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domingo, 9 de março de 2014

8 dias sem garis, a greve dos "estrangeiros"

Por Sergio J Dias

Foto: Gustavo Maia

Ao vermos qualquer reunião de poderes constituintes do Estado brasileiro percebemos a presença total de brancos nestes fóruns, até mesmo nos retratos das paredes. Raramente os negros se vêem  nestes espaços. Quando estão, parecem representar a cota única que nos foi reservada.
Meu pai, meu avô e meu bisavô foram garis. Em suas vidas, o lixo teve significado marcante, pois, dali tiraram o sustento de suas vidas e de suas famílias. O lixo nos foi destinado como um fado impossível de ser evitado. Nossas histórias se confundem com a da limpeza urbana da cidade do Rio de Janeiro, assim como de muitas outras famílias negras.

Nas sociedades desenvolvidas, este tipo de ocupação cabe aos "imigrantes", ou aos filhos destes. Os cidadãos nativos destas sociedades se recusam a realizar tais atividades, cabendo aos "estranhos", desencumbirem-se delas.
O mexicano Sergio Arau dirigiu o filme "Um dia sem mexicanos", em 2004. Nele, Arau descreve o que seria um cotidiano sem o trabalho de latinos nos EUA. Sem eles, a sociedade local ficaria sem o trabalho de empregadas domésticas, garis e outras atividades desenvolvidas pelos "de fora", os "estrangeiros", os "imigrantes".

Aqui, ficamos durante oito dias sem o trabalho destes "estranhos", que tão pouco poder têm separados, individualizados, mas que juntos demonstraram sua força. Montanhas de lixo ficaram pelo caminho, a cidade quase parou, o carnaval deformou-se em blocos de sujo, os foliões tropeçavam em garrafas pets, sacos plásticos, alimentos e tantos outros resíduos. O mau cheiro contaminou o ar de áreas nobres da cidade. Nossa cidade exaltada em verso, prosa e poesia viu surgir ratos, mosquitos em lugares onde a beleza se notabilizara até então. O lixo do Rio virou notícia em todo mundo, às portas da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Viver no Leblon se tornara equivalente a morar nas favelas cariocas, onde a leptospirose, a dengue e a tuberculose ainda são comuns.

Diante dessa catástrofe não coube outra saída aos poderes constituídos do que se reunirem com os "estrangeiros". Em um fórum diferente etnicamente, pois na discussão de uma decisão importante estão representados igualmente negros e brancos. As lideranças dos "estrangeiros", dos "imigrantes" foram ouvidas, uma negociação esteve em curso e a maioria definiu. Estava consolidada a vitória, um salário e um ticket alimentação  maior.

Mais uma coisa ainda deve ser dita. Em nosso caso, os "estrangeiros" não são "estrangeiros", formam com o conjunto dos habitantes deste país uma sociedade multicultural e multiétnica. Estes grupos construíram instituições, como as escolas de samba, centros espirítas, blocos carnavalescos, maracatus, etc. onde a presença de todos sempre se deu de forma democrática. Em muitos casos até, com a perda do poder pelas comunidades negras fundadoras.
É, esta greve nos proporciona uma reflexão interessante, já que vimos os "locais" se juntarem com os "estrangeiros" para discutir um assunto que interessava a todos nós.


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