurança que a policia lhe providenciava ao violar todos os direitos civis que a Constituição lhe outorga. Um mulher diz que estava assustada, mas que “ a polícia estava apenas fazendo o seu trabalho.” Estão os Americanos, agora, num tal estado de lavagem cerebral que atribuam a sua segurança a presença de um Estado de Gestapo Policial ?
Porque foram construídas instalações de detenção? Porque é que a Segurança Interna comprou um bilião ou mais de munições para espingardas? Porque é que a Segurança Interna tem uma força para-militar e 2.700 tanques de combate? Porque é que estas questões não têm sido investigadas?
A Constituição dos E.U. é o produto de 900 anos do esforço humano para restringir a tirania de governo e fazer o governo obedecer à Lei. Bush e Obama só precisaram de onze anos para se livrarem dela.
Tradução
Alva

Julian Assange - Los medios tradicionales de EE.UU. han renunciado a su tarea de vigilar los actos del poder

Algo no cuadra cuando el Pentágono, que debiera esforzarse por parecer poderoso, empieza a hacerse la víctima. Así ejemplifica Julian Assange la reacción inicial de la institucionalidad estadunidense ante las revelaciones masivas de documentos efectuadas por Wikileaks hace tres años. En contraste, el australiano pondera el poder que los nuevos sistemas de información pueden otorgar a los ciudadanos y lo caracteriza como el más importante campo de educación política masiva que haya existido jamás.

En cuanto a los medios tradicionales de Estados Unidos, siempre han sido muy corruptos y han renunciado a su tarea de vigilar los actos del poder: Son meros espacios para dirimir pleitos entre distintas facciones del régimen, acusa.

La plática con el fundador de Wikileaks tiene lugar en la paz de la embajada de Ecuador en Londres, en un amplio salón con ventanales elevados que dan a la calle. De pronto llega un rumor en sordina. El entrevistado aguza el oído, interrumpe la plática con gesto cortés y camina hacia el balcón. En la acera opuesta se ha hecho presente un pequeño grupo que enarbola retratos de Assange y corea consignas en favor de su liberación. El refugiado separa un poco la cortina y saluda a sus simpatizantes con un movimiento de mano suave, casi tímido, y hace con los dedos la V de la victoria. Permanece así unos momentos y luego vuelve al sofá monumental.

El saludo es parte de su rutina diaria desde el 19 de junio del año pasado, cuando se introdujo a la representación diplomática ecuatoriana, solicitó asilo político y dejó a sus perseguidores de Estados Unidos, Suecia y Gran Bretaña con un palmo de narices. Se inició, de esta forma, un diferendo diplomático en el que Washington no reconoce su parte y deja a Londres y Estocolmo el trabajo sucio de desconocer el derecho de asilo. La semana entrante el impasse cumplirá un año y el canciller ecuatoriano, Ricardo Patiño, viajará a la capital británica para tratar de destrabar el conflicto y de obtener de su contraparte inglesa un salvoconducto que permita al australiano abandonar el Reino Unido y viajar a Ecuador.

Antes hacían guardias de 24 horas, platica un colaborador de Assange en relación con los entusiastas que gritan en la calle su solidaridad. Ahora vienen todos los días.

La plática es interrumpida en otro momento, cuando los colaboradores de Assange llevan los primeros reportes sobre la filtración que acaba de hacer el ex empleado de la CIA Edward Snowden acerca de la extensa e ilegal red de espionaje telefónico y cibernético erigida por el espionaje militar estadunidense (National Security Agency, NSA).

Y reacciona el entrevistado: “Es muy interesante comparar esta reciente revelación, de la cual llevábamos años hablando, pero ahora hay muy sólida evidencia de ella, de esta orden de espionaje a todos los teléfonos, diario, a dónde habla la gente, a quién le marca, qué tipo de teléfonos tiene, que todo sea enviado diariamente a la NSA. Es una violación tan grande que incluye a todos los reporteros, a todas las dependencias, incluye a todos. Es una gran violación de… ¿cuál enmienda?, ¿la cuarta? [http://goo.gl/Txhcs] Bueno, es una violación a las protecciones constitucionales contra los registros ilegales y el decomiso; una violación tan grande como te puedas imaginar” [Ayer, Assange expresó su solidaridad con Snowden y le aconsejó que busque asilo en América Latina: http://goo.gl/tzt7b].

