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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Educação: Por que o Brasil não está entre os melhores?


O Brasil reproduz acriticamente muitas das medidas educacionais dos Estados Unidos e ambos apresentam baixos índices no PISA, programa internacional que busca verificar o nível de preparo dos jovens para o exercício da cidadania. Participaram desta avaliação cerca de 500 mil estudantes de 65 países.

A grande imprensa brasileira está repercutindo largamente o desempenho dos nossos estudantes da Educação Básica no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Programme for International Student Assessment – PISA). Este Programa é desenvolvido e coordenado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e é aplicado a estudantes na faixa dos 15 anos. Seu objetivo é verificar o nível de preparo dos jovens para o exercício da cidadania na sociedade contemporânea matriculados em escolas públicas e particulares. Participaram desta avaliação cerca de 510 000 estudantes de 65 países.

As avaliações do PISA são trienais e abrangem três áreas do conhecimento – Leitura, Matemática e Ciências. A cada triênio uma das áreas é enfatizada. Na avaliação de 2012, que está sendo divulgada, a ênfase foi em Matemática. Em 2015 será em Ciências.

Muito embora os estudantes brasileiros tenham ficado abaixo da média dos países da OCDE, é de se registrar que o desempenho médio em Matemática tem melhorado desde 2003. São também visíveis as melhorias nos desempenhos de Leitura e Ciências. O problema, no entanto, é que o Brasil ainda está distante dos países situados no topo do ranking; as cinco melhores posições foram ocupadas pelos estudantes asiáticos, respectivamente de Xangai, Singapura, Hong-Kong, Taipé e Coreia. Os Estados Unidos e o Brasil ocuparam as posições de números 36 e 58 respectivamente. A Finlândia (12ª posição) mesmo tendo caído algumas posições e tendo ficado abaixo dos asiáticos já mencionados, do Liechtenstein, da Suíça, da Holanda e da Estônia, ainda compõe a elite mundial de bons desempenhos no PISA.

Os esforços brasileiros para a melhoria da qualidade da educação na última década têm sido grandes e estão sendo lentamente recompensados. No ano 2000 nosso escore geral foi igual a 368 e subimos em 2012 para 402. Nosso desempenho, no entanto, sempre fica abaixo da média dos escores dos países da OCDE em todo esse tempo de realização do PISA, em todas as avaliações. A média da OCDE em 2012 foi 494.

Ao longo das aplicações do PISA o desempenho de estudantes de três países ocidentais chama a nossa atenção. O desempenho dos estudantes da Finlândia sempre conseguindo as melhores posições do ranking, obtendo escores superiores às médias da OCDE; o dos estudantes dos Estados Unidos que jamais superou o escore de 499 pontos, e dos estudantes do Brasil sempre ocupando as piores posições. Os estudantes destes dois últimos países vêm tendo desempenhos abaixo das médias da OCDE.

Os finlandeses obviamente se orgulham do sucesso obtido em todos os exames do PISA. E quando nos empenhamos a descobrir a sua fórmula, ela se revela incrivelmente simples e diferente daquelas que são aplicadas nos Estados Unidos e no Brasil. O Portal G1, em sua edição de 24 de maio de 2013, tornou pública essa simplicidade e as diferenças que apresenta ao veicular extensa matéria com o título País com a melhor educação do mundo, Finlândia aposta no professor , baseando-se no depoimento de Jaana Palojärvi, diretora do Ministério da Educação e Cultura da Finlândia.

