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sábado, 24 de maio de 2014

Por que a Copa de 2014 não empolga?

Por Sergio J Dias

Por que a Copa de 2014 não empolga?
Primeiro, tiraram nossos campos de várzea e os transformaram em condomínios. Há algumas décadas, um dos espaços mais agradáveis de acolhimento e encontro das cidades tem sido alvo do interesse de empreiteiras. Os jovens de diversas comunidades pobres encontravam-se nestes locais, faziam amizades, selavam pactos, expressavam sua agressividade, marcavam jogos, jogavam torneios e campeonatos. Hoje, estes mesmos jovens estão encarcerados em favelas, distantes do olhar do outro e vendo-o como inimigo. Quantas querelas comunitárias foram resolvidas nos limites da várzea? Há nas favelas, atualmente, pequenas quadras, geralmente, em seu ponto mais alto, enfatizando o isolamento e engolindo a sociabilidade.
Por outro lado, os governos pressionados pelo galopante êxodo rural, pela consequente urbanização e pela insignificante reforma agrária, se renderam. A urbanização descontrolada nos expôs ao caos. Restam os “campinhos de society”, minúsculos e caríssimos para serem alugados. Hoje, é comum vê-los locados à empresários de futebol que esperam encontrar craques, cada vez mais raros, em suas “escolinhas”.

Por que a Copa de 2014 não empolga?
Em seguida, vemos o extermínio de nossos craques, morrem aos montes, como baratas, anualmente e violentamente. Perdemos, não só, nossos brilhantes do futebol, mas, milhares de potenciais médicos, engenheiros, professores e trabalhadores, em geral. Sentimos um forte cheiro de  girassóis, palmas ou estrelitzia no ar. Encontramos almas desafetas em nossas caminhadas. A violência escalda nossos corpos, atravessa nossas mentes e compõe um quadro dantesco de indigentes e desaparecidos. Não há no mundo lugar onde a distopia esteja tão em voga. O desespero, por tantas mortes, clama à Olorum por uma solução. Talvez, nosso Deus supremo posso interceder junto aos homens para estancar esta sangria desatada.
Quem será o novo Didi, “o homem da folha seca”, o novo Zico, “o galinho de Quintino”, o novo Leônidas, “o diamante negro”, o novo Pelé, “o craque do século”?
Quase todos se foram!

Por que a Copa de 2014 não empolga?
Em terceiro lugar, cortaram nosso último contato próximo com o futebol, cobrando ingressos a preços absurdos e doando-os às empreiteiras.
O que fizeram ao Maracanã? O que é aquilo? Sua aparência é de um estádio qualquer  europeu. Onde está “o maior estádio do mundo”? Por enquanto a antiga mística ainda faz olhos para quem o vê, porém não é mais o nosso Coliseu, que os italianos insistem em manter original há séculos. Os gladiadores se foram, contudo a arquitetura e a utopia de seus construtores permanecem. Os pobres dali foram expulsos. A geral, parque de delícias de trabalhadores pobres esgueirados à beira do fosso não existe mais. Os ingressos estão pela hora da morte. Assim como a várzea, o Maracanã tornou-se um sonho impossível para a plebe carioca. Contamos então com as tv's de tela plana e preta, esperando reproduzir através de tamanhos incomensuráveis o clima dos estádios de futebol. Algumas marcas chegaram a criar o modo “futebol”, como se fosse possível plasmar a energia contagiante de um clássico.
Outrossim, as empreiteiras, donas de milhares de quilômetros de nossas cidades, se apossaram de nossos templos esportivos e esperam lucrar exponencialmente, pouco se importam com o esporte em si e com o público, a acumulação é o fim de tudo.
Aqui consolidamos alguns aspectos atinentes ao futebol que exprimem a trajetória de seu distanciamento do povo brasileiro. Enfim, enquanto a grande mídia nos definia como o “país do futebol”, o esporte bretão se afastava cada vez mais de todos nós.
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