En 2010 Wikileaks hizo tres revelaciones demoledoras de documentos oficiales estadunidenses, muchos de ellos secretos hasta entonces: los correspondientes a las guerras de Irak e Irán, y los cables del Departamento de Estado. Rememora Julian Assange:

“La reacción del Pentágono fue hacerse la víctima, decir que estaba muy dañado y preocupado. Vimos a Robert Gates [secretario de Defensa estadunidense entre 2006 y 2011] casi al borde de las lágrimas, y eso parece haber sido reflejo de lo aterrados que estaban: sus malas acciones quedarían expuestas. Sabían que teníamos mucho material hasta entonces inédito, cientos de miles de documentos clasificados; no los habían leído todos, no sabían qué impacto tendrían, estaban aterrorizados ante lo desconocido y desarrollaron, dentro de Estados Unidos, una especie de neomacartismo que terminó por proyectarse al mundo externo. Fue interesante observarlo.

“Ahora bien: el Pentágono es una organización que se especializa en verse fuerte y poderosa para que sus amenazas tengan algún sentido. Básicamente, el Pentágono es un mecanismo de chantaje: amenaza con dominar físicamente países, o quitarles protección y dejarlos expuestos a la dominación de un tercero, o bien se involucra en la venta de armas a países vecinos, y amaga a gobiernos con dejar de venderles armas. En fin, es un aparato de intimidación, de aplicación de amenazas para obtener concesiones de muchos países e instituciones, y por eso debe verse fuerte todo el tiempo. Pero si hubiera por ahí integrantes de la mafia haciéndose las víctimas, ello significaría que la operación de la mafia no está funcionando. En suma, estaban aterrados.

La teoría de la crítica

“Algo más: hay un concepto de la teoría crítica [Critical Security Studies, CSS, o Estudios Críticos de Seguridad; ver http://goo.gl/xBrLN y http://goo.gl/63Xo0], no muy conocido, pero muy útil, llamado segurización [securitization]. Lo describiré en mis términos: todos estamos motivados por el miedo o el deseo de algo; esencialmente tenemos miedo o esperanza de ir hacia delante. El querer más de algo lleva, a causa del miedo, al alejamiento y a la repulsión. En un extremo, el miedo dominará por completo a la esperanza o el deseo. Y eso es porque en un extremo, el miedo es a perder la vida o las vidas de la gente que amas, y si pierdes la vida, todas tus esperanzas desaparecen. Si nos trasladamos de este nivel sicológico a una descripción política, una institución tomará una situación y tratará de extraerle valor al miedo, y a eso se le llama segurización: transformar una situación en amenaza contra la seguridad y luego proponer que la institución te puede salvar de la amenaza. Bien. La segurización es a lo que el Pentágono se dedica todos los días: buscar cualquier situación en el mundo que pueda segurizarse y decir que la solución al miedo es la protección con la fuerza de las armas. De modo similar, la policía intenta hacerlo con todas las circunstancias: la solución al asesinato, los robos, el espionaje, el fraude y algunas formas de terrorismo, es una fuerte y agresiva fuerza policial.

“Así que me preguntaba: este ataque sobre Wikileaks, con Hillary Clinton diciendo que nuestras publicaciones eran un ataque contra Estados Unidos y contra toda la comunidad internacional; con los ataques públicos y privados por parte del Pentágono, el Departamento de Estado y muchas otras organizaciones, ¿estaban simplemente segurizando la situación? ¿Intentando atraer más recursos, aterrorizar al establishment para que entregara más dinero? Algo había de eso, pero además estaban aterrorizados ante el surgimiento de una nueva percepción pública de su propio poder.”

–Hay una coincidencia interesante: las autoridades de Estados Unidos se victimizaban e inventaban o exageraban los daños causados por las revelaciones de Wikileaks; por otro lado, ese mismo año, Fidel Castro, después de la publicación de los registros de la guerra de Irak, dijo en dos entrevistas [con la directora de La Jornada, Carmen Lira, http://goo.gl/Ec2d, y con Telesur, http://goo.gl/dNXd2] que estábamos ante el arma más poderosa que haya existido, que es la comunicación, que ante ella las revoluciones armadas ya no son necesarias y que Wikileaks se merecía un monumento”. ¿Exageraba?

–Un poco. Es bonito escuchar esas palabras, pero… todo comienza con la verdad y sin ella el próximo paso es imposible. Pero al final todo se reduce a quién tiene el control de la fuerza coercitiva sobre un determinado pedazo de tierra en donde vive la gente.

