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quinta-feira, 25 de julho de 2013

"Querem transformar a internet em uma grande rede de TV a cabo", Sergio Amadeu


por Paulo Donizetti de Souza e Vander Fornazieiri, da RBA

Entrevista do sociólogo Sergio Amadeu

MARCELO CAMARGO/ARQUIVO ABR
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Criado pela ampla participação da sociedade, o Marco Civil desperta medo nas teles
São Paulo – O sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira tem sido um dos especialistas mais acionados para ajudar a explicar a força das redes sociais na articulação das recentes formas de manifestação política no Brasil e no mundo. Amadeu, além de expert em sua área, em que combina a ciência política e a tecnologia da informação, é antes de tudo um ativista da democracia. No governo de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo, trabalhou pela implementação de mais de uma centena de telecentros, até então uma das mais inovadoras políticas públicas de inclusão digital.
Militante e estudioso dos softwares livres, presidiu o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação da Casa Civil da Presidência da República, onde desenvolveu ações de inclusão digital e de estímulo ao uso de softwares livres na máquina federal. Nos últimos anos, acompanhou de perto o crescimento da insatisfação de diversos coletivos sociais com as ações governamentais nas áreas da cultura, ambiental e das comunicações – por isso diz não ter se surpreendido com os protesto de junho.
Representante da sociedade no Comitê Gestor da Internet (CGI), é defensor rigoroso do projeto de Marco Civil da internet que está próximo de ser votado no Congresso Nacional. Porém, depois de ser elaborado dentro do CGI e de incluir ampla participação da sociedade, o Marco Civil sofre com um lobby da grandes empresas de telecomunicações, que ameaçam, segundo ele, a liberdade, a criatividade e a privacidade dos usuários da rede.
No último dia 16, Amadeu visitou a redação da RBA e concedeu esta entrevista. Ele critica ferozmente a atuação do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, por ter se tornado “um lobista” das teles. E chama a atenção dos movimentos sociais: que estejam atentos para defender o Marco Civil; e que entendam o novo das redes em seu papel na mobilização e na tomada de decisões da sociedade.
Você consegue identificar processos de indignação e de insatisfação antes da explosão de manifestações que tomaram as ruas em junho?
Conseguia. Um dos primeiros embates que a gente teve de descontentamento com uma política pública foi na cultura. A política de cultura tinha invertido a lógica: não tem de levar cultura para a periferia, a cultura está na periferia, você tem que dar condições para ela avançar. Foi a política dos ex-ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira. Essa política foi fuzilada pelo grupo do Ecad, que se acastelou no Ministério da Cultura por dois anos. O que tem no Ministério da Cultura, inclusive hoje? Nada. Se você for ver a política ambiental, também, vão dizer “eu preciso do Brasil desenvolvimentista”. Bom, o Brasil de desenvolvimento não pode fazer como o Japão? Estudar alternativas? Depois daquela crise nuclear com o maremoto (Fukushima), eles passaram a ter um plano de em 30 anos mudar a matriz energética (hoje altamente dependente da energia nuclear). E nós temos uma série de possibilidade que não desenvolvemos. É uma política equivocada que gera uma excrescência como Belo Monte e uma política equivocada com as nações indígenas. Mais de 100 mil pessoas na rede, talvez a maioria de classe média, que trocaram seu sobrenome para Guarani Kaiowá, uma forma de dizer: “Eu estou descontente”.
Bernardo é um ministro das operadoras de telecom. Isso já é um descontentamento brutal. Ele quer quebrar a neutralidade da rede
E tem também a área de comunicação.
É. Na comunicação, a minha área, o ministro é um ministro das operadoras de telecom. Isso já é um descontentamento brutal. Ele quer quebrar a neutralidade da rede. No Brasil, as operadoras não querem controlar a rede como na Europa e nos Estados Unidos, de maneira aberta. Querem regulamentação das exceções ao princípio da neutralidade, jogando para a Anatel, que não tem nenhuma condição de controlar e fiscalizar nada. Vou te dar um exemplo: um dos grandes problemas do Brasil é a qualidade da banda larga. Você paga por 100 e recebe 20. O comitê gestor da internet, que eu integro, como representante da sociedade civil, fez toda uma ação de construir um medidor de qualidade de banda larga, que é o Simet (Sistema de Medição de Tráfego de Última Milha). E as teles não querem fiscalização. A pressão era tão grande que a Anatel disse “eu vou fiscalizar o que é vendido de banda larga”, inclusive depois de o Ministério Público proibir a antiga Telefônica de vender conexão de banda larga aqui na região central, porque não entregava. O que a Anatel fez para controlar a qualidade da banda larga? Chamou o Comitê Gestor e disse “vamos tornar a medida de vocês oficial”? Não. Entregou para o sindicato dos donos das empresas a tarefa de fiscalizar as empresas... de telecom. Em qualquer país do mundo isso é um escândalo. No Brasil o ministro bancou, dizendo “eles têm competência técnica”.
E por que você acha que falta reação nessas situações?
Tinha reação? Tinha. Muita reação pontual. E aí explodiu. O governo tinha muita paciência de ouvir, ia lá, tirava foto, e ficava assim, ouvindo. E não encaminhava nada. Tanto é que o governo parou uma lei que colocaria o Brasil na vanguarda da democracia da rede, que era o Marco Civil da internet. Na contramão do vigilantismo norte-americano. Só que o Paulo Bernardo entrou pondo o pé à porta. Depois, o pessoal do Ministério da Justiça aceitou a pressão da Globo e pôs a remoção de conteúdo sem ordem judicial no projeto de Marco Civil. Não foi PP, antigo DEM... Foi PT. Quer dizer... Essas forças de esquerda que estão no governo talvez não acompanharam o que aconteceu no Oriente Médio, na Espanha, na Inglaterra. E quando se bate forte em várias políticas públicas do governo, se está batendo em um governo que – no meu caso – eu votei. Enfraquece o governo, mas e aí? Você deixa esse governo ser quase a cópia de uma ação, nessa área, do que seria um PSDB?
Aqui no Brasil tem internet funcionando há duas décadas. Por que só agora o país precisa de um Marco Civil?
Excelente questão. É uma lei para garantir que a internet continue funcionando do jeito que funciona hoje. A internet está sob ataque. Essas grandes corporações e os aparatos conservadores querem mudar o jeito de a internet funcionar.
Algo como o que existe na China ou no Oriente Médio?
Sim, sim. A nossa resistência à Lei do Azeredo, que apelidamos de AI-5 digital, é exatamente isso.
52% dos brasileiros com acesso à internet baixam música. A maioria, na verdade, compartilha músicas. Dizer que essa prática é criminosa...
Por exemplo?
Hoje, 52% dos brasileiros com acesso à internet baixam música. A maioria, na verdade, compartilha músicas. Dizer que essa prática é criminosa... faça o favor. Você não tem cadeia suficiente para colocar essa moçada toda. A rede permite a troca. A rede é troca. E a troca não destrói o original, e estamos falando de bens imateriais. Internet é compartilhamento. E a Lei Azeredo parou. A partir da ida do ex-presidente Lula ao Fórum Internacional de Software Livre. Ele viu uma faixa escrita “Presidente, vete o AI-5 digital” e disse: “Não vou vetar, porque não será aprovado”. E chamou o então ministro da Justiça, Tarso Genro, e determinou: “Ministro, tome uma providência em relação a isso”. E a providência adotada foi correta. Foi construir um processo de montagem de uma lei que não fosse feita em gabinete, mas pela própria internet. Na plataforma da Cultura Digital, vocês podem ter acesso a isso, houve uma primeira rodada de contribuições, uma síntese, depois uma segunda rodada e aí foi entregue ao presidente Lula. Como estava no final do segundo mandato ele disse que não ia mandar ao Congresso. Ficou para a Dilma tomar essa providência. A Dilma demorou, mas enviou, e respeitando o que foi encaminhado pela sociedade civil.
Que é esse o projeto para o qual foi nomeado relator o deputado Alexandre Molon (PT-RJ)?
Isso. E além de ter sido uma construção coletiva para defender os direitos dos internautas na rede, teve ainda outras sete audiências públicas feitas pelo Molon. Depois disso é que ele fez o relatório final. Só que aí entra o Ministério das Comunicações...
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Em que momento?

