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sábado, 29 de março de 2014

O samba também combateu a ditadura

Por Fernando Paulino

Eram os anos 70, em plena ditadura militar. As Forças Armadas, desgastadas, tentavam passar para a sociedade uma imagem menos rude. Promoviam, por exemplo, atividades esportivas para comemorar o Dia do Trabalhador, contrapondo-se às manifestações de protesto contra o regime ditatorial.
A Aeronáutica foi além: organizou um festival de música, cujo tema único era Santos Dumont. Zé Katimba e Jorginho, ambos da Imperatriz Leopoldinense, inscreveram um samba que falava de liberdade. “O público delirava. Ganhamos nota 10. Mas, aí os milicos, bastante contrariados, disseram que ainda tinham de ouvir um outro corpo de jurados formado só por militares. Aí, nos roubaram o primeiro lugar. A música só pôde ser gravada anos depois. Mesmo assim, queriam mudar a letra, mas o Katimba não aceitou”, lembra bem Jorginho.
De outra vez, Katimba e Jorginho foram proibidos de cantar no Teatro Teresa Raquel, numa roda de samba que reunia estudantes, intelectuais de esquerda e sambistas simpáticos ao movimento popular de resistência ao golpe de 1964. Entre outros versos, a letra falava: “Ontem, senzala / Hoje, cortiço / Ontem, chibata / Hoje, fuzil / Ontem, quilombo / Hoje, sapê / Tanta injustiça que não tem razão de ser / Tanta injustiça que tentaram esconder”.
A esquerda, de certa maneira, não tinha consenso sobre a melhor forma de atuação política para combater a ditadura: luta armada ou criação de bases populares. O Partidão optou pela inserção nas comunidades, apostando na mobilização política popular.
“Comecei minha militância na Leopoldina pelo Partidão quando tinha 16 anos de idade. Eu era da Ala dos Estudantes da Imperatriz. Desfilei pela primeira vez em 65. Alguns diretores da escola não nos viam com bons olhos. Na verdade, desconfiavam politicamente da gente. É como se dissessem: ‘Esses garotos estão com outras intenções!”, conta o hoje médico Jorge Luiz Ramos Teixeira, o Jorginho, sócio-proprietário número 3 da Imperatriz. 
“O presidente da época era o Nonoca. A gente estava na campanha eleitoral do Lisâneas Maciel, que era o nosso candidato a deputado federal pelo antigo MDB. Certa vez, nós o levamos para um samba na quadra. Ele era convidado da Ala dos Estudantes, quer dizer, um convidado da escola, mas Nonoca não quis saber e recusou-se a liberar uma mesa para o Lisâneas. Aí o Katimba armou uma mesa pra gente.” Katimba, com prestígio na escola e essencialmente catimbeiro, resolveu bancar os estudantes, viabilizando o funcionamento da ala. Acertou, então, que os meninos se reuniriam num espaço que servia de depósito das peças da bateria – local ideal para quem estava na clandestinidade política.
“Estávamos vivendo um momento altamente tenso na política brasileira. Muitos companheiros caíram, foram torturados e mortos; outros tiveram que entrar na clandestinidade. Nós estávamos do lado de fora dos porões da ditadura fazendo o nosso trabalho de resistência e de convencimento contra o regime. A ala era ligada ao PCB e recebia dirigentes clandestinos nas noites de samba, sem chamar a atenção da polícia”, revela Jorginho.
Com a decretação do Ato Institucional nº 5 – o AI-5, de 13 de dezembro de 1968 –, mais da metade da Ala dos Estudantes entrou para a corrente política DG-PCB, um grupo que colaborava com as ações armadas. “Uma parte da ala foi presa, outra caiu na clandestinidade e tinha ainda um outro grupo que continuou na Imperatriz como sambista e comunista”, lembra Jorginho. “No trabalho nas comunidades, o Katimba ajudava na distribuição do jornal do Partido, a Voz Operária. Certa ocasião, as portas do prédio onde eu morava e do prédio onde Katimba morava amanheceram pintadas de amarelo com a inscrição ‘eles não voltarão’, numa referência à volta dos companheiros de esquerda que haviam se afastado da área.
Logo após a Anistia, decretada em 1979, surgiu o bloco Sai na Moita, que abrigava vários anistiados políticos. Ironia do destino: quem também saía nesse bloco era o Nonoca, aquele presidente da Imperatriz que tentou barrar a garotada da Ala dos Estudantes. Literalmente, tudo acabou em samba.

*Quero aqui parabenizar Zé Katimba, Jorginho e vários outros sambistas que, ao longo dos tempos, colocam a sua arte na luta por uma vida melhor. Ditadura nunca mais!

Fernando Paulino é jornalista
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