Na Finlândia, segundo Palojärvi, o sucesso nada tem “a ver com métodos pedagógicos revolucionários, uso da tecnologia em sala de aula ou exames gigantescos como Enem ou Enade”. Lá as apostas se concentram na valorização do professor e na sua autonomia para trabalhar. Desde a reforma educacional dos anos 1970 a valorização do professor traduziu-se em pagamento de salários competitivos e em atratividade da carreira docente. Hoje um docente da Educação Básica ganha em média R$ 8 mil reais por mês, algo em torno de 3 mil euros. Seu salário é compatível com a média salarial do país e aumenta com o tempo de serviço. Todos os docentes, entretanto, precisam ter formação mínima em nível de Mestrado e cumprir um tempo de treinamento antes de entrar em sala de aula. Quanto à autonomia de trabalho a diretora do Ministério da Educação e Cultura da Finlândia é muito clara: O material [didático] usado e o currículo são livres, por isso podem variar muito de uma unidade para outra. O mesmo ocorre quando fala do uso de novas tecnologias em salas de aula: tecnologia também não é o forte das escolas finlandesas, que preferem investir em gente. "Não gostamos muito de tecnologia, ela é só uma ferramenta, não é o conteúdo em si. Tecnologia pode ser usada ou não, não é um fator chave para a aprendizagem."

O desempenho dos estudantes dos Estados Unidos, ao contrário dos estudantes finlandeses, desde a primeira aplicação do PISA em 2000 vem se situando abaixo da média dos escores dos países da OCDE, oscilando entre 499 (em 2000) e 492 (em 2012). A ex-conselheira de educação dos governos Bill Clinton e George W. Bush, Diane Ravitch, em seu livro “Vida e morte do grande sistema escolar americano” (2011) responsabiliza os testes padronizados (tais como os testes do ENEM e do SAERJ – aplicados no sistema educacional brasileiro e fluminense) e o modelo de mercado adotado pelo sistema educacional como os grandes vilões do fracasso na educação dos jovens americanos. Segundo afirma os testes tornaram-se definidores de toda a vida escolar americana. A partir dos resultados obtidos é que são tomadas as decisões pelos formuladores de políticas educacionais, as famílias podem fazer as suas escolhas acirrando a competição entre escolas, e os professores recebem gratificações e bônus sempre que os seus estudantes apresentam bons rendimentos.

A crise educacional americana é profunda e já dura algum tempo. Em 1983 o relatório Nation at Risk (Uma Nação em Risco - NAR), elaborado pela Comissão Nacional de Excelência em Educação na gestão do presidente Ronald Reagan, alertou acerca da erosão das instituições educacionais “por uma onda de mediocridade que ameaça o nosso próprio futuro enquanto povo e nação”. Para a Comissão responsável pelo NAR o unilateral desarmamento educacional posto em prática nas escolas básicas dos Estados Unidos tanto compromete a segurança nacional em um futuro próximo, como também afeta o país econômica e socialmente. Entre as recomendações feitas pelo NAR, todas citadas por Ravitch, estavam a elevação de exigências para o ensino básico, desempenho e conduta escolar dos estudantes, formação de professores, assim como mais tempo para as instruções e deveres de casa, e valorização da carreira docente com o imediato aumento dos salários. Ravitch destaca que tal relatório coincidiu com os resultados anteriores do Relatório SAT de 1977 (Scholastic Aptitude Test ou Scholastic Assessment Test). O SAT já apontava o fracasso e insistia igualmente que os estudantes tinham poucas horas de disciplinas básicas, poucos deveres de casa, muitas faltas às aulas, poucas leituras críticas e reflexivas e uma escrita muito descuidada. Contudo, a entrada em um novo século, praticamente não alterou a situação americana apesar de alguns esforços salvacionistas de economistas, “líderes da América corporativa”, consultores e empresários que pouco ou nada entendem de educação. Em 2002 Michel Bloomberg, ao assumir a prefeitura de Nova Iorque considerou o sistema educacional da cidade em “estado de emergência”.

A administração do prefeito Bloomberg para a educação, de fato, fez grande esforço para melhorá-la. Basicamente sua “reforma” educacional incluiu estratégias de responsabilização vertical, que segundo Ravitch significava “mais reformas de mercado que incluíam escolha escolar, autonomia, competição e incentivos”. Apenas eram “autônomas” as escolas administradas privadamente com recursos públicos (School Charters); elas tinham turmas menores, mais recursos, estudantes selecionados e criavam uma dualidade de oferta de matrículas e ensino na rede de escolas públicas da cidade. Para incrementar as escolhas familiares, foram criadas inúmeras pequenas escolas de nível médio, com mais ou menos 500 alunos, todas elas temáticas voltadas para atender às demandas do mercado.