Foi no segundo semestre de 2012. No momento em que ele apresentou o relatório, parou...
Na hora do vamos ver.
As empresas entraram forte com interesses básicos. E o argumento deles é muito claro: “estão usando cada vez mais a internet, então eu tenho de interferir para gerenciar o tráfego”. Trata-se de um negócio que, a cada x meses, o tráfego de dados aumenta, porque as pessoas melhoram suas máquinas, as aplicações são feitas para ter maior velocidade, o uso de multimídia é cada vez maior. É um negócio que você sabe que você já tem de aumentar a capacidade de transformar bits em sinais de luz, nas fibras óticas. É como se nós estivéssemos falando de energia elétrica. Quando chega 5 da tarde, todo mundo começa a usar muito mais energia. O uso urbano cresce. Se você agisse como as operadoras de telecom, a energia ia começar a falhar, ficar cada vez menos intensa até você ter uma luz fraca. E é o que as teles fazem. Embora mais gente comece a usar a rede, eles não aumentam a disponibilidade para você navegar. Daí a sua banda cai e você acaba tendo uma das internets mais precárias do mundo. A gente não critica o modelo de negócios nem impõe limites. Mas o negócio deles é TI, transferência de dados, com cada vez mais demanda. Então, querem resolver o problema quebrando a neutralidade de rede, filtrando o tráfego.
Hoje a prioridade é para bancos e indústria, né?
Não necessariamente. Dados bancários não consomem muita banda. É multimídia que consome, imagens, vídeo, áudio. E o que as teles querem é interferir no tráfego para manter a qualidade do serviço, já que eles não aumentam a banda disponível. E para poder interferir, não pode ter na lei do Marco Civil da internet a garantia de neutralidade. O que eles querem é criar uma diferenciação de serviços, similar à que existe no mundo da TV a cabo. Você já paga diferenciadamente por velocidade – paga por 1 mega ou por 10 mega. Mas eles querem outra coisa. Mesmo que você pague 1 mega, ou 10, querem que você pague um plano diferenciado para acessar vídeos. Um plano diferente para acessar som. Um plano diferente para participar de rede peer-to-peer. Querem fazer uma interferência e filtrar o tráfego.
E querem também a filtrar a personalidade do usuário.
Que é outra coisa que a proposta do Marco Civil atrapalha: eles querem copiar nossa navegação para poder fazer análise e entregar publicidade dirigida para os internautas. Aí eles dizem: “O Google já faz”. Aí eu digo: “Problema de quem usa o Google”. Eu não sou obrigado a usar o Google, mas sou obrigado a usar uma telecom para me conectar à nternet. Eu posso navegar, de manhã até a noite, sem usar uma única empresa do grupo Google, mas sou incapaz de navegar sem usar uma operadora. Se a operadora puder me filtrar da minha casa até a nuvem da internet, estou perdido. Existem empresas que vendem esse software, uma delas é a Phorm, a gente até denunciou. Ela foi denunciada na Europa. A Oi contratou a Phorm sem avisar os usuários e começou a testar o software da Phorm para acompanhar a navegação de seus usuários, violando claramente a privacidade. Na época, eu estava em uma comissão em Brasília, discutindo ainda a Lei do Azeredo. E perguntei se a ação desse executivo que permitiu isso geraria pena de prisão, ou se a ação dos bancos que impõem rotinas que você nem sabe, para você poder navegar no netbanking, não é uma intrusão na sua máquina. É intrusão. Quem mais invade máquinas são bancos e as operadoras. Falei isso e disseram que não é verdade.
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E por quê?

