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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Carta de uma mãe a uma escola branca, onde estuda sua filha negra de 4 anos

Fonte: digiartesgraficas

CARTA DE UMA MÃE A UMA ESCOLA BRANCA, ONDE ESTUDA SUA FILHA NEGRA DE QUATRO ANOS
Recife, 05 de maio de 2014.
Prezadas professoras, coordenação da escola e quem mais fizer parte da educação de meus filhos:
Minha filha (Infantil III - Manhã) foi vítima hoje de bulling racista na escola. Vou contar desde o início.
Ao tentarmos fazer a tarefa que pedia para procurar em revistas uma família que se parecesse com a nossa, obviamente, não encontramos, pois nossa mídia acredita que só existem pessoas brancas e de cabelos lisos no Brasil. Pedi, então, para ela desenhar nossa família. Como pode ver no desenho, ela se pintou de "menina branca".
Como trabalhamos muito em casa as questões raciais, até porque meus filhos são filhos de um homem negro, e como minha filha tem o fenótipo de "mulata" (termo que, inclusive, não deve ser usado, por ser derivado de "mula" e expressa fortemente um racismo colonial), questionei porque ela se pintou daquela cor, já que ela é NEGRA (trabalho muito com ela o emponderamento racial). Ela começou a chorar e dizer que não queria ser "daquela cor", que queria "ser branca" e que, quando crescesse, iria colocar pó de arroz para ficar branca.
Tentei ir puxando mais sobre o assunto, sempre dizendo que ela é linda do jeito que é, vangloriando sua beleza (como fazemos sempre aqui), e ela foi soltando mais. Disse: "mas é que não tem ninguém da minha sala com 'esta cor'", "eu não gosto" e "um amigo meu me disse que eu sou feia". Coloquei-a em frente ao espelho e perguntei quem ela via ali. Ela disse: "EU!", e eu perguntei se ela se achava feia mesmo, olhando no espelho. Ela disse que não.
Perguntei, momentos depois, quem foi o amigo que disse que ela era feia, ela respondeu "João", e eu perguntei como ele disse isso. A resposta me fez chorar: "Ele disse que eu sou feia porque eu sou negra".
Queridos, isto é um assunto MUITO sério e que precisa ser tratado com URGÊNCIA dentro de sala de aula. Sugiro que, de imediato, aproveitem o mote da tarefa para fazer isso, para trabalhar como as crianças estão se enxergando, porque isto é fundamental na auto aceitação e na aceitação das diferenças como um todo.
Falo isso porque, apesar de ser branca, sei o que é o racismo velado do Brasil. E ele ACABA com a autoestima das crianças, inclusive de meninas bem resolvidas como minha filha é. Há menos de 15 dias, meu marido levou surra da PM, de graça. Ele é negro, estava de bicicleta e passando próximo a uma comunidade carente. Quem quiser que tente nos convencer de que esta violência "não tem nada a ver com a cor da pele", porque NÓS SABEMOS que tem.
Sexta-feira tem reunião na escola sobre minha filha, e este será o principal tema, depois do que aconteceu. Acho que este é um problema muito mais grave do que qualquer outro que queiram me falar.
Precisamos agir em conjunto. Quero tentar um encontro de pais e mães (porque acredito que esta criança apenas repetiu o que ouviu em casa, já que o tema 'racismo' está na mídia em função da péssima campanha 'Somos Todos Macacos'). O racismo velado está, finalmente, aflorando. E minha filha foi vítima dele.
Precisamos inserir temáticas raciais e sociais com mais força dentro de uma "escola de brancos". Caso contrário, esta praga social nunca deixará de violentar crianças como a minha filha. Tenho várias sugestões de atuação sobre o tema, livros para se abordar o tema em sala de aula, até uma aula PRONTA, utilizando o livro "Menina Bonita do Laço de Fita", esta aula está disponível no Portal Geledés Instituto da Mulher Negra.
Conheço ativistas do movimento negro, com quem poderia falar para se pensar em uma palestra para pais e mães. Porque é fácil se dizer 'não racista' sendo branco, mas sem fazer ideia do que as pessoas negras sofrem no Brasil, principalmente se elas, como a minha filha, são minoria dentro de um contexto específico, como é o da escola dela. É difícil ser 'diferente' em um ambiente preconceituoso (as crianças trazem os preconceitos de dentro de suas casas), portanto, acho FUNDAMENTAL que se trabalhem DE VERDADE estes preconceitos.
A dor da minha filha é minha dor também. A semente do racismo foi plantada dentro de minha família, de forma bem triste, nos últimos dias. Espero que, com a ajuda da escola, consigamos fazer com que ela não germine, e que minha filha e outras crianças negras não sofram nunca mais com este tipo de semente, que pode destruir a identidade de uma pessoa. Porque, como disse uma amiga minha, negra, "esta ferida plantada na infância não sara nunca".
Agradeço a atenção.
Patrícia.
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