“Tu correo electrónico está almacenado en Google. Tú pensarías que tu correspondencia con otras personas es un recurso importante para tu vida. Pero si está almacenado en servidores en California, donde Google tiene su sede, los tribunales en California, los tribunales federales, la Agencia Central de Inteligencia de Estados Unidos, ellos controlan eso. Aún así, la fuerza física coercitiva es importante. Y quién controla a la policía y los militares. Pero eso lo determinan las políticas de la información y los flujos económicos. La información es parte clave para determinar eso. Pero cuando ves estos reclamos de resistencia pacífica, puede ser que en varias circunstancias sean la forma más efectiva de controlar la aplicación de la violencia. Aunque, a fin de cuentas, sea siempre una lucha para controlar quién tiene la fuerza coercitiva.

“Regresando a Fidel Castro, estamos en una posición en la que, debido a los avances en la tecnología militar y policial, la diferencia entre un campesino con su rifle y un policía con sus arreos de kevlar es tan grande que no es fácil imaginar insurrecciones armadas sin el respaldo de un Estado. George Orwell escribió en 1945 un artículo, justo después del bombardeo de Nagasaki, comparando los diferentes tipos de tecnología militar. Los rifles, todos podían tenerlos; eran una tecnología militar bastante democrática. Si tienes más gente, tienes más rifles en acción. Y por tanto el éxito militar se relaciona bastante bien con cuánta gente tienes. Pero en el otro extremo, sólo unos cuantos estados son capaces de fabricar armas nucleares porque se necesita de grandes y muy centralizados procesos industriales, así que son una forma militar de tecnología en esencia antidemocrática.

–Pero hoy muchos tienen acceso a Internet, así como casi todos tienen acceso a un rifle.

–A diferencia de los avances en la tecnología militar y policial, que conforman una fuerza muy antidemocrática, está la transferencia horizontal de la información: casi cualquier persona que sepa algo lo puede comunicar, en teoría, a casi todos los demás, aunque las redes de distribución y la publicidad puedan interferir. Se ha creado el más importante campo de educación política masiva que jamás haya existido. El número de personas expuestas, el número de culturas expuestas, el número de idiomas expuestos, el puente geográfico es más grande que en ningún otro momento de la historia.

“La transición clave ocurrió como resultado del ataque contra Wikileaks y sus publicaciones. Si te regresas cuatro años, básicamente Internet era políticamente apática. Tenías pequeñas redes y algunos grupos políticos que lo usaban, pero en conjunto Internet era políticamente apática. Y la gente pudo percibir en tiempo real la guerra contra Wikileaks. Aunque no estuviera en la línea del frente, aunque fuera sólo desde los márgenes, el atestiguar los reclamos, los contrarreclamos, la acción, permitió una comprensión que va más allá de una lección o una lectura de historia. Nuestra lucha geopolítica, contra Estados Unidos y sus aliados, educó a una generación entera en Internet, los despertó a las realidades geopolíticas del mundo, y los despertó a que el Internet es un espacio político, en contraposición a que sólo sea un espacio de comunicación, como el sistema telefónico”.

–Un campo de batalla…

–Un campo de batalla, pero no un campo de batalla distante, sino un teatro de operaciones del que la gente forma parte, que también es suyo. Si hablamos de contribuciones aisladas, creo que ésta es la más importante de Wikileaks: transformar Internet de un espacio políticamente apático a un espacio político y, en el proceso, educar básicamente a toda una generación. Incluso gente de sesenta y tantos años me ha dicho: Porque observé lo que ocurrió, hoy veo el mundo de modo distinto. Pero especialmente las personas de entre 16 y 28 años sintieron que eran parte de ese drama político que se llevaba a cabo. Y muchos de ellos eran parte directa, porque distribuían información, se involucraban en las protestas virtuales. La gente joven estaba interesada, veía que los medios del régimen decían una cosa acerca de nosotros, y luego leían lo que nosotros decíamos al respecto, o leían los cables, o lo que decían sus amigos por correo electrónico, y veían un punto de vista completamente distinto, y tenían más confianza en nuestro punto de vista porque estaba basado en documentos de fuentes primarias que no mienten.

–¿Para qué sirve la verdad, Julian? ¿Para hacer que los sistemas políticos funcionen mejor o para acabar con ellos?