No Brasil, no Estado do Rio de Janeiro e em Pernambuco, já há algumas escolas temáticas de ensino médio tais como a NAVE (Núcleo Avançado em Educação em parceria com a OI Futuro) e a NATA (Núcleo Avançado em Tecnologia de Alimentos em parceria com o Grupo Pão de Açúcar e com a CCPL).

Contudo, apesar dos esforços da administração municipal de Nova Iorque, a reforma educacional do prefeito Bloomberg pode ser bastante criticada em função da dos grandes déficits de democracia que produziu no sistema educacional com a centralização das decisões e com o autoritarismo na implantação de políticas. Ravitch afirma que “a reorganização foi um modelo corporativo de controle fortemente centralizado, hierárquico e vertical”. Outro ponto crítico igualmente importante foi a atenção mínima foi prestada ao currículo escolar: à exceção de Matemática e Leitura todas as demais disciplinas curriculares tiveram importância reduzida. Os escores obtidos pelos estudantes nova-iorquinos no National Assessment of Educational Progress (NAEP) entre 2005 e 2007 em Leitura e Matemática demonstraram que eles não tiveram ganhos significativos. Segundo Ravitch “na Leitura da quarta e da oitava séries e na Matemática da oitava série, os escores do NAEP demonstraram que não houve mudanças significativas. Tampouco houve qualquer estreitamento da distância de desempenho entre diferentes grupos raciais”. O New York Times, na edição de 16 de novembro de 2007 , estampou em grande matéria que os resultados de Nova Iorque nos testes federais demonstraram a estagnação educacional da cidade, apesar dos ganhos em Matemática da quarta série. E asseverou que medida após medida, os resultados mostraram que não houve nenhuma mudança significativa no período entre 2005 e 2007.

O Brasil reproduz acriticamente muitas das medidas aplicadas nos Estados Unidos como que repetindo a fórmula o que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Diversas unidades e municípios da nossa Federação estão gerindo os seus sistemas educacionais com forte centralização, hierarquização rígida e vertical, e responsabilização das direções e professores pelos avanços e retrocessos porventura existentes. Aqui as famílias também estão sendo levadas a escolher as escolas para os seus filhos pautadas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB. O ranking que resulta da apuração do IDEB favorece as escolhas familiares, apesar das poucas pistas que fornece acerca do tipo de cidadãos que estão formando. Da mesma forma que em diversos estados e cidades dos Estados Unidos é comum entre nós o pagamento de gratificações por mérito e bonificações para os professores e escolas que cumprirem determinadas metas a contragosto dos nossos sindicatos. Também aqui raramente as comunidades educacionais são envolvidas em discussões sobre a aplicação de recursos, organização curricular, carga horária etc. Como lá estamos longe de uma ampla discussão pública para criação de um projeto nacional de educação.

A Finlândia que poderia nos inspirar sequer é visitada pelos formuladores nacionais de políticas públicas. Sua fórmula de sucesso parece não sensibilizar nossos tecnoburocratas educacionais e desembarcá-los da ponte aérea para Manhattan. Interessante ainda é que esses mesmos técnicos desconsideram os temores e as recomendações do relatório Nation at Risk que a Finlândia parece ter adotado para si. Não por acaso o sucesso desse país é produzido por professores experientes, ensino efetivo, estudantes motivados, recursos adequados e uma comunidade que valoriza a educação. Os atalhos e respostas rápidas parecem ser a obsessão dos nossos formuladores de políticas educacionais tanto quanto tiraram o sono do prefeito Bloomberg. Ravitch (2011) em ato de contrição por ter contribuído com as erráticas políticas educacionais de Bill Clinton e George W. Bush assevera que o fracasso americano decorre da “falta de visão educativa” e do “alistamento de um exército de consultores empresariais”. Para essa ex-secretária de educação a maneira mais durável de melhorar o sistema educacional americano é a adoção de um currículo mais forte, melhoria das condições de trabalho e remuneração dos professores e melhoria das condições de ensino e aprendizagem.