Porque daí iam ter de discutir isso. Então, o que precisamos é de uma lei para garantir que a internet continue uma internet livre, e isso inclui o princípio de neutralidade, e que quem controla a infraestrutura não controle o fluxo de informação. E para garantir que nós possamos criar conteúdos de tecnologia sem autorização de ninguém, seja Estado ou uma operadora de telecom. Se quebrar o princípio da neutralidade, quando a minha universidade criar um protocolo de internet 3D, vai passar um pacote que ele não sabe o que é, e daí o computador dele destrói. Ai tenho que negociar com ele o meu invento, se não, não passa na rede dele. Eles querem controlar a criatividade, a liberdade de expressão e montar modelos de negócios que nós não escolhemos.
Existe essa briga nos EUA?
Tem uma briga lá contra isso. E tem um movimento muito forte em relação à neutralidade chamado Save the internet, no qual participava até o Obama antes de ser presidente. Na Holanda, foi aprovada uma lei em defesa da neutralidade da internet, no Chile também. Aqui, estávamos prestes a aprovar. Mas o ministro das Comunicações, infelizmente, é um lobista das teles, claramente. Por que não investigam as relações entre os diretores das operadoras de telecomunicação e a Anatel? Deveria ser proibido alguém que foi integrante de um órgão de regulador atuar em empresa, e vice-versa. Porque é muito poder, é um setor que tem 8% do PIB.
É difícil para as pessoas entenderem exatamente o que está em jogo. É possível impedir a violação de privacidade?
O escândalo da NSA só é possível porque as corporações já violam a privacidade. OK, tem a concordância dos usuários, mas a NSA jamais conseguiria montar um aparato desses se não existisse Google, Facebook, Twitter, Microsoft, ou as back-doors de quem usa o Windows.
Por isso que começamos a falar: querem transformar a internet em uma grande rede de TV a cabo. Eles querem prejudicar você, que usa a internet hoje, livremente. Eles querem poder copiar os seus dados sem que você saiba. Daí falamos que é por isso que tem de defender o marco civil
Hoje não tem lei que regulamente scripts e ferramentas que os bancos vão jogando no meu computador?“Você precisa atualizar o Java poder utilizar o homebanking”...
Não. Se ele instalar uma coisa estritamente para a sua seção e você concordar, ótimo. Mas e se ele instalar algo que acompanha toda sua navegação sem você saber? Não existe uma fiscalização, e a lei do Marco Civil vai permitir que você tenha de autorizar qualquer coisa que viole a sua privacidade. Pelo artigo 5º da Constituição, você pode, por analogia, pensar na privacidade na rede. Mas é melhor que não seja por analogia, que seja diretamente. E preciso ser bem concreto nos direitos. O Marco Civil não é criminal, é direito civil, ele declara uma série de direitos que a gente passa a ter. Entrar na sua máquina e copiar seus emails e vender sem que você saiba, isso tem que ser considerado crime. Mas antes precisamos garantir os direitos, que a internet continue funcionando como ela funciona, o que descontenta muitos governos e corporações, principalmente do mundo do copyright. E as teles, que não querem conviver com a criatividade intensa da rede. Se as teles conseguirem impor o controle da rede, vai ser do jeito que elas querem.
O lobby dos direitos autorais criou uma frente de ação no ambiente da Cultura, outra na Justiça e agora entra na discussão do Marco Civil, é isso?
Entra. Porque a ideia – debatida na construção coletiva do marco – é que você só possa remover um conteúdo com ordem judicial. Nós sabemos que, mesmo entrando na Justiça, a disputa, muitas vezes das ideias, se dá em torno da propriedade intelectual. Por exemplo, o site Falha de S. Paulo. A Folha não barrou (o site que satirizava o nome e a política editorial do jornal) na Justiça por calúnia, injúria ou difamação, mas por “uso indevido da marca”. Para dizer que ela é democrática, que “não estou te proibindo de me criticar, estou dizendo que você violou a minha marca”. E isso não é só no Brasil. No Brasil, o parágrafo 2º do artigo 15 do Marco Civil, que foi posto depois das consultas todas, faz o que a Globo quer. Autoriza a remoção de conteúdo sem ordem judicial. Não tem a mínima condição. Então, temos solicitado que o relator tire ou pelo menos deixe claro que não há remoção de conteúdos.
No Congresso existe um mapeamento dos parlamentares com quem se pode falar?
Não é uma luta perdida. A maioria dos parlamentares tende a cair para o lado democrático O problema é o lobby das teles, que tem um poder de financiamento de campanha muito grande, que tenta manipular o argumento, tem agências de publicidade, faz cafés das manhãs com deputados, atua diretamente. E a gente também atua, temos do nosso lado o funcionamento livre da internet, que é uma grande coisa. Então, retomando a questão principal, por que o Marco Civil? Porque estavam vindo vários ataques ao funcionamento da internet hoje. Precisamos de uma lei que assegure nosso direito de ter uma internet livre, com diversidade cultural, privacidade e neutralidade da rede. É uma lei de defesa.
A internet é um inconveniente. Por isso a extrema-direita está muito descontente. Quer um vigilantismo forte
Você não acha que depois de tudo o que vem acontecendo, eles não podem ficar com uma coceira de tentar censurar a internet?
Mas isso é no mundo inteiro. A internet é um inconveniente já. Por isso a extrema-direita está muito descontente. Queria um vigilantismo forte. Você tem governos que não gostam dessa liberdade de compartilhar na rede, de convocar manifestações, o que vimos em junho. Então, tem uma tensão por censura. E tem uma grande pressão dos jovens, da periferia e da classe média, para que ela continue livre. Por isso essa batalha não é perdida.
E como você vê o futuro disso que, no Brasil, começou em junho?
Acho que isso é um movimento. Estamos em uma mudança nas estruturas políticas, que se esgotaram. Tiveram seu ápice no século 19 e no século 20. Elas, sozinhas, não dão conta mais, dessa intensa ação de mudanças que muitos grupos coletivos e indivíduos querem. Então, tem uma passagem do mundo industrial para o mundo informacional. E isso sugere profundas alterações. E gera crise de intermediação, em tudo, até nas escolas. E sei disso porque sou professor. Eu não sou o bom da boca na informação. A informação eu não controlo mais. Há uma crise das instituições do mundo industrial. Partido político é uma instituição verticalizada, do modelo industrial. Não estou dizendo que ele não é importante na democracia, estou dizendo que ele está em crise, como toda as estruturas de intermediação.
Em todas as áreas?
Os próprios médicos vão estar em breve em manifestação contra sites que fazem diagnósticos na internet. As pessoas vão lá e “deixa eu ver o que eu tenho”. E o paciente às vezes pesquisou e adquiriu conhecimento maior que o do médico. Eu tenho um amigo que tem um problema raríssimo, que não se estuda nas boas escolas, e que está vivo hoje porque participa de uma comunidade na internet que estuda e troca informações. Há uma enorme diferença hoje. O mundo da informação é o mundo do código. A política não é política do puro poder, é a biopolítica mesmo, a política sobre a vida das pessoas. E essa política está na fronteira do código. Eu falo para a galera do MST: vocês estão brigando pela reforma agrária, mas devem brigar também contra a colonização do código genético, porque vão controlar as sementes da sua terra. A Monsanto é como a Microsoft. Vende licenças de propriedade. A Microsoft de softwares, a Monsanto, de sementes. É tirar o conhecimento das comunidades tradicionais, botar num laboratório, patentear e vender cognição apropriada privadamente. E é difícil discutir isso. Para entender a relevância disso é você ver em alguns supermercados coisas estranhas, como fralda próxima do corredor da cerveja.
A internet em si não muda, mas as pessoas podem usar a internet para mudar. Querem reduzir a interatividade, controlar a criatividade.
É estudo de algoritmos...
Porque eles mineraram dados, é uma correlação que nunca íamos fazer, mas se você tem o controle das máquinas no caixa, cruza os dados e faz várias correlações, você descobre que quem comprava fralda comprava também cerveja. É o mundo dos códigos e do autoprocessamento. Nem o MST, nem os movimentos tradicionais podem se descuidar disso. O primeiro movimento social a ter uma grande articulação com os hackers foi o movimento zapatista, que se ligou a hackers e fizeram sites espelhos, DDOS, que é o serviço de ligação do governo do México ao governo americano. E foi uma articulação muito importante que destapou o cerco da mídia que os índios e os camponeses no sul do México estavam tendo. Então, veja, não é tão absurda essa questão. Os sindicatos precisam entender isso.
O escritor José Saramago afirmava não confiar na internet, porque quando virem nela algo de revolucionário tratarão de controlá-la. “Nada há que seja verdadeiramente livre nem suficientemente democrático”, dizia.
A internet em si não muda, mas as pessoas podem usar a internet para mudar. Já perceberam isso e querem transformar a internet em TV a cabo, reduzir a interatividade, controlar a criatividade. Por incrível que pareça, para garantir esse caráter da rede, que é transnacional, precisamos aprovar leis nacionais que façam ela funcionar do jeito que ela foi criada. Tudo muito complexo, mas muito real. A internet comporta o mercado, mas ela não é o mercado.

