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domingo, 6 de abril de 2014

Tristeza, intolerância abafa o som dos tantãs na Penha

Por Sergio J Dias

Hoje acordei cedo, mas saí tarde, depois de uma hora me dirigi feliz e fagueiro para a Feira de domingo no bairro da Penha, no Rio de Janeiro. Desci do ônibus e me dirigi,  após alguns meses de ausência a um local que para mim era pura diversão. Afinal, acontecia ali na rua Montevideo um dos melhores  pagodes da cidade. Ele começava depois das 12:00 hs, já tinha virado um ponto de bambas, os donos, dois irmãos negros, comemoravam inclusive a ampliação do espaço.
Entrei na rua e estranhei, cadê a feira? Caminhei alguns metros. Parei e perguntei a um comerciante informal:
- Onde está a feira?
Ele respondeu:
- Mudou para a rua ao lado, a Belisário Pena.
Meio contrariado e sem ouvir os alegres e inebriantes sons dos tantãs, me encaminhei para o endereço informado. Lá encontrei os legumes descascados e ensacados que tanto deixam satisfeita a minha esposa e as belas frutas, doces acepipes sem igual. Contudo, algo me intrigava, olhava à volta e sentia os feirantes cabisbaixos, desanimados, e cheguei mesmo a ouvir o seguinte diálogo:
- Vamos nos organizar, temos de voltar ao local de origem. Tantos anos e a Prefeitura nos tira de lugar sem a menor satisfação.
Ao que outro respondeu
- É o negócio aqui não tá bom!
Fui até a outra ponta da rua, podia dali retornar para casa, pegar o ônibus e dar fim a nossas aventura. Não pensei, mais alguns passos e voltei à rua Montevideo, continuei andando e passei em frente ao bar onde se realizava o delicioso pagode, estava fechado. Pude observar que ele estava situado em frente à sede de uma Assembléia de Deus. Isto me deu algumas pistas, só faltava a confirmação das suspeitas. Mais alguns passos e um  "comerciante informal", um negro de pele bem escura, ainda jovem, aqui no Rio, chamado de "flanelinha", coordenava saídas e chegadas de automóveis.
Perguntei-lhe, então:
- Cadê o pagode?
E veio a resposta:
- Acabou!
Simples assim, mas insisti:
- Ah! Dizem que foi política.
Continuei  até o final da rua, fiz contato com mais um "comerciante informal", desta vez, uma loura, certamente de origem nordestina, com seus quarenta anos, ela conversava animadamente com um homem que parecia ser mais um cliente para seus produtos. Parei e fiz a derradeira pergunta:
E o pagode:
Acabou! A Prefeitura decidiu mudar a rua da feira. O pessoal vinha para comprar e ficava apreciando o som. Estão dizendo que foi a igreja, aquela Assembleia de Deus.
E o homem ao lado completou: Foi o Eduardo Paes, sabe como é? Época de eleição, votos...
Aparvalhado, peguei o primeiro ônibus e voltei para casa. Havia sido notificado de mais um episódio de intolerância, sancionado pela nossa digníssima Prefeitura.
O bairro da Penha não merecia mais essa perda. Depois do fim do Cortume Carioca e de sua notória decadência, o ocaso de um dos melhores destinos dos últimos tempos na cidade.
Tristeza, lástima, abafaram mais uma vez o som dos tantãs, pandeiros, repiques e agogôs.


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