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sábado, 8 de novembro de 2014

Caso Malaguti: A esquerda diante da questão racial

Há muitos anos atrás em uma aula com a professora Lélia Gonzalez, expoente do movimento negro já falecida, ouvi o relato de uma situação que expunha bem as características do racismo brasileiro. Disse ela que em uma de suas turmas havia um aluno muito atuante politicamente, corajoso militante de movimentos sociais e da esquerda em uma época marcada pela ditadura militar.
Certo dia este jovem chegou em sua sala na universidade muito angustiado e triste. Conversando com ela disse que tinha descoberto o racismo dentro dele. Contou-lhe que em seu trajeto para a universidade passava sempre pelas favelas tijucanas, Borel, Casa Branca, Formiga, e via sempre crianças negras sujas, maltrapilhas, nuas, com nariz escorrendo, e que nunca havia se preocupado com as mesmas. Aquilo lhe parecia natural. Um belo dia, entretanto, passando pelos mesmos mocambos observou, o que lhe pareceu uma cena inusitada. Viu entre as várias crianças negras, uma pequenina branca, com os mesmos sinais de abandono. Neste instante, veio a revolta e a indignação. Afinal, como uma criança branca poderia viver em condições tão repugnantes? Durante dias não pensou sobre o assunto de novo. Mas a partir das reflexões  de Lélia descobriu o racismo implícito em sua consciência e chorou copiosamente.

O professor e intelectual de esquerda Manuel Luíz Malaguti também chorou copiosamente após terminada a entrevista no jornal "O globo" Autor de vários livros críticos ao neoliberalismo, como "Crítica à Razão Informal" e "A quem Pertence o Amanhã, Ensaios sobre o Neoliberalismo" e "Neoliberalismo, A tragédia do Nosso Tempo", os dois últimos em parceria com Reinaldo Carcanholo e Marcelo Carcanholo, e de vários artigos em periódicos e jornais sobre o mesmo tema se viu envolvido em uma trama nunca imaginada por ele. Afinal como alguém que escreve sobre as mazelas do capitalismo, aponta as desigualdades do sistema, clama por justiça social poderia ter exposto de modo tão pouco racional e "acadêmico" sua discordância com o sistema de ações afirmativas na universidade? Como lidar intimamente com esta contradição? Como se postar frente as lideranças dos movimentos sociais, em particular, do movimento negro e demonstrar a coerência de seu pensamento intelectual?

Um detalhe que chama a atenção é o olhar de decepção dos alunos  em relação à fala de Malaguti. Com todo o seu percurso acadêmico ficou um profundo desapontamento neles, que o viam até então como um arauto contra as injustiças do capital.

Em muitos setores intelectuais de esquerda estas contradições também grassam. Não nos enganemos, estas observações compõem um quadro que não se esgota em Malaguti. A força do pensamento racista se impõe como componente ideológico fundamental da sociedade brasileira desde os seus primórdios. E a esquerda não está livre dele, embora, todas as suas boas intenções. Durante muito tempo as sociedades socialistas debateram esta questão. E se dizia que com o avanço socialista a questão racial e étnica estaria superada. Entretanto, verificamos que as experiências socialistas não conseguiram ultrapassar esta problemática, basta ver o que aconteceu com a antiga Iugoslávia, após o fim do socialismo, por exemplo.




Denúncia de racismo na Ufes: estudantes fazem protesto e professor é afastado da turma

Vejo o caso Malaguti, como um alerta e a oportunidade para uma reflexão, defendo a necessidade de um debate sério entre as organizações de esquerda sobre a superação do racismo dentro de suas hostes. Aliás, podemos começar indagando o quanto de racismo está presente na pouca atenção dada ao genocídio cotidiano enfrentado pela juventude negra? E por que, mesmo à esquerda é dada tão pouca relevância a este tema, em minha opinião a mais importante questão social do Brasil na atualidade? Ou mesmo, por que a questão da manutençao da maioridade penal é defendida com tão pouca veemência pela esquerda? E até mesmo, por que o genocídio negro é esquecido pelo governo Dilma, um governo de esquerda? Nem mesmo no site da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República encontramos algo sobre o tema.

Reconhecemos a esquerda brasileira, e todas as suas instituições: partidos, sindicatos, movimentos sociais, como parceiros de qualquer ação antirracista em conjunto com o movimento negro. Este pequeno artigo, a despeito de ser uma crítica à atuação da esquerda na luta antirracista preserva o entendimento do papel fundamental representado por estes movimentos nesta peleja. Entretanto, precisamos avançar e para tanto uma autocrítica se faz indispensável.



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