domingo, 21 de julho de 2013

Impostos: grandes fortunas, imensos privilégios


O Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) é o único dos tributos federais estabelecidos pela Constituição de 1988 que ainda não foi instituído, por falta de regulamentação. Previsto no artigo 153, teve várias propostas nos últimos vinte anos, mas senadores e deputados nunca o levaram adiante. Em momentos diferentes, os próprios ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva defenderam a ideia. Com as manifestações populares de junho, a proposta volta ao debate. Parlamentares da bancada petista defendem que o IGF poderá ser fonte de financiamento para melhoria da mobilidade urbana.
Dentre os cerca de doze projetos sobre o tema que tramitam no Congresso Nacional, alguns estão prontos para votação no plenário, à espera somente de vontade política. O mais recente, do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), prevê cobrança de tributos sobre a fortuna de aproximadamente 10 mil famílias, com arrecadação aproximada de 10 bilhões de reais ao ano. Mas, entre economistas e tributaristas, há quem calcule em 14 bilhões os recursos que seriam gerados por esse imposto.
A ideia central das propostas é fazer com que o sistema tributário brasileiro deixe de ser regressivo – obrigando quem ganha menos a pagar mais – e adote um caráter progressivo. Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de maio de 2011, mostra que a carga tributária dos mais pobres é de 32% da sua renda, enquanto a dos brasileiros mais ricos é de 21%. O estudo leva em consideração impostos que incidem sobre o consumo, e não apenas sobre a renda.
Segundo Márcio Pochmann, ex-presidente do IPEA e atual diretor da Fundação Perseu Abramo, para alcançar justiça fiscal o país precisa instituir políticas tributárias progressivas: “No Brasil, os tributos pesam sobre os mais pobres.” Para ele, vêm crescendo no país a importância de grandes grupos econômicos e a concentração do poder nas mãos de poucas famílias, a partir de títulos financeiros ou da dívida pública. Este fenômeno atinge a própria democracia. “O processo eleitoral no Brasil é ligado ao financiamento que vem dessas grandes famílias e, quando olhamos para a Câmara Federal, a representação de deputados que se vinculam a interesses das grandes propriedades rurais é muito maior do que de deputados vinculados à questão da pequena propriedade” – disse, em entrevista à Rede Brasil Atual. “Pressão sobre o Congresso é fundamental para fazer valer esse princípio de justiça tributária no Brasil.”
Empresários rejeitam a ideia, argumentando que o IGF poderia prejudicar a atividade econômica. “Um país tem que ser competitivo também na carga tributária”, diz Jorge Gerdau, presidente do grupo Gerdau.
 Veja também: Quem-paga-mais-impostos-no-brasil-sao os pobres.html

sábado, 20 de julho de 2013

Fuduntu, uma distrô sem fim

Foi com frustração que soube do fim da distribuição GNU/Linux Fuduntu. Já a mantinha em meus dois notebooks e sempre com um desempenho dos melhores. Entusiasmado com o projeto, resolvi instalá-la em meu desktop, por minha conta e risco, mesmo depois do término de sua manutenção.

A dificuldade mais séria que enfrentei a atualização da distrô, pois os autores do projeto fecharam  o site  do projeto e todas as vezes que tentava o comando:
 "yum update",

vinha o mesmo erro:

"pycurl error 6 couldn't resolve host"


pois a base de dado contida nos arquivos da pasta: /etc/yum.repos.d estava obstruída. Após muita pesquisa consegui encontrar a solução, reconstruindo o repositório fuduntu.repo com novas fontes.

Alguns passos foram necessários para tal, tornando necessário um pequeno tutorial:
1) Entre na pasta /etc/yum.repos.d;
2) Exclua todos os arquivos;
3) Crie um novo arquivo fuduntu.repo, usando o terminal e dê o comando: sudo  gedit /etc/yum.repos.d/Fuduntu.repo
4) Coloque no arquivo o código:

[STUD_REPO] 
name=UNAM_Repository
baseurl=http://ftp-stud.hs-esslingen.de/pub/Mirrors/fuduntu/yum/2013/STABLE/RPMS/
enabled=1
gpgcheck=0

5) Salve o arquivo.
6) Dê o comando "yum update" no terminal.

Pronto, a primeira atualização do Fuduntu estará em andamento.

Professor lista 360 apelidos racistas para debater preconceito



Apelidos, brincadeiras e palavras podem machucar e reforçar estereótipos. Preocupado com essa realidade, o professor de biologia, Luiz Rosa, da Escola Municipal Herbert Moses, na zona norte do Rio de Janeiro, criou em 2009 o projeto interdisciplinar “Qual é a graça?”, no qual listou mais de 360 designações racistas usadas no Brasil para discutir com seus estudantes as origens do Brasil e do preconceito racial.
“Eu fiz uma pesquisa, com meus alunos, sobre a questão racial negra. E só de apelido foram mais de 360. Aí que veio a ideia do projeto. Para cada apelido, uma planta, uma foto legal, uma atitude legal nossa”, conta Rosa.
A partir da listagem, o professor e os estudantes criaram um memorial de escravos negros mortos em uma revolta na cidade de Vassouras e um jardim temático com exemplares da flora nacional. Em um desses jardins, os alunos acompanharão por 60 dias o crescimento de uma planta: o tempo gasto por um navio negreiro da África até o Brasil. “Faremos relatórios, acompanhamentos meteorológicos, de acontecimentos do dia-a-dia para ver o que são 60 dias presos dentro de um navio negreiro, ver o que as pessoas passaram ali”, diz o professor.
Confira, abaixo, a reportagem feita pela Empresa Brasil de Telecomunicações sobre o Projeto “Qual é a graça?”.

Imagem de Amostra do You Tube

Phumzile Mlambo-Ngcuka, da África do Sul, nomeada como nova Diretora Executiva da ONU Mulheres


 
Phumzile Mlambo-Ngcuka


Nova York (10 de Julho) – O Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anunciou hoje a nomeação da Sra. Phumzile Mlambo-Ngcuka, da África do Sul, como o nova Diretora Executiva da ONU Mulheres, a Entidades das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres.

O anúncio foi feito pelo porta-voz do Secretário-geral para uma entrevista coletiva hoje pela manhã. A declaração diz:
 
“A Sra. Phumzile Mlambo-Ngcuka combina uma vasta experiência na defesa de questões de direitos das mulheres com liderança estratégica, construção de consensos e experiência em administração. Ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Vice-Presidente da África do Sul de 2005 a 2008. A Sra. Mlambo-Ngcuka tornou-se membro do parlamento em 1994, presidindo o Comitê de Serviço Público. Ela foi vice-ministra do Departamento de Comércio e Indústria (1996-1999), ministra de Minas e Energia (1999-2005) e serviu brevemente como ministra interina de Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia em 2004.
 
A Sra. Mlambo-Ngcuka foi Coordenadora da Associação Cristã Mundial de Moças, em Genebra (1984-1986) e serviu como a primeira presidenta da Organização Natal de Mulheres, uma afiliada da Frente Democrática Unida, quando se formou, em dezembro de 1983. Ela criou ainda a Fundação Umlambo em 2008, para dar apoio às escolas em áreas pobres da África do Sul através de orientação e treinamento de professores e no Malawi através de melhorias das escolas com parceiros locais.
 
A Sra. Mlambo-Ngcuka tem mestrado em Filosofia em Planejamento e Política Educacional pela Universidade de Cape Town (2003) e bacharelado em Educação pela Universidade do Lesoto (1980). Em 2003, ela foi premiada com um doutorado honorário pela Universidade de Western Cape.
 
Nascida em 1955, a Sra. Mlambo-Ngcuka é casada e tem três filhos." 


Lideranças negras no Planalto com Dilma

Fonte: afropress


Quem são e o que dirão os negros à Dilma? 
 