Muito possivelmente por conta dos modismos da nossa tecnoburocracia que se mostra incapaz de aprender com a Finlândia, estamos insistindo na aquisição de competências e habilidades básicas que se mostram insuficientes para formar homens e mulheres que irão produzir novas tecnologias, fazer novas descobertas científicas, edificar novas e grandes obras de engenharia ou resolver problemas alimentares e hídricos. Dificilmente estarão aptos sequer para apreciar as realizações culturais da nossa sociedade ou a compreender e fortalecer a herança democrática. Como simples homo faber se equipam mal para tomar decisões baseadas em conhecimentos, debates e razão.

Muito provavelmente por causa dos limitados e imediatos horizontes educativos de nossa dos nossos formuladores de políticas educacionais ainda estamos longe da posição que a Finlândia e seus estudantes ocupam no cenário educacional mundial. E isto nos aflige particularmente num momento em que nos encaminhamos para ocupar o lugar de 5ª economia mundial. Como poderemos nos manter nessa posição?

por Zacarias Gama -  Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutor em Educação. Professor do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Fim da neutralidade da rede: uma ameaça à liberdade


Pagamos 100% por uma velocidade e só recebemos 20% do que contratamos das operadoras. A latência é tão grande que foge de todos os padrões internacionais aceitáveis.
  Entenda o que representa o fim da neutralidade da rede para todos nós:
http://pelenegra.blogspot.com.br/2013/10/entenda-o-que-e-neutralidade-da-rede-e.html
 
Por Sérgio Amadeu na revista Fórum do dia 12/11/2013 

O representante dos donos da operadoras de telefonia, Sr Eduardo Levy, segundo o jornal Folha de São Paulo, teria dito ao governo que “com crescimento contínuo da demanda pelos serviços haveria duas opções: perder qualidade ou fazer vultosos investimentos para ampliação da rede das empresas, aumentando o preço para os consumidores”.
Primeiro é preciso perguntar que qualidade é essa que o Sr. Levy diz que as teles nos oferecem? Pagamos 100% por uma velocidade e só recebemos 20% do que contratamos das operadoras. A latência é tão grande que foge de todos os padrões internacionais aceitáveis. Não é por menos que as teles lideram as reclamações nos serviços de proteção do consumidor. Enquanto escrevo este texto acabo de receber uma cartinha da Vivo me cobrando por um serviço de dados que cancelei desde setembro (tenho o protocolo) e eles continuam me mandando a fatura. Aliás pagava R$ 167,00 por mês por 20Mb que nunca tive. 
Segundo, o representante das operadoras deixou claro qual é o problema das teles: elas não querem investir na ampliação da infraestrutura. As teles há muito tempo sabem que as pessoas consomem cada vez mais bits. Estima-se que em 2017, o mundo irá utilizar 1,4 zettabyte, o equivalente a 1 trilhão de gygabytes ou o mesmo que 1 bilhão de DVDs assistidos por dia durante um ano inteiro. Há pouco mais de 10 anos, usavamos disquetes de 1,44 Mb. Hoje, os computadores não têm mais entrada de disquetes e as pessoas começam a usar pen drives com 512 Gb. Isso significa que um pendrive desses tem a capacidade equivalente de 365 mil disquetes. Mas, as teles não sabiam disso?
Na verdade, as teles querem manter a mesma capacidade das infovias, da infraestrutura de fibras e cabos por onde transitam os dados. Para fazer passar o fluxo crescente de informações, as operadoras querem filtrar o tráfego e gerenciá-lo, para tal precisam quebrar a neutralidade que deveriam ter em relação aos pacotes de dados. Sem dúvida, as teles não querem investir no ritmo que as sociedade exige e, mais do que isso, pretendem ter modelos de negócios especiais para as empresas que pagarem caro para seus dados não serem bloqueados e ficar numa via congestionada. Grandes corporações gastarão mais e terão sua comunicação mais estável e veloz. Nós, a maioria da população teremos que amargar com a qualidade que o Sr Levy diz que temos hoje, ou seja, uma rede instável e lenta.

