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sábado, 15 de março de 2014

Violência, de onde vem: a guerra por "territórios"

Por Sergio J Dias

Fonte: rocinha.org

Fala-śe muito do crescimento da violência no país. A grande mídia contabiliza com números recentes um aumento do número de assassinatos, assaltos, roubos, e de todo varejo da violência de pobres contra ricos. Diz-se até  que em São Paulo, um posto de gasolina já foi assaltado mais de 1000 vezes. Em suma, o crescimento da violência é alarmante. Autoridades, intelectuais, todos são chamados para explicar este drama. Economistas, sociólogos e antropólogos chegam a afirmar que uma das máximas do conhecimento das sociedades está sendo contraditada, pois temos um indicador de desemprego baixo, um dos menores de nossa história, e, todavia, vemos a explosão do mal.

Entretanto, ao pensarmos em profundidade o período recente da história das metrópoles brasileiras constatamos alterações em sua geografia. Estamos vendo, por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas, a derrubada da memória de nossa cidade. Monumentos e mais monumentos, representativos de nossas cidade tem sido derrubados sem o menor senão. No Rio de Janeiro, são as obras do metrô em direção à Barra, o “Porto Maravilha” e a Cidade Olímpica. Bilhões de reais caem na conta das grandes empreiteiras, que já têm seus donos entre os 65 bilionários brasileiros, segundo a revista Forbes. Só no Estado do Rio de Janeiro irão ser aplicados este ano mais de 100 bilhões de reais e isto pouco alterará a vida dos moradores da cidade, pois, o cotidiano da “fobópole” permanecerá o mesmo.

Um amigo, me colocou uma questão interessante acerca destes fatos. Diz ele, que a inteligência espiritual atinge a todos igualmente, e que todas as injustiças têm uma resposta, pois somos todos capazes de respondê-las.  
No Rio, continuamos o drama da contradição entre o “asfalto” e a “favela”. Foram feitas obras cosméticas, nas favelas e estamos vendo o processo de "gentrificação" avançar, sobretudo, na Zona Sul, por conta das UPPs, mas quando olho de minha janela a paisagem do morro pouco mudou. Os becos, as vielas insalubres, os amontoados de casas uma sobre as outras, o risco de desabamento permanecem lá como monumentos à memória de nossa pobreza histórica a nos lembrar da traumatizante e humilhante desigualdade de nossa convivência. É como se ouvíssemos, repetidamente “o cada macaco no seu galho” a ser farfalhado por nossa elite.
A maior violência foi cometida contra os pobres destas cidades. Afinal, gastamos tanto dinheiro e o que alteramos, de efetivo, nestas paisagens. 

O geógrafo David Harvey, em seu livro “A Condição Pós-moderna” nos alerta que aarquitetura atual trabalha com modelos de cidade anárquicos. Hoje, a arquitetura das cidades é pensada através de grandes monumentos elaborados individualmente por "mentes brilhantes" e que são impostos aos setores populares por uma ideologia de dominação alienante. Parece ser difícil para uns poucos entenderem que um pré-requisito básico para a paz é a possibilidade de se viver com dignidade. 

Em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde a favela transborda sobre o asfalto faz-se necessário transformar a estrutura territorial, e isso só ocorrerá se os pobres puderem ocupar mais "territórios". A legislação do solo urbano deveria punir a especulação imobiliária e tornar o acesso à moradia mais barato.
Sem isso, o que resta é a paz dos cemitérios e a asfixiante e tensa guerra por "territórios".

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