Da Redação AfroPress
 
Na esteira das manifestações de junho que fizeram despencar a popularidade e abriram uma crise no seu Governo, a Presidente Dilma Rousseff, recebe nesta sexta-feira (19/07), um grupo de 20 líderes para discutir as demandas da população negra brasileira.
Destaque-se que, embora tenha tentado se fazer porta-voz, o papel da ministra chefe da SEPPIR Luiza Bairros foi recusado, como explicita um dos dirigentes da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), Gilberto Leal, da Bahia.
Diz o dirigente baiano que o movimento quer andar com as próprias pernas, quer ser protagonista nesse encontro com o Governo, protagonismo que não tem sido a tônica nos últimos anos, nem no Governo nem nas ruas, como prova a ausência nas manifestações de junho e, anteriormente, na mobilização de denúncia à presença do deputado Feliciano, o mesmo que atribuiu a nós negros a condição de “descendentes amaldiçoados de Noé”, na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Sobre o encontro desta sexta-feira é inescapável concluir que a lógica da escolha dos líderes é a mesma que tem pautado o Governo na relação com os “movimentos sociais” atrelados a agenda do ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência Gilberto Carvalho.
Os critérios são quase sempre definidos pela solidariedade de negros de partidos integrantes da base aliada do Governo, o que torna a pauta previsível e os resultados também.
A primeira questão relevante sobre o encontro que acontece em um novo momento no país (as manifestações de junho refluíram, porém, não acabaram) é saber quem são os líderes que estarão no Palácio do Planalto para encaminhar as nossas demandas.
A crise de representação que as manifestações evidenciaram e que colocaram em cheque as instituições e os Poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) e todos os Governos de todos os partidos, também se estende a representação de "movimentos sociais", incluído o movimento negro que, à custa de emendas parlamentares, acordos de bastidores e de favores para alguns, se tornou uma caricatura de um movimento social que deveria ser autônomo e independente de partidos (quaisquer partidos) e de Governos.
A segunda é que propostas, que reivindicações, que demandas entregarão à Dilma, levando em conta que o encontro não sirva apenas para a produção de imagens para a próxima campanha eleitoral, sob a orientação de João Santana, o marqueteiro da Presidente.
No caso da maioria da população brasileira, que é negra, e que não estará representada pelos líderes escolhidos pelo Planalto, parece óbvio que a nossa pauta é tão extensa quanto pode ser resumida numa única reivindicação: que o Estado brasileiro complete a Abolição inconclusa, feita há 125 anos, com medidas concretas nas áreas da Educação, do mercado de trabalho, da Saúde, da Segurança Pública, do sistema político, dos meios de comunicação, que garantam a inclusão da maioria da população brasileira, que é negra aos direitos básicos da cidadania. É tudo isso e é só isso.
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18/07/2013
 
Depois da "voz das ruas", Dilma receberá negros no Planalto
 
 
Da Redação AfroPress
Brasília – A presidente Dilma Rousseff receberá nesta sexta-feira (19/07), às 15h, no Palácio do Planalto, uma representação de lideranças de entidades para ouvir propostas a respeito das demandas da população negra brasileira. O encontro se insere no calendário adotado por Dilma “após as manifestações de rua” de junho que se espalharam pelo país, fizeram despencar a popularidade e abriram uma crise no Governo. Neste contexto, ela já recebeu representantes do movimento gay e pastores evangélicos.
Afropress apurou que serão 20 os líderes de vários Estados que estarão no Planalto. Pelo menos três deles confirmaram o convite: o Reitor da Unipalmares, José Vicente, estava a caminho do aeroporto de Brasília retornando a S. Paulo, depois de participar de uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico – o Conselhão, do qual faz parte (veja matéria) – quando recebeu uma mensagem com o convite.
Edson França, o coordenador geral da UNEGRO (corrente política ligada ao PC do B) e Gilberto Leal, da Coordenação Nacional de entidades Negras (CONEN), corrente política ligada ao PT também confirmaram terem sido convidados para a reunião.
Tanto França, quanto Leal, não souberam dizer quem serão os representantes designados para participar da reunião com Dilma, nem quais são as propostas que serão entregues a Presidente. Outro possível convidado, o Frei David Raimundo dos Santos, da Rede Educafro, disse que estava numa reunião e mandou dizer por assessores que havia recebido telefonemas de Brasília, mas não confirmou se se referiam ao convite da Presidência.
Sem mediação
O encontro com lideranças foi pautado pelo critério adotado da maior parte das lideranças que participaram de uma reunião realizada na semana passada em Brasília, a convite da ministra chefe Luiza Bairros, de recomendação a não mediação da SEPPIR para a realização do encontro.
Na ocasião, Leal (foto) – dirigente da CONEN da Bahia – disse que o movimento caminharia com as suas próprias pernas para essa reunião.” Deixamos claro que se trata de reivindicação protagonizada pelo movimento. É o movimento quem deve protagonizar o processo, diretamente. A sociedade civil reivindicando do Governo e não através de mediação. Talvez a SEPPIR tenha interesse em estar, em dialogar, mas nós vamos pela nossa própria dinâmica”, afirmou na ocasião.
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O povo negro que sempre esteve dividido se encontra ainda mais dividdo, debatendo lutas que não são as nossas.  O movimento negro histórico cresceu e envelheceu e como advento da cooptação surgiu uma classe média negra avessa as lutas do pretos pobres que quer mais é estar no meio do brancos trocando fugurinhas e raramente aparece no meio da negrada que hj não se aglutina apenas nas quadras de escolas de samba mas tambem nos bailes funks, hip hop e tudo mais.  Quem do movimento negro que conhecemos hj tem dialogo com essa rapaziada?  Melhor dizendo quem tem legitimidade para falar ao jovem negro de hoje.  Ninguém essa é a resposta.   Estão todos distantes da realidade da comunidade, mas perto do poder branco, logo, já não servem mais a nossa luta.
O que dirão a sra. presidente eu não sei, mas se convidado fosse diria: para que serve a SEPPIR?    Quais os avanços efetivos em relação à Igualdade Racial?   Pra que uma nova Conferência se os pactos não são cumpridos?   Pq a invisibilidade dos negros no governo Dilma?   Pq a sra. presidenta não vem a público defender a luta da população negra?    E o Estatuto da Igualdade Racial?    Entre outras e várias questões.

Liberdade ainda que tardia!"


Os privilégios de ser uma mulher branca

Fonte: nucleogenerosb


Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
 
 
 
 
 
Nestes dois anos de muita pesquisa, nunca tivemos tanta dificuldade em achar artigos que fundamentassem nossos textos. Não pela ausência de material sobre a condição da mulher negra, mas pela inexistência de textos representativos capazes de sentenciar os privilégios sociais de ser uma mulher branca. Toda via, a partir das sementes plantadas por Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Ângela Davis e Eldridge Claever, e muitas outras, além de uma entrevista da escritora CONCEIÇÃO EVARISTO, nós Maçãs Podres conseguirmos construir uma dialética que nos forneceu as primeiras respostas sobre este tema ainda tão pouco explorado dentro do feminismo.
 
 
 
 
 
 
 
"Ser uma mulher negra não é simplesmente ser uma mulher"
CONCEIÇÃO EVARISTO
 
 
Muito lúcida, a escritora CONCEIÇÃO EVARISTO explica que há diferentes implicações feministas entre ser mulher negra e ser simplesmente uma mulher:
 
É muito diferente (ser mulher negra e simplesmente mulher). A questão étnica pode ter um peso bem grande, mas vai depender muito da situação em que se está. Na questão do feminismo, por exemplo, enquanto as mulheres brancas precisaram sair às ruas para ficar livres da tutela do pai, do marido ou do irmão, esse não foi o nosso caso. Não precisamos lutar pra ficar livre da dominação e querer trabalhar. A gente sempre precisou trabalhar. O nosso feminismo vem para a gente se afirmar como pessoa. Eu acho que a nossa primeira luta feminista não foi contra o homem negro, mas contra os nossos patrões e patroas. Enquanto a primeira luta da mulher branca e da mulher de classe média foi contra os homens de sua própria família - e eu não estou dizendo que o homem negro não seja machista -, nós nos posicionamos primeiro contra o sistema represen tado, principalmente, pelo homem branco e pela mulher branca”.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ser uma mulher branca significa ter miseráveis privilégios
 
Se nunca te perguntaram se a “patroa” estava em casa, quando você foi atender alguém no portão da residência onde mora; se você nunca reparou que foi vigiada por seguranças ao entrar em um Shopping Center; se você nunca se preocupou com o fato de um porteiro ou inquilino te mandar entrar pela área de serviço do condomínio privado em que mora uma amiga; se provavelmente você jamais buscou saber dos estudos que comprovam que os professores tendem a tratar melhor e dar maiores notas aos alunos e alunas brancas; ou se jamais notou que, a medida que sua escolaridade aumentava, existia cada vez menos meninas negras sentadas ao seu lado, sinta-se uma miserável privilegiada, pois provavelmente você deve ser branca.
 
