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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A importância de Abdias do Nascimento para a história do Brasil

Fonte:  brasildefato





Abdias incluiu questões de interesse para a população negra nas grandes discussões nacionais. Seu legado permanece vivo alimentando nossa luta.
10/11/2014
Por Gabriel Rocha
Abdias do Nascimento certamente figura entre as personagens de grande importância na luta histórica dos negros no Brasil, tal qual Luiz Gama, José do Patrocínio, Manuel Querino, José Correia Leite, Carolina de Jesus, Clóvis Moura, Wilson Nascimento Barbosa, Cuti, Beatriz Nascimento, Milton Barbosa, Ney Lopes, Sueli Carneiro, Kabengele Munanga, citando apenas alguns nomes.
No ano de seu centenário podemos fazer um balanço de sua atuação militante e de seu legado em nossa história. Sua trajetória acompanha os diferentes períodos da luta dos negros no Brasil, tendo ele marcado presença em momentos decisivos, atuando em entidades que se destacaram na história do movimento negro nacional como a Frente Negra Brasileira (FNB) na década de 1930 – onde teve seus primeiros anos de militância, ainda na retaguarda – e o Teatro Experimental do Negro (TEN) entre 1944 e 1968, o qual fundou e esteve sempre a frente de suas atividades projetando-se como artista, intelectual e liderança política.
Desde o final dos anos 1940 manteve contato com militantes negros, ou simpatizantes da luta antirracista dos EUA, França, países caribenhos e africanos, contato que se estreitou e se intensificou a partir de 1968 quando iniciou seu (auto)exílio nos EUA e sua militância pan-africanista. Em 1978, numa de suas visitas ao Brasil participou do ato de fundação do Movimento Negro Unificado (MNU)[1].
Nos anos 1980 quando retornou definitivamente ao país participou da fundação do PDT junto com Leonel Brizola, partido pelo qual foi Deputado Federal nos anos 1980 e Senador da República nos anos 1990. Em sua longa trajetória de militância dedicou-se profundamente no combate ao preconceito e a discriminação racial, e na luta por igualdade social entre negros e brancos.
A atuação política de Abdias do Nascimento nos diferentes períodos históricos em que viveu pode ser entendida como um percurso não linear de um sujeito se relacionando com seu espaço e seu tempo, fazendo leituras do mundo em que viveu (deixando também suas impressões neste mundo), buscando respostas para questões pertinentes a sua realidade que também foi – e de certo modo continua sendo – a realidade de muitos brasileiros descendentes da gente que aqui fora escravizada e fora mantida marginalizada no período que sucedeu a abolição.
Neste percurso apreciamos sua adesão e ruptura com idéias e movimentos políticos, marcando posições que aos olhos do observador do presente podem emergir como contradições. Considerando que trata-se de um ser humano – demasiadamente humano – e não um mito, as contradições surgem, o que de maneira alguma reduz sua importância para nossa história.
O envolvimento na década de 1930 com a Ação Integralista Brasileira, quando também freqüentava a FNB não apenas alimentou posteriormente, nos anos 1950, situações de indisposição entre Abdias e setores da esquerda como a UNE, como ainda hoje pode ser apontado por algumas pessoas enquanto um desvio em sua trajetória evidentemente progressista.
É impossível olharmos para o Integralismo e não sentirmos os tons fascistas que dele saltam. Mas para entendermos a adesão a tal movimento ultraconservador por personalidades incontestavelmente progressistas como D. Helder Câmara, José Celso Martinez, o próprio Abdias e outros intelectuais negros e brancos que futuramente vieram a cooperar com o TEN e com a esquerda política, seria necessário outro artigo dedicado à este tema.
O TEN além de atividades dramatúrgicas, exercia o papel de instituição de ensino oferecendo alfabetização para pessoas que aspiravam entrar para o teatro mas não eram alfabetizadas. Promoveu concursos de beleza e de arte negra, publicou livros e o jornal Quilombo, promoveu Fóruns de discussão e reflexão sobre a situação do negro brasileiro.
Boa parte de seus atores eram de origem pobre, empregadas domésticas e trabalhadores braçais. Foi o marco inicial para a carreira das atrizes Ruth de Souza, Léa Garcia e do ator e dramaturgo Haroldo Costa, e teve importante papel pedagógico ao usar a imagem cênica para combater a ideologia do racismo, colocando os negros como protagonistas nos palcos, retirando as representações de inferiorização do negro que era comum no teatro brasileiro.
Nos anos 1950 a produção de Abdias se afasta gradativamente até romper definitivamente com ideias que remetiam à democracia racial como uma realidade entre os brasileiros. Nos anos 1960 denuncia radicalmente a democracia racial enquanto mito mascarador da realidade e instrumento de dominação das elites brancas.
Quando esteve exilado Abdias atuou como professor na Universidade de Buffalo em NY, viajou por África e Caribe, sendo ele o primeiro negro brasileiro a participar de congressos pan-africanistas, continuando sua luta antirracismo em âmbito internacional.
De volta ao Brasil nos anos 1980, eleito deputado federal, foi o primeiro parlamentar negro a dedicar seu mandato à luta contra o racismo, propondo projetos de lei que o enquadram como crime de lesa-humanidade, e propondo mecanismos de ação compensatória para negros no Brasil. Atuou na desapropriação da Serra da Barriga e na transformação desta em patrimônio histórico nacional, na questão das comunidades quilombolas, no questionamento do 13 de maio e na definição do 20 de novembro como dia da Consciência Negra.
Abdias incluiu questões de interesse para a população negra nas grandes discussões nacionais. Seguiu sua atuação política como senador da república entre 1991 e 1994, assumindo posteriormente a mesma função entre 1996 e 1999, com a morte de Darcy Ribeiro, de quem era suplente. Seu legado permanece vivo alimentando nossa luta.


[1]    Abdias participou do ato de fundação do MNU e cooperou com esta organização sem ser filiado a ela.
Gabriel Rocha é bacharel e licenciado em história pela USP, atualmente é bolsista na FAPESP, onde cursa o mestrado em História Social, desenvolvendo uma pesquisa sobre a produção intelectual de Abdias do Nascimento no período do Teatro Experimental do Negro (1944-1968).
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