–¿Quieres una respuesta poética o lo abordamos desde otra perspectiva? [Ríe] La verdad es lo único que tenemos. No hay esperanza con nada más. Cada acción, cada decisión, cada pensamiento que tenemos, está basado en lo que percibimos, pero actúa sobre nuestra realidad compartida, en el mundo real. Así que si no estamos pensando la verdad, no pensamos en el mundo en el cual tenemos que actuar. Si no actuamos con base en la verdad, nuestras posibilidades de incidir en el mundo real serán azarosas.

¿Y qué hace la verdad? ¿Hace estallar a los sistemas políticos o permite reformarlos? Puede ocurrir cualquiera de esas cosas, dependiendo de hasta qué punto estos sistemas están basados en la verdad, o no. Si están principalmente basados en mentiras, si la verdad ha fracasado, será un colapso catastrófico (aunque también haya otros factores), como lo fue en Túnez y Egipto. Me parece que estos sistemas llegan a estar tan mal que colapsan. Debes ponerlos en una posición en la cual se expanden tanto que caen al precipicio. En esa medida, cualquier esfuerzo por una reforma que llegue a tiempo es una ventaja. Algunos de estos sistemas se pueden poner parches a sí mismos. Por otro lado, quizá cuando llegues a una posición en la cual puedas derrotarlos, tal vez ello no suceda, o bien ocurra que se expandan más, se vuelvan más dañinos, más poderosos y corruptos. Así que si crees poder conseguir un beneficio para la justicia, intenta hacerlo hoy mismo, porque no sabes cuándo vas a lograrlo.

–¿Hay en Estados Unidos un colapso de eso que se denomina el Cuarto Poder?

–El crecimiento de los medios alternativos, sobre todo en Internet, nos ha permitido ver qué tan corruptos son los medios del sistema. Ahora bien: ¿Puede lograrse con el recurso de Internet que sean más o menos corruptos? No estoy seguro. Por un lado, cuando se señala la corrupción, las imprecisiones, las mentiras y la propaganda, se afecta la reputación de los medios tradicionales, y entonces la información independiente actúa como un incentivo para que se porten mejor. Por otro lado, el mercado de la crítica del poder ahora está mejor atendido por nuevas publicaciones, así que los medios convencionales se sienten liberados de esa tarea; sienten que otros les han quitado ese negocio y encuentran innecesario seguir haciéndolo. De todos modos, recuerda que no lo pueden hacer muy bien: los medios convencionales siempre han estado en el negocio de una facción del sistema que critica a otra. Nunca han estado en el negocio de ser críticos del establishment per se. Siempre han sido muy corruptos.

The New York Times, un caso

“Veamos el caso de The New York Times (NYT): sabemos que en 2003 hubo una historia similar a la de Watergate, de escuchas ilegales; el NYT guardó la historia durante 18 meses para que pasara la relección de Bush. Sólo la publicaron cuando se enteraron de que una publicación rival estaba a punto de darla a conocer. Una institución como el NYT es, salvando la calidad de periodistas individuales, un espacio para que distintas facciones del sistema luchen entre sí en público, o para que hagan públicas sus posiciones. Por eso le gusta a la gente leerlo, no porque sea más preciso que otros periódicos. Comete constantes errores importantes e imprecisiones, y hasta publica historias fabricadas: dijo, por ejemplo, que había armas de destrucción masiva relacionadas con Al Qaeda. ¿Y por qué la gente se toma la molestia de leerlo? Porque lo que dice la gente poderosa es interesante. Si Obama o el CEO de Bank of America o Schmidt, de Google, dicen que los marcianos aterrizaron, sin evidencia alguna, es muy interesante porque representa algo acerca de los propios declarantes, de su posición. Todo lo que tenga que ver con una organización poderosa es interesante por definición, porque puede tener un efecto sobre el mundo. Así que la gente lee el NYT para ver la posición de las diferentes facciones en el régimen. Ese siempre ha sido el caso.

“Vayamos a 1917, cuando Eugene Debs, un agitador socialista estadunidense fue acusado, bajo la Ley de Espionaje –la misma que intentan aplicarme a mí– de hacer un llamado a resistir el el reclutamiento en la primera Guerra Mundial. Debs sólo decía que el reclutamiento obligatorio estaba mal y que la gente debería oponerse a él. Bien, el NYT hizo en su editorial un llamado a que agarraran a Debs, donde fuera que se encontrara, y que lo acusaran bajo la Ley de Espionaje, por un discurso. Así que, en este punto, nada ha cambiado.”

(Con la colaboración e información de Tania Molina Ramírez)

Fuente: http://www.jornada.unam.mx/2013/06/12/politica/002n1pol
 
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