Agora, se você já se perguntou por que te chama a atenção o fato de que a maioria das doutoras da faculdade tinha a pele clara? Ou por que sua ginecologista, dentista e psicóloga nunca eram negras? É porque você provavelmente já se incomodou ou ousou questionar os privilégios miseráveis de ser uma mulher branca. Provavelmente não foi fácil sentir que para “superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, você terá também que superar as ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo”, como bem entendemos, ao lermos a SUELI CARNEIRO. Não é fácil, mas é necessário.
 
 
 
 
 
 
 
ANGELA DAVIS
Ser mulher negra significa lutar dentro dos movimentos
negro e feminista para não ser invisibilizada
 
ANGELA DAVIS, provavelmente a maior intelectual do movimento negro do séc. XX, sentenciou que (existe) “...uma síndrome infeliz entre alguns ativistas masculinos Pretos – que confundem sua atividade política com uma afirmação da sua masculinidade. ...Eles viram - e alguns continuam vendo – a masculinidade Preta como algo que se separa do estado de mulher Preta. Esses homens examinam mulheres Pretas como ameaça à sua obtenção da masculinidade – especialmente aquelas mulheres Pretas que tomam a iniciativa e trabalham para serem líderes no seu próprio direito.”, ou seja, é provavelmente muito comum que mulheres negras (que ainda não desenvolveram uma forte consciência feminista, ao buscarem sua afirmação pessoal quando saem de algum movimento formado predominantemente por mulheres brancas, como c itou CONCEIÇÃO EVARISTO) acabem tendo seu potencial de atuação limitado pelo machismo que se estruturou na cabeça dos homens negros, filhos das diásporas africanas.
 
 
 
 
Ser uma mulher branca significa
ter o privilégio miserável de se destacar nas estatísticas
 
 
A conjugação de lutas (contra o machismo e o racismo) é tão importante e direta para o feminismo que, só com a fusão das duas práxis e teorias, é que nos foi possível sair das frias estatísticas que semopre divulgamos.

Indignadas com os atos de violência contra a mulher, nós percebemos que dos casos recentemente expostos na grande mídia, apenas duas das vítimas mostradas eram negras (Janaína Brito Conceição, de 16 anos, e Gabriela Alves Nunes, de 13 anos), e isso só ocorreu pela barbaridade do crime e logo foi esquecido, e que nenhuma das delegadas responsáveis para solucionar qualquer um estes crimes eram negras.
 
Ou seja, apesar de todas as estatísticas que já denunciamos aqui e todos os estudos que divulgamos, do projeto em que estampamos os nomes de vítimas fatais e dos textos em que afirmamos serem as mulheres negras as maiores vítimas da violência patriarcal, nunca havíamos ido além das impessoais estatísticas, nunca mostramos seus rostos e assim também as transformamos em números, invisibilizando o machismo racista do Brasil.  
 
 
 
 
 
 
ELDRIDGE CLAEVER
   Ser mulher negra significa "representar no imaginário popular a escravidão"
O ex-pantera negra, ELDRIDGE CLAEVER autor de “Alma no Exílio”, um dos mais contundentes e honestos relatos sobre a masculinidade, escreveu que: “não sei exatamente como a coisa funciona, quero dizer, não consigo analisar, mas sei que o homem branco fez da mulher negra o símbolo da escravidão e da mulher branca o símbolo da liberdade. Todas as vezes que abraço uma mulher negra estou abraçando a escravidão, e quando envolvo em meus braços uma mulher branca, bem, estou apertando a liberda de”.
 
Não existe imaginário que se mantenha no conciente coletivo se também não existirem estruturas materiais e limitações institucionais capazes de sustentar tais mitos. Ainda pesa sobre as mulheres negras todo um conjuto de impedimentos sociais que faz com que a realidade se projete na mente das pessoas, como se "naturaliza" nas novelas.

Se o feminismo é a nossa principal teoria de libertação das mentes e dos corpo, eis que então temos muita responsabilidade nisso, não?
 
 
 
Ser mulher branca significa
ter o privilégio miserável de representar a felicidade
 
Imagens o corpo das mulheres brancas
usados para expressar a liberdade, a revolução e a justiça
 
É difícil pra qualquer mulher consciente se ver incluída no mundo machista, mas, ao menos, nas fotos das revistas do sonho burguês ou nas belíssimas pinturas renascentistas, existem imagens que justificam o que disse Stendhal: “a beleza é a promessa da felicidade”.

Dada a simbologia machista, o corpo das mulheres brancas também é a principal representação da justiça, da liberdade e da revolução. O pior é que as meninas negras também cressem vendo e sendo influenciadas por estes signos.
 
Lógico que como já disse Marx: "tudo esta impregnado do seu contrário" e assim como as mulheres negras não são a "escravidão", estas  representações da liberdade, da justiça e da revolução são imóveis e petrificadas, normalmente não nos atingem ao ponto de podermos nos apoiar nelas. Porém, queiramos ou não, num contexto geral, seus significados “facilitam” nossa vida, pois todas as características fisicas tidas como boas ou “apresentáveis” (cabelo, nariz, etc) estão presentes em nosso corpo, o que facilita nossa aceitação conosco e com o mundo.  Gisele Bündchen que diga.
 
 

Mas, como recitou Vinicius de Morais: “o destino dos homens é a liberdade”. Não sendo somente um símbolo sexual, mas um objeto de liberdade, este patrimônio físico que naturalizara em nós, nos coisifica. Seja para o homem branco (que nos utiliza como troféu) ou, como disse Cleaver, para o homem negro, que encontra nas mulheres brancas “o equilíbrio e a igualdade" que lhe negaram (cada um com seu privilegio miserável, eles como homens e nós como brancas, eles oprimidos como negros e nós como mulheres), como todo objeto, nossa função é garantir parte da satisfação e da liberdade do “proprietário”, executando trabalhos degradantes ou gerenciando a degradação de outrem, assim como ocorria com os escravos e seus feitores.
 
 
 
Outros privilégios de ser uma branca
 
Teste do Racismo em Crianças vide vídeo - http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=PKqSPf-hKR4
Os psicólogos americanos Mamie e Kenneth Clark fizeram esse teste acerca das raças em 1947. Recentemente (2008) foi feita uma nova pesquisa nos EUA e o resultado não mudou muito.
 
Não sou a voz das mulheres negras, sei que os espaços negros são uma forma de resistência e enfrentamento frente ao racismo. Por respeito, sei onde posso entrar e onde não posso invadir. Lembro-me de uma baile black que tinha aqui na cidade, onde entrava somente negros e negras, e os brancos ficavam indignados. Não me indignava, pois sabia que todos os espaços eram espaços de brancos. Por tanto, peço licença para expor a parte que me cabe.
 
Como menina branca, percebi muito cedo minha vantagem em relação as meninas negras. Só não sabia que esta vantagem se estenderia por toda minha vida. E que vinha de tantos séculos.
 
