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quinta-feira, 31 de março de 2016

O suicídio do povo negro





Falo de milhões de homens
em quem deliberadamente inculcaram o medo,
o complexo de inferioridade, o tremor,
a prostração, o desespero, o servilismo.
( Aimé Césaire, Discurso sobre o colonialismo).


O papel do Estado como fomentador da violência racial
A maior parte das 59627 mortes por assassinatos, constituem-se em um suicídio do povo negro, onde jovens negros influenciados por rixas de facções e policiais negros movidos por razões de Estado, a famigerada ideologia da segurança nacional, baseada na Lei de Segurança Nacional, que nas comunidades pobres e nas mentes dos organismos de segurança, em nenhum momento deixou de existir, eliminam-se mutuamente. Na realidade, os pobres e negros nunca experimentaram, de fato, os benefícios da democracia e da cidadania.
 
O corpo negro indesejado e invisível
Nós, neste país vivemos como um povo colonizado, nosso corpo, nossa tez, nosso fenótipo, enfim, é totalmente depreciado. Para encontrar um caminho melhor devemos copiar o corpo branco, eliminando ou tentando escamotear nossas reais características físicas. O espelho nos confronta, espelhando a impropriedade de nossas feições. A borboleta é nossa esperança de transformação definitiva. Temos um DNA corrompido a ser regenerado pelos progressos da técnica e da ciência. Quem sabe um cabelo liso? Quem sabe minha filha os tenha? E como muitos dizem, passado algum tempo, os "parentes" voltam a dar o ar da graça.
Afinal, como diria Fanon:
"Só há complexo de inferioridade após um duplo processo:
— inicialmente econômico;
— em seguida pela interiorização, ou melhor, pela epidermização
dessa inferioridade."
 
O capitalismo dependente e a herança escravista
As relações sociais, ainda são fortemente influenciadas pelas relações escravistas, tendo com exemplo supremo desta realidade a situação das empregadas domésticas que têm suas relações de trabalho, em 2016, parcialmente regulamentadas. A ascensão social da população negra, uma promessa do capitalismo, é comprometida por nossa dependência estrutural do capital estrangeiro, que exige mão de obra barata, e dessa forma, altas taxas de desemprego. Além disso, tal jura esbarra no controle das empresas por capitalistas brancos que se incomodam ao ver um corpo negro se mover com desembaraço pelo ambiente de trabalho. No espaço público, ainda encontramos algum reconhecimento, mas no espaço privado as coisas se complicam.
 
O ideal de branqueamento e a negação do Brasil
Na mídia, em geral, pouco aparecemos, embora, sejamos mais de 50% da população, somos invisibilizados, neutralizados, só temos direito à cota de um negro para cada comercial ou publicidade. É "a negação do Brasil". Recentemente, foi ao ar a novela "Os Dez Mandamentos", a direção da emissora desconheceu e procurou nos fazer esquecer que o Egito é um país africano, de que os próprios judeus têm origem africana, a Etiópia.
Como proposta de uma possível melhora nos oferecem o branqueamento. Propugnam que abandonemos nossa linhagem negra. Segundo esses, nossos filhos e netos encontrariam menos problemas, pois teriam uma tez mais clara, escapando dos terríveis efeitos da cor.
 
A solidão existencial do jovem negro
A partir de algumas dessas meditações podemos imaginar como deve se sentir um jovem pobre, negro e favelado, sem maiores informações ou formação educacional, sem uma concepção religiosa ou ética que lhe faça perceber todas essas contradições a sua volta. As dificuldades, o sofrimento a violência cortante do cotidiano podem construir nele o desejo da própria eliminação, uma vez que, seu semblante, seu corpo, sua fala, já foi excluída.
O desejo da morte então se projeta no outro, pois a morte do outro é igual à sua própria extinção. Pouco importa se já conheçam seu destino. em muitos casos, os país já viveram este impasse, o fado se torna determinado e a tragédia se completa.

 
Por uma educação que ponha fim à servidão
Como bem disse Theodor Adorno, em Educação após Auschwitz:
"... nem se diferencia tanto a dor do outro e a dor de si próprio. Quem é severo (cruel) consigo mesmo adquire o direito de ser severo (cruel) também com os outros, vingando-se da dor cujas manifestações precisou ocultar e reprimir."
Do mesmo texto do autor já citado, acerca do Holocausto Nazista:
"Temo que será difícil evitar o reaparecimento de assassinos de gabinete, por mais abrangentes que sejam as medidas educacionais. Mas que haja pessoas que, em posições subalternas, enquanto serviçais, façam coisas que perpetuam sua própria servidão, tornando-as indignas; que continue a haver Bojeis e Kaduks, contra isto é possível empreender algo mediante a educação e o esclarecimento."


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