A questão é exatamente essa: as operadoras não querem investir e por isso, precisam quebrar a neutralidade da rede. Aqueles que têm compromisso com o desenvolvimento da sociedade informacional no Brasil e com a inclusão digital não podem concordar com um segmento que não fornece a banda larga necessária nem na periferia da cidade de São Paulo. Mas é evidente. O modelo de negócios dessas empresas era vender banda larga cara para quem pode pagar. Por isso, o Brasil está pessimamente conectado.  
Logo, a conversa da semana passada que as operadoras de telefonia queriam é atender os pobres não passa de balela. O discurso dos lobistas das teles de que os pobres querem comprar apenas o pacote de serviços necessários aos seus interesses não resiste aos números das pesquisas sobre os usos da Internet no Brasil. Um influente deputado do PMDB disse que os pobres estão pagando pelo multimídia dos ricos (SIC!). “O pobre quer apenas acessar a web e seus e-mails por isso não precisa pagar tudo que paga”. Nossa! Quer dizer que as operadoras que nunca se interessaram em levar banda larga no interior do país e das periferias das cidades resolveram agora se tornar defensora dos fracos e oprimidos? Tenha paciência.
Vamos observar os dados da única pesquisa sobre Internet no Brasil, reconhecida pela UNESCO, a TIC Domicílios e Empresas 2012, promovida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (http://www.cetic.br/publicacoes/2012/tic-domicilios-2012.pdf) 
Indo direto ao ponto, constatamos que apenas 18% dos brasileiros que ganham até 1 salário mínimo estão conectados à Internet. Destes, apenas 45% utilizam e-mail para se comunicar, 73% usam redes sociais (como Facebook) e 53% assistem filmes e vídeos na Internet. Repare que entre os mais pobres o uso de recursos multimídia é maior do que o uso do e-mail. Organizar pacotes mais caros para acessar o Youtube ou o Vimeo somente tornará pior e mais custoso o acesso desses recursos para os mais pobres. Como poderemos incentivar o uso dos cursos online sem o direito dos mais pobres utilizarem a tecnologia streaming?
Não vamos aceitar as falácias das operadoras de telefonia que não querem investir no Brasil. Essa situação é fruto de uma privatização completamente atravessada que gerou este absurdo Custo Brasil de Telecomunicação. Não podemos concordar que os representantes das Teles em conjunto com o deputado Eduardo Cunha criem uma Internet segregada, uma comunicação rápida e estável para os ricos e um serviço degradado para os pobres. A quebra da neutralidade implicará no pagamento do que hoje temos o direito de utilizar. Já pagamos para as operadoras mais caro para termos velocidades maiores de conexão. O deputado Eduardo Cunha deveria brigar para que as operadoras investissem para nos entregar a velocidade que pagamos e não apenas 20 % dela. Deveria lutar pelo investimento na infraestrutura da sociedade informacional e não para defender o interesse de 4 grandes corporações. Mas, ainda dá tempo do deputado Eduardo Cunha mudar de posição para apoiar o relatório do deputado Alessandro Molon em defesa da neutralidade da rede.

domingo, 1 de dezembro de 2013

A difícil arte de viver à sombra das remoções

Fonte: odia

Processo já obrigou cerca de 80 mil pessoas a deixarem suas casas. Anistia Internacional critica prefeitura por não informar para onde as pessoas foram enviadas e nem as razões