Foi nas “brincadeiras de meninas brancas” que vi como era difícil, para elas, sonharem os mesmo sonhos que eu. Um sonho de criança só é sonho quando você consegue prolongar sua sensação de olhos abertos. Mas se cada imagem que te cerca, te lembra que aquele sonho não pode ser possível, a realidade fica marcada na sua cabeça, invertendo a lógica do desenvolvimento humano. Para duas amigas de infância, ao abrirem os olhos, elas viam que a verdade delas estava na cor da pele, na quantidade de melanina. E isso limitou o desenvolvimento lúdico delas.
 
Como tantas outras meninas dos anos de 1980, imitávamos os passos das paquitas, mexendo e remexendo longos e lisos cabelos. Na hora de dançarmos com as madeixas, eu não pensava duas vezes, mas para elas isso era como se rasgasse a pele. A solução elaborada foi amarrarem um pano na cabeça. E lá estava eu, lúdica, de cabelo solto e as duas precisando superar as barreiras e disfarçar suas características físicas com panos na cabeça. É em momentos como este que fico indignada com as frases do tipo: “a dificuldade estimula a criatividade”. Sim, eu sei que é verdade, porém a que custo?
 
Este era somente um dos grandes problemas enfrentados por minhas amigas negras, outro eram as bonecas. As cruéis imitações da Barbie. Nós olhávamos e víamos a brancura, o olho azul tão desejável, o cabelo amarelo, as roupas, tudo que as meninas deveriam sonhar e desejar e isso era o que minhas amigas nunca iriam ter. E por mais que soubessem, elas ainda tentavam aproximar-se desta figura.
O cabelo é parte considerável na auto estima das mulheres. As duas alisavam os cabelos, e isso é um ritual de embranquecimento. Não havia nenhuma menina negra na vila onde eu morava que não tivesse o cabelo alisado. Era quase uma regra de “limpeza”. Mesmo sabendo da artificialidade e de como era difícil e doloroso, todas se embranqueciam. Tinha de fazer. Poderia até faltar comida, mas o alisante estava lá todo final do mês. Eu não precisava me preocupar com isso, afinal “Deus foi bom comigo” – foi o que uma vizinha de mamãe falou.
 
Realmente eu não me preocupava. Até que um dia vi uma de minhas amigas sem cabelo. O cabelo havia caído e a química queimado o couro cabeludo. Ela chorava e eu não sabia o que falar. Disse pra ela que ela não precisava fazer mais aquilo. E ela disse que não poderia sair na rua com “o cabelo ruim”. Ela queria “um cabelo bom”. Ou melhor, um cabelo de branco como o meu! Ao vê-la sofrer tanto, percebi um dos meus primeiros privilégios.
 
Lembro da gente saindo para festas e como era mais fácil me arrumar. Não tinha muito que pensar nestas horas. E olha que eu nem era tão “feminina” assim. Uma delas ficava muito insegura, arrumando o cabelo o dia todo, tentando deixá-lo o mais liso possível. O mais próximo do “desejável”. Nesta época, as meninas molhavam o cabelo para deixar menos crespo, molhavam o cabelo toda hora no banheiro. Os meninos as chamavam de “as molhadinhas”. Em locais de “caça”, eu e as outras meninas brancas ficávamos despreocupadas. Sabíamos que pelo menos dois meninos iam nos tirar pra dançar. Com elas, nem isso.
 
Hoje sei tal realidade é definidora da saúde mental de uma pessoa. Influencia em sua identidade, na ausência ou não de autoconfiança e no decorrer de seu futuro e visão de mundo. Eis outro privilégio.
 
Não precisar agradar tanto um menino, evita um cem número de violências de gênero. Poder dizer não, se ele quisesse transar sem camisinha, era a possibilidade de “negociar” o uso do preservativo, sem medo de perder o cara. O que me dava coragem de dizer “não” era o fato de ele me aceitar como eu sou: branca.
 
 
 
Quantas pessoas já repararam, por exemplo,
 que ao pesquisarem a palavra “negra” no Google
 imagens, os termos que aparecem relacionados
são “negra safada”, “mulher negra” e “negra feia”
ouse fizermos a mesma pesquisa com a palavra
“branca”...
Para as meninas negras era contrário. A “insegurança” nascida do racismo fazia que elas se submetessem a “tudo” que o cara quisesse, pois não tinham a certeza que outro poderia querê-las. Transar sem camisinha é comum nas periferias nascidas com o fim da escravidão. O racismo faz com que meninas negras façam coisas que não querem fazer. Na descoberta do corpo e da sexualidade, as meninas negras se encontram muito mais vulneráveis a uma gravidez do que meninas brancas. Era como se esta “ficada” fosse a única chance de uma noite ou de uma vida toda.
O tratamento que uma de nós recebe é diferente, mas a menina com mais melanina e que tinha o fenótipo negro mais marcado, nos disse o quanto o cara havia invadido o corpo dela. Numa dessas invasões, ela acabou engravidando. Mesmo ainda não sendo feminista fui a única que dei a opção do aborto. Mas para elas, que sentiam que pouco tinha a conquistar, “perder” um filho é inimaginável.
 
Mesmo sabendo que várias mulheres havia realizado o aborto, ela teve o filho. Um lindo menino de fenótipo negro. Mas de olhos verdes, pele branca e “cabelo amarelado”. Ele era o orgulho da casa. Outro privilégio: uma criança "não-negra" no meio de seis crianças negras se destaca. Eu via como esta criança era tratada e como as outras eram apagadas da existência.
 
 
 
...os termos relacionados são
“branca de neve” e “folha branca".
Sabendo que a plataforma Google
oferece-nos os resultados mais pesquisados,
esta informação deve refletir algo, não é?
Hoje enquanto mulher branca reconheço outros vários privilégios. Sei como é dolorido abrir mão de privilégios, mas quis abrir mão deles. Sei que reconhecer meu privilégio é fundamental para o fim do racismo e sei que em alguns espaços é importante me posicionar, pois vivendo o politicamente correto, os brancos construíram sua identidade em cima do racismo, se somos o que somos, se temos esta auto estima é porque outros tiveram rasgadas sua identidade e reconhecer estes privilégios é um dos poucos papéis que os brancos tem para a eliminação do racismo.
 
Para as minhas amigas os objetivos, os sonhos que elas conseguiram alcançar, as vontades e os limites eram totalmente diferentes dos que a sociedade me ofereceram.  Hoje uma delas trabalha como vendedora e outra de doméstica, enquanto eu sou uma "cientista social". Eis mais um privilégio que não me envaidesse, mas comprova a lógica expostas neste texto. 
 
 

Conclusão:
 
Por que é preciso enegrecer o feminismo?
 
No capitalismo a liberdade é medida por um bom cargo, por uma alta remuneração, pelo acúmulo de propriedades e dinheiro e principalmente pelo número de pessoas excluídas. Este é o principal indicativo que comprova como a sociedade das desigualdades sexuais se estruturou em oferecer privilégios miseráveis,  para algumas mulheres, que  garantam a manutenção do que se originou com o primeiro patriracado: a exclusão social/sexual.
O sistema econômico patriarcal não quebrará mesmo se todas as mulheres assumirem todos postos de chefia da política, dos bancos e das industrias, pois isso significará que os homens da alta burguesia, donos de 99% das grandes propriedades privadas¹, estarão apenas nos colocando pra gerenciar a exploração dos homens pobres e de outras mulheres. E nem mesmo se este bolo for dividido entre os gêneros, ainda assim, existirá mulheres aliendas, com seus corpos excluidos, das riquezas materiais e humanas.
 