Por André Balocco

Rio - A escadaria é íngreme e tem degraus escavados na pedra. Em meio ao latido dos cachorros, atentos ao movimento estranho, o repórter sobe. Sorriso escancarado, a menina de seus 4 anos passa, descalça, sozinha e cabelos desgrenhados. Misturada à alegria, a camisa suja, sinal do almoço recém-conquistado. “Minha família está aqui há 70 anos”, começa Vítor Ferreira Soares, 35 anos, nascido no Santa Marta, em Botafogo. “Roemos o osso trazendo material aqui para cima nas costas, para construir nossas casas, e agora que tem estrada asfaltada e plano inclinado vão me tirar? Não saio”.
Por ‘não saio’ entenda-se ser removido. Desde 2008, Vítor e outras famílias do Pico, como é conhecido o local onde moram na comunidade, lutam para não entrar na estatística que está mudando a cara do Rio: 19.567 barracos e casas derrubados em nome do progresso, da ameaça de deslizamentos ou de obras de infraestrutura. Como nas favelas cada casa tem, em média, quatro moradores, chega-se à conta de 78.268 pessoas obrigadas a mudar de endereço, ônibus, vizinhança...
Damião, do Salgueiro, já deixou sua casa: ele vai morar em apartamento na comunidade da Tijuca
Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia
“Falta transparência à prefeitura”, critica Renata Neder, coordenadora de direitos humanos da Anistia Internacional. “Até hoje não nos informaram os nomes de quem foi removido, para onde e em que condições”. A prefeitura se defende. Alega que, até 2016, nenhuma pessoa viverá em área de risco — único e real objetivo do programa.
Neder cita os casos da Vila Harmonia e da Barra 2, no Recreio, em que moradores foram retirados em nome do BRT TransOeste. Finda a obra, o trajeto não passou por lá. Já as construções imobiliárias tiveram um boom. O município garante que o processo de desapropriação é dos anos 70 e que a área que sobrou é um talude que limita um aterro. Mas qual a razão, para quem mora num barraco, recusar um apartamento? “No Santa Marta, cada habitação terá 37 m2. Na minha casa, tenho quatro pavimentos e cinco quartos. Minha história está aqui”, diz Vítor.
No Salgueiro, troca por casa é alvo de elogio
Se há quem prometa resistir em suas casas, há também quem pense o contrário. Marco Antônio Damião, do Salgueiro, é um deles. O cozinheiro conta as horas para ocupar um dos apartamentos que a prefeitura ergue na comunidade, ao lado das residências do projeto ‘Cimento Social.’
“A área em que eu vivia era mesmo de risco. Não só minha casa, como outras. Quando chove, fica todo mundo com medo”, conta, caminhando em meio a escombros de barracos postos abaixo, mas cujos terrenos ainda não estão completamente limpos. 
Enquanto a casa não vem, Damião vive de aluguel social, que a própria prefeitura paga, numa casa na comunidade. “Aqui, onde ficava a minha casa, será erguida uma adutora”, explica. Ele conta que chegou a temer ser esquecido pela prefeitura, devido à demora entre a notificação e a derrubada de fato da casa. “Estou muito feliz porque vou ganhar uma casa, muito feliz mesmo”.
Incerteza impede obras de melhoria
O ano era 1993. Dona Penha, cansada dos constantes tiroteios na Rocinha, decidiu se mudar para um lugar onde tivesse mais calma. O que ela não imaginava é que, meses depois de comprar um barraco por 5.800 cruzeiros na Vila Autódromo, seu pesadelo estivesse começando.
“Desde aquela época que esse menino tenta nos tirar”, diz, referindo-se ao prefeito Eduardo Paes, ‘prefeitinho’ da Barra na administração César Maia.
Desde então, cada vez que põe um tijolo no barraco, Penha sofre. “Pobre, quando faz obra, faz aos pouquinhos. Tenho medo de melhorar a casa e eles derrubarem”, conta. No Santa Marta, Vítor vive o mesmo dilema. Guia turístico, dono de uma das primeiras construções do morro, gostaria de investir para receber em seu jardim suspenso, onde cria orquídeas em vasos de solas de sapatos. Mas ele não faz nada.