No capitalismo, nem todas as atividades são transformadoras ou geram mais-valia e bem sabemos que, numa sociedade hieraquizada, jamais existirão cargos de chefia para todas as pessoas, o que garante a hierarquia da desigualdade economia, ou seja, no atual sistema econômico patriarcal, assim como em sua origem, a tal liberdade não é para tod@s. Se hoje existe alguma “liberdade para as mulheres” no Brasil, não é por que nós somos mulheres, mas por nós seremos brancas ou burguesas. Assim como há espaço para algumas mulheres gerenciarem a exploração alheia, também existe (em menor escala) os mesmo cargos de gerência para algumas pessoas da comunidade negra (lógico que mais para os homens, do que mulheres, já que a economia responde as lógicas do machismo). Introduzir uma pequena parte dos excluidos dentro dos sistemas patriarcais é uma tática de manutenção que existe desde os tempos da  Roma Antiga.
 
Se quase 50 anos após a comercialização das pílulas contraceptivas, ainda precisamos urgentemente da construção de creches, em parte, isso nos revela o quanto as conquistas do movimento de mulheres burguesas, responderam as necessidades imediatas impostas pelo próprio capitalismo. A filhas dos grandes burgueses brancos e da classe média urbana, na maioria, foram as que mais colheram os frutos de tais conquistas. Conquistas estas que converteram as antigas operárias das fábricas, em vendedoras de magazines e funcionárias de fraldários.
LÉLIA GONZALEZ
Se as mulheres negras, em sua maioria, continuam em  condições tão próximas da imediata anulação do escravismo, conclui-se que as "melhoras tão midiáticas" não ocorram para a grande massa de mulheres brasileiras. Se as mulheres, que hoje trabalham em atividades de grande status, precisam de outras mulheres para cuidarem de seus lares e filhos, perguntamos quem são estas cuidadoras e onde estão os filhos destas mulheres?
 
É fundamental para a construção de uma consciência feminista mais ampla, que nós não venhamos a nos referir a questões raciais como um “altruísmo humanista”, comum aos filósofos brancos, mas como uma questão fundamental para uma nova elevação das práxis feministas.

Isso fica fácil de reconhecer e comprovar quando usamos as mesmas letras da grande LÉLIA GONZALEZ:
“Em pesquisa que realizamos com mulheres negras de baixa renda (1983), muito poucas, dentre nossas entrevistadas, começaram a trabalhar já adultas. Migrantes na grande maioria (principalmente vindas de Minas Gerais, do Nordeste ou do interior do Estado do Rio de Janeiro), e muitas vezes já tendo “trabalhado na roça”, entravam na força de trabalho por volta dos 8-9 anos de idade para “ajudar em casa”. Desnecessário dizer que, nos centros urbanos, começavam a trabalhar “em casa de família”, além de tentarem freqüentar alguma escola. Pouquíssimas conseguiram “fazer o primário”. Um dos depoimentos mais significativos para nós, o de Maria, fala-nos das dificuldades da menina negra e pobre, filha de pai desconhecido, em face de um ensino unidirecionado, voltado para valores que não os dela. E, contando seus problemas de aprendizagem, ela não deixava de criticar o comportamento de professores (autoritariamente colonialistas) que, na verdade, só fazem reproduzir práticas que induzem nossas crianças a deixar de lado uma escola onde os privilégios de raça, classe e sexo constituem o grande ideal a ser atingido, através do saber ‘por excelência’, emanado da cultura ‘por excelência’: a ocidental burguesa.”

Observem as características sócioculturais das pessoas a quem estes números "antigos" (1983) se referem, são os mesmo perfis da pesquisa que a Organização Internacional do Trabalho revelou em seu último relatórioSe certa vez “sua mente já desejou a insurreição e suas mãos trabalharam para a revolução”, te perguntamos o que é revolução (feminista)?

Com certeza, ela não é a mínima igualdade salarial, ou a conquista de espaços economicamente planejados no mercado de trabalho, que produzem ainda mais mais-valia, ou a exigência de representação nos altos cargos políticos de um Estado estruturado para violentar mulheres e exterminar pessoas pobres e negras.

Muito sabiamente, Maquiavel disse: “dividir para dominar”, e nós feministas (brancas) certamente, ao de não denunciarmos os privilégios miseráveis que o patriarcado nos oferece como mulheres brancas (para nos manter dentro de nossa condição de mulher), contribuimos para confirmar as maquiavélicas estruturas do “príncipado burguês”. Ainda bem, mas a custo de muito sofrimento, que sempre existe uma feminista (negra) que levanta a mão e coloca, nas pautas de nossas reuniões, a ferida aberta da opressão racista patriarcal. Até o dia que ela se cansa de falar e, assim como também fizeram (fizemos com) as meninas negras da escola, que se sentavam ao nosso lado na carteira) ela sae de nosso lado e vai buscar sozinha (com as demais companheiras) seu lugar ao sol. Que esta realidade mude, antes da nova primavera dos povos (feministas).
 
Viva o movimento Feminista!
Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro

(Este texto faz parte do estudo "Por um feminismo brasileiro amplo e não fragmentado". Para entender todo o contexto desta postagem leiam também
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1- De acordo com Humphrey Institute of Public Affairs, da universidade estado de Minnesota (WOLF, Naomi: O mito da beleza), apesar de sermos mais de 50% da população e ocuparmos dois terços das horas trabalhadas, somos donas de menos de 1% das grandes propriedades capitalistas. Em seu primeiro encontro com as militantes do Movimento de Libertação das Mulheres, Simone de Beauvoir levantou uma questão da qual ela mesma afirmou não saber a resposta (“Como, segundo vocês, se articulam exatamente a opressão patriarcal e capitalista?”); uma afirmação, conseqüente desta mesma questão, foi sentenciava por Beauvoir : “toda a tática que as mulheres devem seguir, depende disso (desta resposta)”. Sua preocupação mostrou-se legitima, pois segundo ela, para não se estagnar, o feminismo após as conquistas da década de 1960, deveria estudar o papel das mulheres dentro das relações de exploração capitalistas. Contudo, dentro d a realidade brasileira, não nos basta articular só as questões de classe, precisamos atingir o cerne das questões raciais/étnicas, pois o abismo social brasileiro se concentra, em grande parte, nos resquícios da exploração escravista.

* para escrever este texto também tivemos como referência os linques abaixo:
 
http://www.fundaj.gov.br/geral/observanordeste/valdenice.pdf 
http://aqueladeborah.wordpress.com/2010/04/09/os-privilegios-em-ser-branca/ 
http://asppir.wordpress.com/artigos/a-opiniao-de-uma-mulher-branca-acerca-da-mulher-negra-e-a-resposta-de-um-homem-negro/ 
http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/02/17/brasileiros-sao-mais-europeus-do-que-se-imaginava-923828390.asp 
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:Tm6wln6iSCsJ:portaldovoluntario.org.br/blogs/54329/posts/228+o+racismo+das+mulheres+brancas&cd=8&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&source=www.google.com.br 
http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST69/Silvana_Verissimo_69.pdf 
http://www.ueangola.com/index.php/criticas-e-ensaios/item/190-o-corpo-feminino-da-na%C3%A7%C3%A3o.html
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