A espera o angustia. Com um contralaudo que nega ser a área de risco, raciocina que há outros interesses por trás da ameaça. “A estrada que vem por Laranjeiras foi pavimentada há pouco; há um plano inclinado chegando aqui e o trenzinho do Corcovado vive lotado. Por que querem me tirar?”. O governo do estado nega e diz que a área, de risco, será reflorestada. Com um laudo da Georio que condena a região, garante todos serão realocados no conjunto em construção na favela.
Moradora da Providência diz que vizinhos a culpam por teleférico parado
A alguns quilômetros do Santa Marta, na Providência, Márcia Regina de Deus observa o teleférico pronto — mas sem funcionar. De sua janela, vê também o olhar torto que alguns vizinhos, antigos amigos, dirigem a ela quando passam pela casa. Ela acha que, para muitos deles, é a culpada pela não inauguração do projeto.
“Temos uma liminar que impede novas remoções por falta de estudos de impacto ambiental e habitação”, diz Márcia, cuja casa está garantida pela lei. “Não sou contra a obra, sou contra a forma como foi feita. Tenho 54 anos de Providência. Minha história vai para onde?”.
Márcia aponta o teleférico, que ocupou a antiga praça: tristeza por ver os moradores divididos
Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia
Do outro lado do morro, o administrador de imóveis Roberto Marinho fala sobre a sensação de, a qualquer momento, ser expulso da casa onde vive há 37 anos. “É estranho viver sem saber o que vai acontecer no dia seguinte”, diz ele, quarto representante da geração dos Marinho na comunidade. “A prefeitura faz pressão psicológica. Uma vez, numa reunião com moradores, disseram que não tinha teleférico porque entramos na Justiça.”
A prefeitura garante que a história é diferente. Em nota enviada ao jornal, diz que tem feito reuniões com moradores, sempre com a presença de representante da Defensoria Pública, que conseguiu a liminar. E que refaz estudos para minimizar as remoções previstas no priojeto original. “Mas vai ser construído um plano inclinado após a estação do teleférico”, diz a nota. “A escadaria é íngreme e idosos e cadeirantes não têm opção de deslocamento.”
'Esta é a maior remoção da história', Renata Neder - Anistia Internacional
De fora, quem olha a casa recém-reformada na Praça São Salvador não imagina estar diante da sede de uma das mais respeitadas organizações mundiais: a Anistia Internacional. Lá, O DIA ouviu Renata Neder, coordenadora de direitos humanos da entidade, sobre o processo que muda a cara do Rio. Confira:
'É a maior remoção da história', diz coordenadora de direitos humanos da Anistia Internacional
Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia
1. O que a senhora acha deste processo de remoção/realocação?
— Falta transparência. Esta é a maior remoção da história da cidade, maior que a de Pereira Passos, no início do século 20, e de Carlos Lacerda, nos anos 60.
2. A prefeitura alega que são obras de mobilidade ou em áreas de risco...
— Sabemos que, às vezes, são sim. Mas a prefeitura não nos diz quem saiu, de onde foi tirado e por que isso aconteceu. Também não sabemos qual o fator de risco e qual o laudo que identificou isso. Pedimos para saber os motivos, mas não respondem.
3. A remoção da Vila Autódromo alcançou casas fora do traçado?
— Sim. Faltou clareza sobre o traçado, pois uma curva determina que família vai sair. Além disso, não falaram do tempo de execução da saída, ou se existe alternativa ao traçado. O ideal é que se pense o projeto de forma que tenha o menor impacto. Só porque é favela não se deve garantir o direito à moradia?
4. E o processo da favela da Restinga?
— Eles entraram na favela na noite de 16 de dezembro de 2010 e disseram que tinham de sair até o dia seguinte. Teve morador que ficou sem teto e se acorrentou à casa. Um desrespeito muito tramático.
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